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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Sábado de memórias boas


À hora a que este post se publica automaticamente, estou eu em ensaios com o “meu” pianista. Trata-se de alinhavar a minha participação musical na tarde prazerosa que se vai viver na Voz do Operário, entre amigas e amigos... lembrando o José Carlos Ary dos Santos.
A ideia e o convite irrecusável foram da “Associação Conquistas da Revolução”. Os pormenores do elenco e horário podem ver-se no cartaz...

Apareçam...


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Poesia – Ou mais uma forma de explicar uma foice e um martelo


Se a recta é o caminho mais curto entre dois pontos, a curva é o que faz o real ir em busca do infinito.
Oscar Niemeyer – Arquitecto

Curva
A vida, como a terra também é curva.
Por isso é que não podemos ver o futuro.
Miguel Tiago – Geólogo (in “Letras Ígneas”, 2012)

Ambos comunistas, ambos poetas.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Miguel Tiago – "Nascimento" de um livro


Hoje, pelas 18h, no Auditório Campo Grande 56, em Lisboa, o escritor Miguel Tiago corta o cordão umbilical a vários dos seus poemas reunidos no livro “Letras Ígneas”... poemas que agora seguirão o seu caminho.
O livro será apresentado pelo economista (entre outras coisas) Sérgio Ribeiro.
Vou fazer os possíveis por estar presente.
Ah... claro que o Miguel Tiago, como alguns de vós deverão saber, tem por estes dias a tarefa de ocupar (e bem!) um dos lugares de deputado do PCP. Só que, como algumas vezes lembra o “apresentador” Sérgio Ribeiro... não se “é” deputado. “Está-se em deputado”, como ele diz.
Pelo contrário, a condição de poeta é um “estado” permanente e irrevogável e sim... também uma tarefa. Uma tarefa decisiva e inestimável esta, a dos poetas: a de colocar legendas nos nossos sonhos, povoar de palavras as nossas canções, dar um sentido ao futuro!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Papiniano Carlos (1918-2012) – Uma semana negra!



Registando a partida do poeta e companheiro de sempre, Papiniano Carlos, nenhuma palavra é melhor do que lembrar algumas das suas. Militantes, certeiras, belas!

Renovação




Em cada dia morre um homem em mim.

Em cada dia nasce um homem em mim.

Só o itinerário é o mesmo, e isso decerto basta.

E eu tenho saudade dos homens que fui!

E eu anseio, espero os homens que serei!

Dia após dia, eu me renovo, sigo sempre.

Meus olhos de ontem não são meus olhos de hoje.

Um mundo morre, outro mundo nasce em cada dia.

Só o itinerário é o mesmo, e isso decerto basta.



(Papiniano Carlos)

Itinerário

Os milhares de anos que passaram
viram
a nossa escravidão.



NÓS carregámos as pedras das pirâmides,

o chicote estalou,

abriu rios de sangue no nosso dorso.

NÓS empunhámos nas galés dos césares

os abomináveis remos

e o chicote estalou de novo na nossa pele.

A terra que há milhares de anos arroteámos

não é nossa,

e só NÓS a fecundamos!

E quem abriu as artérias? quem rasgou os pés?

Quem sofreu as guerras? quem apodreceu ao abandono?



E quem cerrou os dentes,
quem cerrou os dentes
e esperou?



Spartacus voltará: milhões de Spartacus!



Os anos que aí vêm hão-de ver

a nossa libertação.



(Papiniano Carlos)

domingo, 21 de outubro de 2012

Amália Rodrigues – Diferente...







Para hoje, uma velha canção de intervenção. Numa versão menos conhecida e, provavelmente, inesperada.
Porque aqui se canta um excerto do longo poema original, mas que não é a parte a que estamos habituados na voz do Adriano.
Porque cometo duas “maldades”: convocar para esta canção de intervenção, que tanto sentido faz na hora que vivemos, a voz de Amália Rodrigues e a poesia de Manuel Alegre.
A razão porque coloco aspas nas maldades... é porque a Amália não se afastou de nós. Foi empurrada! Porque as pessoas de esquerda também são capazes de fazer coisas muito tolas... e essa, se bem se lembram, foi uma delas. Quanto ao Manuel Alegre, porque embora tendo encetado há muitos anos um desvio no seu caminho inicial, desvio tão largo e longo, que ainda não terminou... a verdade é que nada do que ele faça ou diga pode apagar a memória, ou o significado e a importância daquilo que escreveu, ao tempo em que nasceu a “Trova do vento que passa” e ele tinha (como aqui cantava o jovem Adriano) “uns cabelos onde nascem os ventos e a liberdade”.
Fiquem pois com esta versão, com música de Alain Oulman.
Bom domingo!
“Trova do vento que passa” – Amália Rodrigues
(Manuel Alegre/Alain Oulman)



sábado, 20 de outubro de 2012

Manuel António Pina (1943 – 2012)


