terça-feira, 19 de agosto de 2008

Federico Garcia Lorca (1898-1936)


Retrato do jovem Lorca, no documento de entrada na Universidade, em que se pode ver a sua juvenil assinatura, que a vida e um intenso contacto com as artes viriam a transformar nesta:
“Adivinha da guitarra”

Na redonda 
encruzilhada,

6 donzelas
bailam.

3 de carne
e
3 de prata.

Os sonhos de ontem procuram-nas

porém têm-nas abraçadas

um Polifemo de ouro.

Ai!, guitarra!
(Federico Garcia Lorca)

Lorca é a grande poesia, a voz que vem do mais fundo de uma Espanha culta e a transbordar de História, é o grande teatro representado em milhares de palcos por todo o mundo. Já faz parte dessa entidade vibrante e inexplicável que dá vida às danças e ao “cante” a que os espanhóis chamam “duende”.
Em 19 de Agosto de 1936, Lorca era um jovem adulto com 38 anos de idade. Já se tinha afirmado como grande poeta, grande dramaturgo, praticante de música, pintor e desenhador compulsivo. Era um amante da liberdade, do seu povo, da sua cultura e um defensor do socialismo, tudo coisas ofensivas para os fascistas espanhóis.



Em 19 de Agosto, em Granada, um dos membros da matilha de Francisco Franco, com a lucidez assassina que guia as feras, declarou “Ele é mais perigoso com a caneta do que muitos com o revólver!” e deu ordens para a sua execução, sem qualquer acusação ou julgamento, com um tiro na nuca.
A onda de revolta contra esse crime abjecto, que percorreu o mundo nessa altura e a presença constante que a obra poética e teatral de Lorca mantêm no mundo da cultura até aos dias de hoje, mostram que efectivamente, o assassino “tinha razão”...

"Ay qué terribles cinco de la tarde!
Eran las cinco en todos los relojes!
Eran las cinco en sombra de la tarde!"
(Lorca - Excerto de “La cogida y la muerte”)

"Cancioón del Jinete" - Paco Ibañes
(Federico Garcia Lorca / Paco Ibañes)



17 comentários:

salvoconduto disse...

Ninguém conseguiu matar o poeta, ele continua vivo na nossa memória e est post é exemplo disso!

Abraço

Maria disse...

Estou aqui arrepiada desde o princípio do post...
E vou ficar, e vou ficar e vou ficar.
Aqui. Até me cansar de ouvir Paco Ibañez.
Obrigada, Samuel!.

Um abreijo especial

Ludo Rex disse...

Merecida Homenagem. “Mas o que vou dizer da Poesia? O que vou dizer destas nuvens, deste céu? Olhar, olhar, olhá-las, olhá-lo, e nada mais. Compreenderás que um poeta não pode dizer nada da poesia. Isso fica para os críticos e professores. Mas nem tu, nem eu, nem poeta algum sabemos o que é a poesia.” García Lorca

Ana Camarra disse...

O meu favorito:

Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra pela cintura
ela sonha na varanda,
verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Por sob a lua gitana,
as coisas estão mirando-a
e ela não pode mirá-las.

Verde que te quero verde.
Grandes estrelas de escarcha
nascem com o peixe de sombra
que rasga o caminho da alva.
A figueira raspa o vento
a lixá-lo com as ramas,
e o monte, gato selvagem,
eriça as piteiras ásperas.

Mas quem virá? E por onde?...
Ela fica na varanda,
verde carne, tranças verdes,
ela sonha na água amarga.
— Compadre, dou meu cavalo
em troca de sua casa,
o arreio por seu espelho,
a faca por sua manta.
Compadre, venho sangrando
desde as passagens de Cabra.
— Se pudesse, meu mocinho,
esse negócio eu fechava.
No entanto eu já não sou eu,
nem a casa é minha casa.
— Compadre, quero morrer
com decência, em minha cama.
De ferro, se for possível,
e com lençóis de cambraia.
Não vês que enorme ferida
vai de meu peito à garganta?
— Trezentas rosas morenas
traz tua camisa branca.
Ressuma teu sangue e cheira
em redor de tua faixa.
No entanto eu já não sou eu,
nem a casa é minha casa.
— Que eu possa subir ao menos
até às altas varandas.
Que eu possa subir! que o possa
até às verdes varandas.
As balaustradas da lua
por onde retumba a água.

Já sobem os dois compadres
até às altas varandas.
Deixando um rastro de sangue.
Deixando um rastro de lágrimas.
Tremiam pelos telhados
pequenos faróis de lata.
Mil pandeiros de cristal
feriam a madrugada.

Verde que te quero verde,
verde vento, verdes ramas.
Os dois compadres subiram.
O vasto vento deixava
na boca um gosto esquisito
de menta, fel e alfavaca.
— Que é dela, compadre, dize-me
que é de tua filha amarga?
— Quantas vezes te esperou!
Quantas vezes te esperara,
rosto fresco, negras tranças,
aqui na verde varanda!

