domingo, 11 de abril de 2010

London, London... e o Zeca



Por causa de um dos meus próximos compromissos musicais, que terá lugar no Couço, lembrei-me da grande figura que foi José Labaredas, um amigo que fazia questão de ser a cara do Couço e melhor “porto de abrigo”, nas minhas várias passagens por lá, nos anos extraordinários do “Canto Livre” e da "Reforma Agrária”. Este homem da cultura, da política, dos petiscos, da fadistice e do jazz terá sido uma das personagens da estória de hoje.

Reza a “lenda” que tudo se terá passado por alturas da gravação do grande disco “Traz outro amigo também”, do José Afonso, gravação que foi feita em Londres. Numa das saídas nocturnas destinadas (pelo menos costuma ser a desculpa) a descontrair, recuperar forças e ideias para as gravações do dia seguinte, juntaram-se num restaurante português o José Labaredas, músicos do disco, mais uns amigos e amigas, a Zélia (companheira do Zeca) e ele próprio. Quis o acaso que aparecessem por lá nessa noite dois jovens exilados artístico/políticos brasileiros, de seu nome Gilberto Gil e Caetano Veloso.

Feitas as apresentações de quem ainda não se conhecia, o Caetano Veloso, ainda muito verde nas “coisas do exílio”, fazia muitas perguntas, sobre como era a realidade do dia a dia. Justificou-se com o facto de muitos amigos que deixara no Brasil lhe perguntarem como era a sua vida em Londres, pedindo-lhe até, alguns, que escrevesse uma canção sobre isso... sendo que não tinha ideia alguma do que pôr nessa canção.

Reza a “lenda” que por essa altura, o Zeca terá trauteado “do nada” uma das suas frases musicais, quase sempre originadas por um ritmo... técnica que lhe servia para compor boa parte das suas cantigas.

Reza a “lenda” que essa pequena frase musical despoletou a primeira canção que o Caetano Veloso fez e gravou sobre a sua vida em Londres, a que chamou “London London”. Ouvidos mais treinados, juram que a frase do Zeca está lá, misturada na cantiga. Eu juraria que é no pequeníssimo refrão «While my eyes go looking for flying saucers in the sky».

Se isto nunca aconteceu, pelo menos foi bem imaginado. Na verdade já tinha há muitos anos ouvido esta estória, mas quando a li aqui, “recontada” por alguém que, ainda por cima, diz que estava lá…

De qualquer modo, ouçam a cantiga, em inglês no original, aqui numa deliciosa versão da jovem cantora brasileira Cibelle, um valor a descobrir, na novíssima música do Brasil, ela própria, embora por sua vontade, “exilada” em Londres.

Bom Domingo!


“London, London”
(Caetano Veloso)

I'm wandering round and round, nowhere to go

I'm lonely in London, London is lovely so

I cross the streets without fear

Everybody keeps the way clear

I know I know no one here to say hello

I know they keep the way clear

I am lonely in London without fear

I'm wandering round and round, nowhere to go


While my eyes go looking for flying saucers in the sky (2x)
Oh Sunday, Monday, Autumn pass by me

And people hurry on so peacefully

A group approaches a policeman

He seems so pleased to please them

It's good at least, to live and I agree

He seems so pleased, at least

And it's so good to live in peace

And Sunday, Monday, years, and I agree

While my eyes go looking for flying saucers in the sky (2x)


I choose no face to look at, choose no way

I just happen to be here, and it's ok


Green grass, blue eyes, grey sky (2x)

God bless silent pain and happiness

I came around to say yes, and I say

While my eyes go looking for flying saucers in the sky.

"London, London" - Cibelle
(Caetano Veloso)

7 comentários:

Swt disse...

Sabe onde eu vou linkar este post, não sabe??? eheheheheheh

Rosa dos Ventos disse...

Para já um vídeo muito bem montado com o contraste entre o presente e o passado, uma voz extremamente melodiosa, uma bela música e és capaz de ter razão na marca do Zeca no "refrão"!


Abraço

Fernando Samuel disse...

Bela história.
(sabes?: tenho saudades do Labaredas)

Um abraço.

Jeremias disse...

O zé Labaredas foi um homem de muitos oficios, partiu cedo demais, paz à sua alma, como diz o Tordo.
O Zé foi mecânico de pasteleiras era ele que remendava os furos nesse tempo pós 25 de Abril seguindo o negócio do pai Labaredas.
O Zé fazia como ninguém tapete de Arraiolos com todos os SRs que estudou e aperfeiçoou.
O Zé excelente na cozinha não se importava de emborcar para a panela uma garrafa de vinho extra caro dizendo se é bom a beber melhor será a comer...
O Zé era um péssimo condutor, conta-se que uma vez disse para om amigo que seguia ao seu lado, aquilo não é uma roda que ali vai...e era a do seu clio.
Em determinada altura foi batizado de Zé Rãp Kyao de Labaredas na sua fase de trombone.
Foi uma figura inesquecivel aqui no Couço.

aldeiavermelha disse...

Eu, vou lá estar a ouvir na primeira fila quando tu contares essa estória outra vez! :)

Maria disse...

Quantas estórias haverá como esta?
E quem as pode confirmar?

:(

Alien8 disse...

Interessantíssima, a história. Ainda bem que aqui a divulgaste, e o link também, que já lá fui ver umas coisitas...