Sétimo Dia

Voltámos, um a um, da tua morte
para a nossa vida como quem regressa a casa
de uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países,
e agora é como se te tivéssemos sonhado.
A voz que, diante da escuridão, suspendemos
quando se desmoronou o mundo para o fundo de ti
erguêmo-la de novo para os afazeres diurnos
e para as horas comuns.
Ainda ontem estávamos sozinhos diante do Horror
e já somos reais outra vez.
A própria dor adormeceu no nosso colo
como um animal de companhia.
(Manuel António Pina, in "Atropelamento e fuga" - 2001)


Embora reconhecendo que, por vezes, caio momentaneamente em tentação... desejar a morte a alguém não faz parte do meu temperamento.

Mesmo assim, tendo que ver António Pina partir e conhecendo a estirpe de muitos dos que vão continuar a escrever e infestar os jornais e televisões diariamente... 

Rais parta isto!!!

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Maria Teresa Horta – Os artistas, esses “gandas” malucos!



Hoje é dia de artistas aqui na casa. A seguir ao adeus à tão simpática figura do Luiz Goes, calha a vez à poeta Maria Teresa Horta... só que esta está bem viva!

Tão viva, que apesar do justificado orgulho por lhe ser atribuído um prémio literário e do respeito e amizade que nutre pelos seus pares, membros do júri, que lho atribuíram... recusa-se a receber o prémio, dado que ele seria entregue por Passos Coelho.

Sem mais comentários... levanto-me e aplaudo!

Afasto de ti com
raiva surda

o corpo
as mãos
o pensamento

e apago secreta
uma a uma
as velas acesas do teu vento

liberta ponho o corpo
em seu lugar
visto a cidade
penteio um rio sedento

penso que ganho
e fujo
e não entendo

penso que durmo
mas não consigo
o tempo

E cede-se o vazio
sobre o meu ventre

e segue-se a saudade
em seu sustento

E digo este meu vício
dos teus olhos
de um verde tão lento
muito lento

Se penso que te deixo
já te quero

Se penso que recuso
já te anseio

Se penso que te odeio
já te espero

e torno a oferecer-te
o que receio

Se penso que me calo
já te grito

Se penso que me escondo
já me ofereço

Se penso que não sinto
é porque minto

Se penso que me olhas
já estremeço

(Maria Teresa Horta - “Minha Senhora de Mim”,1971)

domingo, 30 de outubro de 2011

Fausto e Zeca – Não canto porque sonho


Muitos fazedores de canções, ou por hábito, ou por vontade de fixar um estilo vincado, ou para apostar em fórmulas que tiveram antes sucesso, refugiam-se numa espécie de “zona de conforto” de onde saem canções parecidas umas com as outras, com a mesma sonoridade, os mesmos ritmos, os mesmos temas. Isso pode tornar-se bastante maçador... a menos que se tenha o engenho e a arte do Fausto Bordalo Dias.
A “zona de conforto” do Fausto é aquele ambiente fortemente ritmado, feito de uma mistura de “malhão” ou “chula” estilizados, temperada com algum balanço africano... sobre um cenário de epopeias de descobrimentos e outras aventuras mais ou menos marinheiras e salgadas. Essa “fórmula” já lhe rendeu muitas grandes cantigas ao longo dos anos, sendo “O barco vai de saída”, do grande disco “Por este rio acima”, o exemplo mais brilhante.
Felizmente (para o meu gosto) o Fausto tem muitas vezes a coragem de sair da sua “zona de conforto”. É nessas alturas que produz os momentos mais belos da sua música. Foi assim que nasceu “Atrás dos tempos vêm tempos”, “Eu tenho um fraquinho por ti”, “Foi por ela”, entre tantas... e, destacada à frente de todas, a pérola que é “Se tu fores ver o mar (Rosalinda)”.
Deu-nos também este belíssimo “Não canto porque sonho”, música feita de parceria com o A.P. Braga e a participação vocal do José Afonso.
Ah... e os versos de um tal Eugénio de Andrade (depois de algumas “montagens cirúrgicas” típicas dos compositores e das suas necessidades de ritmicas) deram uma belíssima ajuda.
Bom domingo!
Não canto porque sonho

Não canto porque sonho. 