Sobre a face da cisterna
balançava-se a gitana.
Verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Ponta gelada de lua
sustenta-a por cima da água.
A noite se fez tão íntima
como uma pequena praça.
Lá fora, à porta, golpeando,
guardas-civis na cachaça.
Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar.
E o cavalo na montanha.

Abreijos

Maria disse...

Ainda não saí daqui.
E depolis do Verde que te quero verde de cima, deixo-te outro ver, da autoria de.... desse mesmo:

Verde

Verde que te quiero verde, ¡ay!
verde que te quiero verde.
Verde que te quiero verde, ¡ay!
verde que te quiero verde.

Los toros se han revelado,
la impotencia llora y llama,
y desde un río de sangre
hay una voz que reclama, ¡ay!
hay una voz que reclama
la importancia de un amigo,
poeta de cien mil lunas,
garganta dura y hombruna,
gitano de profesión, ¡ay!
por quien hoy rompo yo la voz.

Verde que te quiero verde, ¡ay!
verde que te quiero verde.

Se te escapó la mañana
por detrás de la alcazaba,
caminando ya sin prisas,
amaestrando sonrisas, ¡ay!
amaestrando sonrisas;
y se tiñeron los campos
verdes de la primavera
cuando la nación entera
cabalgó sobre tu llanto ¡ay!
Tú poeta, y ellos tantos...

Verde que te quiero verde, ¡ay!
verde que te quiero verde.

Hoy el verso me reclama
una luz y una llamada,
un canto de cuerpo y alma
como el que el tuyo cantaba, ¡ay!
como el que el tuyo cantaba.

Y el pueblo llora la calma,
y canta porque se ahorca,
y hace tu muerte inmortal
cada vez que alguien te nombra
Federico García Lorca.

Patxi Andión


Abreijos

zambujal disse...

"A morte não foi apagamento para FEDERICO GARCIA LORCA, ao tombar crivado de balas em terra de su Granada", assim começa a "significação" com que Joaquim Namorado abre o seu caderno da Editorial Saber, de 1943 sobre a vida e obra de Federico Garcia Lorca.
Obrigado por ajudares a comprová-lo.
Grande abraço

Fernando Samuel disse...

Lorca, pois claro...

Excelente post, excelente homenagem.

Um abraço.

Daniel de Sá disse...

Ai Samuel, do que me foste lembrar! Quantas vezes caminhei pela tarde naquela estrada que sai de Granada e que foi a última por onde Federico andou! Por isso te peço que não me censures por deixar aqui a minha homenagem, em forma de um poema que escrevi há uns tempos, e que contém um ou outro verso do próprio Lorca ou sua paráfrase.
La niña amarga

Silencio de miedo y muerte.
Sangre en las hondas heridas.
Un fusil bordando a rojo
Sobre una tela de piel.
En el aire vuelan nubes
Del humo oliendo a la muerte.
Un último trueno sordo
Llega callado a Granada.
El monte busca llanuras
Porque quiere arrodillarse.
Federico se ha dormido
En un barranco de olivos
Entre Alfacar y Viznar.
Su piel, sábana de muerto
O tela de bordadora,
Que era de una sola pieza
Como túnica de Cristo,
Ahora tiene agujeros.
Tiene cinco heridas cinco,
Muy hondas, hasta su alma,
Abiertas por el fusil.
Tiene cinco llagas cinco
Como las llagas de Cristo.
Federico duerme ahora
En esas bodas de sangre.
Vaso de muerte y de misa.

Sal disse...

Em boa hora me foste lembrar este senhor...
Grande Lorca!
Excelente post.
bjs

São disse...

Que mais posso dizer, além de agradecer estes momentos preciosos?!
Boa semana, também para a minha querida Maria.

Lúcia disse...

O meu aplauso. Este post é uma brilhante homenagem.
Beijos

Justine disse...

Está vivo e connosco na sua poesia, na sua arte total. Mas é bom acordá-lo, como fizeste hoje.
Obrigada, e um beijo

BlueVelvet disse...

Depois de vir da Maria era de prever que ia encontrar este post.
Mas o Paco...
Faço como ela. Fico por aqui mais um pouco.
Abreijinhos

Pata Negra disse...

Ó Samuel,
só me ocorre dizer-te obrigado por este momento!
Um abraço antes que nos matem

samuel disse...

Resisti até o Daniel de Sá comentar com um poema seu... agora já não resisto.
Vocês fizeram desta caixa de comentários, hoje, a mais bonita da blogosfera...

Obrigado!

Daniel de Sá disse...

Samuel, sabes como são estas coisas. O principal para um poema, uma canção ou um comentário é o tema. Ora, se nos serviste Federico tão belamente, que esperavas que a gente fizesse?

Rosa dos Ventos disse...

Bela e comovente homenagem a Lorca na voz de outro lutador!

Abraço