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domingo, 17 de fevereiro de 2013

Brasil pandeiro – Quando o bom é amigo do óptimo


“Chegou a hora dessa gente “bronzeada” mostrar seu valor...”
Começa assim a letra de um histórico samba composto ainda nos anos 40 por Assis Valente. É um verdadeiro hino ao povo brasileiro e à sua cultura, um samba irresistível e genial que, depois de um período de incompreensão inicial, resultado da falta de gosto (e cultura) da artista a quem se destinava, acabou por ser largamente reconhecido. Foi já interpretado por centenas de artistas e mantem-se em grande forma, podendo, a ver pela letra... continuar a ser cantado por toda a gente (com excepção do Arménio Carlos, evidentemente!).
Partilho-o convosco em dois diferente vídeos. O primeiro, com Ivete Sangalo e a grande sambista Beth Carvalho.
A Ivete Sangalo, trasbordando talento e fazendo tudo o que é possível para agradar a uma plateia que sabe ser composta por apreciadores da Beth, num espectáculo em que era convidada da histórica artista. A mostrar que, como já tenho dito, devia “visitar” a música de qualidade mais vezes... quanto mais não fosse, para descansar daquelas loucuras mais ou menos “aeróbicas” com que faz quase todo o dinheiro que (muito justamente!) ganha.
Já Beth Carvalho, não precisa de fazer rigorosamente nada... ou, pelo menos, dá a ideia de que não faz. Os sambas parecem todos ter nascido na sua garganta, por onde escorrem com doçura e com a misteriosa simplicidade das coisas naturais.
Visto este vídeo, fica a sensação de que mais nada se poderia fazer com este samba.
É aí que entra o segundo! Qual é forma inteligente de repetir uma coisa irrepetível, de “bater” uma versão imbatível? É esta! Criar um produto tão diferente, tão criativo, tão bem feito, tão respeitador da raiz e da cultura que lhe deu vida... que esse produto se transforma num renascimento, num abraço de ternura ao original.
Para conhecer toda a gente que faz este vídeo delicioso, basta estar com atenção até ao fim, quando passa uma ficha técnica com a identificação de todos... mas atenção à jovem cantora Luê. Ainda agora gravou o seu primeiro disco, mas desconfio que iremos continuar a ouvir falar dela.
Bom domingo!
“Brasil pandeiro” – Beth Carvalho e Ivete Sangalo
(Assis Valente)


“Brasil pandeiro” – Luigi Bertolli
(Assis Valente)



domingo, 30 de janeiro de 2011

Renato Teixeira – Os autores, esses desconhecidos


No mundo das cantigas identificamos, antes de tudo, as cantoras e os cantores. Independentemente dos conceitos de cada um de nós sobre o que é cantar mal ou bem, tendo uma "bela" voz ou nem por isso, são os intérpretes o veículo das melodias e das palavras que nos empolgam para enfrentar a vida, que nos enternecem, ou que, muito simplesmente nos divertem. As cantigas ficam para sempre ligadas aos seus intérpretes. De tal modo que, quase sempre, ouvimos dizer que esta ou aquela canção é de fulana ou de beltrano, que a cantam, independentemente do facto de uma enorme parte dos intérpretes de canções nunca ter composto ou escrito canção alguma.
No entanto, por detrás de cada cantiga existem autores. Aqueles que apenas escrevem letras ou músicas, ficando na sombra e aqueles, a que gosto de chamar “cantautores” e que, com mais ou menos voz, dão a cara pelas suas obras, cantando-as.
Esta é a altura certa para a entrada em cena do nosso convidado de hoje, o brasileiro Renato Teixeira, criador e defensor da música “caipira” (não confundir com o subproduto mais comercial, a música “sertaneja”), instalado há muitos anos nos corações de uma boa fatia do povo brasileiro. Renato Teixeira nasceu em 1945, tem a arte de fazer grandes canções e seria por cá também muito conhecido, não fosse o facto de nós não “pescarmos” quase nada de música brasileira e portanto, para nós, a sua canção mais conhecida ser apenas aquela canção fantástica "da Elis Regina”... a “Romaria”.
Renato Teixeira gosta de explicar as suas canções, ou, pelo menos, dar uma ideia da razão por que as escreveu. Por vezes o desespero é tanto, o milagre é tão necessário, que mesmo aqueles que não sabem como rezar, esperam comover a Santa apenas com o seu olhar... – diz ele a propósito duma passagem da sua “Romaria”.
Sobre quem aqui vem cantá-la com ele, para além de dizer que já é repetente e de repetir que se trata de uma cantora que na sua vida “normal”, não poucas vezes (para mim, claro!) pisa o risco do “brega”, o nosso “pimba”... mas em brasileiro, é bom constatar que continua a fazer estas “fugas” para cantar grandes canções, normalmente em duos memoráveis. Aí está ela, a Ivete Sangalo, sentada, sem levantar “poêrapoêra”, muitíssimo grávida e acariciando discretamente o bebé enquanto canta... iluminando a mina escura e funda, o trem da nossa vida...
Bom domingo!
“Romaria” – Ivete Sangalo e Renato Teixeira
(Renato Teixeira)