Canto porque és real. 

Canto o teu olhar maduro, 

o teu sorriso puro, 

a tua graça animal.



Canto porque sou homem. 

Se não cantasse seria 

o mesmo bicho sadio 

embriagado na alegria 

da tua vinha sem vinho. 



Canto porque o amor apetece. 

Porque o feno amadurece 

nos teus braços deslumbrados. 

Porque o meu corpo estremece 

por -los nus e suados.
(Eugénio de Andrade)

Não canto porque sonho” – Fausto e José Afonso
(Eugénio de Andrade/Fausto/A.P.Braga)



segunda-feira, 25 de abril de 2011

Dia 25 de Abril



("Liberdade" - Maria Helena Vieira da Silva)




domingo, 24 de abril de 2011

Ary dos Santos – As portas que Abril abriu


(Nikias Skapinakis – “Delacroix no 25 de Abril”)

Hoje, dia 24 de Abril, quanto mais se aproxima a noite, mais intensa se torna a memória dessa fantástica mudança de data, mudança de vida, mudança da noite para o dia, que foi a entrada no dia 25 de Abril de 1974.
Por muito que alguns lamentem não ter, a tempo, liquidado nas prisões todos aqueles que traziam Abril a germinar no pensamento; por muito que outros se “arrependam” de o ter feito; por muito que se queira mascarar de evolução aquilo que foi revolução; apesar das muitas gavetas onde se foi guardando, escondendo, exilando e tentanto amordaçar as conquistas de Abril... Abril fez-se e está aí!
Lembrá-lo, ativamente, todos os dias, é já defendê-lo. Cantá-lo, é já fazê-lo avançar... para que se cumpra. Livre, justo e plural, tal como foi sonhado.
Eu sei que hoje é domingo, e que aos domingos é dia de música aqui na casa... mas quem é que diz que este poema e a voz do Ary não são uma canção?


Vale bem a pena ganhar estes oito minutos e meio a ouvi-lo e recordá-lo.


Bom domingo!
“As portas que Abril abriu” – Ary dos Santos
(José Carlos Ary dos Santos)



domingo, 23 de janeiro de 2011

Mercedes Sosa - Los hermanos


(Mercedes Sosa, retratada pelo grande pintor equatoriano Guayasamin)
Mercedes Sosa foi, por muitas vezes, a voz do seu companheiro de canções, cantor, autor e grande músico, Atahualpa Yupanqui. Hoje sê-lo-á mais uma vez. Hoje é um domingo diferente... para acompanhar com uma canção extraordinária!
Los hermanos
Adaptação (muito) livre dos versos de Atahualpa Yupanqui
Eu tenho tantos irmãos, que não os posso contar; nos vales, nas montanhas, nas planícies, no mar. Cada um com os seus problemas, cada um com os seus sonhos, com a esperança pela frente e um passado de recordações.
Eu tenho tantos irmãos, que não os posso contar.
Gente com as mãos quentes da amizade, com uma oração para orar, com um lamento para chorar... com um horizonte aberto, que está sempre longe, mas com a força para o buscar, com confiança e vontade; quando parece mais próximo é quando mais se afasta...
Eu tenho tantos irmãos, que não os posso contar.
E assim vamos caminhando, curtidos pela solidão, perdemo-nos pelo mundo para nos voltarmos a encontrar. E assim nos reconhecemos, apenas com um olhar, de longe, ou pelas canções que “mordemos” – sementes de imensidão. E assim vamos caminhando, curtidos pela solidão; e connosco, os nossos mortos, para que ninguém fique para trás.
Eu tenho tantos irmãos, que não os posso contar. E uma irmã - a mais formosa - que se chama liberdade.

Bom domingo!
los hermanos” – Mercedes Sosa
(Atahualpa Yupanqui)



terça-feira, 18 de janeiro de 2011

José Carlos Ary dos Santos – 27 anos


Faz hoje vinte e sete anos que o José Carlos Ary dos Santos nos legou a tarefa de tomar conta da sua obra e da sua memória. Por isto e por aquilo, por falta de tempo ou de atenção, nem sempre o teremos feito tão bem quanto deveríamos... mas sempre que o fazemos, é com o coração.
Atrevam-se a perder um pouco mais de oito minutos de uma qualquer irrelevância e ganhem-nos, ouvindo o poema “As portas que Abril abriu” da melhor maneira imaginável: dito pelo Ary.
Ninguém corre perigo. Apenas alguns de nós sentirão, como eu sentirei, aquela fantástica palmada no ombro... aquela espécie de sismo com que ele festejava a onda de aplausos que o traziam do palco até aos bastidores, a perguntar: saiu bem? Achas que gostaram? E toda a gente “lá fora” ainda gritando AryAryAry!”... ou “Vinte e cinco de Abril sempre, fascismo nunca mais!”... o que queria dizer exatamente o mesmo.


“As portas que Abril abriu” – Ary dos Santos
(José Carlos Ary dos Santos)


domingo, 2 de janeiro de 2011

Cavaco e o Ano Novo – “Um corno, um passa-fora, um arre, um irra”




Sim, sim... também vi e ouvi a mensagem de Ano Novo de Cavaco Silva. Estava mesmo ali... e pronto! Quando reagi já era tarde. Agora acho-me na obrigação de dizer que:

1. Admiro a contenção e profissionalismo da moça da língua gestual. Fosse eu... e não resistiria a introduzir aqui e ali uns “apartes” com os dedos...

2. Agradeço que alguém me informe de uma direção postal para onde possa devolver a porcaria da Mensagem de Ano Novo do homem. Eu até a enfiaria num coiso daqueles da reciclagem... mas sei lá se aquilo é para o amarelo, se é para o azul, se é para o verde... ainda por cima, não temos cá, ao contrário do Brasil, o recipiente laranja, destinado a materiais perigosos.

3. Eu sei que hoje é dia de música neste estabelecimento, mas para mim, a voz do José Carlos Ary dos Santos... é música. Colocar hoje aqui este áudio-soneto escrito pelo Bocage e dito pelo Zé Carlos não quer dizer, necessariamente, que o esteja a dedicar a Sua Excelência o Presidente da República. Só que comecei a pensar em outros nomes e a lista cresceu tanto e tão rapidamente, que desisti... e na verdade, vocês também têm que fazer alguma coisa, não?! Dediquem-no a quem quiserem... e bom domingo!



A um célebre mulato Joaquim Manuel,
grande tocador de viola e improvisador de modinha

Esse cabra ou cabrão, que anda na berra,
Que mamou no Brasil surra e mais surra,
O vil estafador da vil bandurra,
O perro, que nas cordas nunca emperra:

O monstro vil que produziste, ó Terra
Onde narizes Natureza esmurra,
Que os seus nadas harmónicos empurra,
Com parda voz, das paciências guerra;

O que sai no focinho à mãe cachorra,
O que néscias aplaudem mais que a "Mirra",
O que nem veio de prosápia forra;

O que afina inda mais quando se espirra,
Merece à filosófica pachorra
Um corno, um passa-fora, um arre, um irra.

(Bocage)

“A um célebre mulato” – Ary dos Santos
(Manuel Maria Barbosa du Bocage)


sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O futuro





O futuro

Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente

Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.
                                      
(José Carlos Ary dos Santos)

domingo, 26 de dezembro de 2010

Rescaldo – Razão tinha o Sebastião da Gama...





          Quando eu nasci
          Quando eu nasci
          Ficou tudo como estava
          Nem homens cortaram veias
          Nem o sol escureceu
          Nem houve estrelas a mais
          Somente
          Esquecida das dores
          A minha mãe sorriu e agradeceu

          Quando eu nasci
          Não houve nada de novo
          Senão eu

          As nuvens não se espantaram
          Não enlouqueceu ninguém...

          Pra que o dia fosse enorme
          Bastava
          Toda a ternura que olhava
          Nos olhos de minha mãe

                Sebastião da Gama




Adenda: Como toda a gente terá reparado, este poema foi escrito por Sebastião da Gama e não José Régio, como durante umas horas "pareceu". O dia não foi dado a grande atenção ou concentração...  espero que o post que estava aqui preparado, sobre o José Régio, não vá sair, quando sair, com uma fotografia do Sebastião da Gama...  esperemos para ver!
Entretanto, as minhas desculpas aos leitores, ao Régio e ao Sebastião da Gama! Como bem disse uma leitora (identificada) a idade não perdoa. :-)))