domingo, 13 de julho de 2008

Caetano Veloso ao Domingo




Se houvesse, por absurdo, que escolher entre o Chico Buarque e o Caetano Veloso (ainda bem que não!), cá em casa sem dúvida ganhava o Chico. Ao contrário deste, que desde "A banda" até aos discos que irá ainda fazer, consegue vender-me sem dificuldade as obras completas, o Caetano sempre me "obrigou" a colocar na beira do prato uma grande quantidade das suas canções, por vezes quase discos inteiros, não por razões musicais, mas por alguns dos temas pelos quais sempre se interessou, desde a fase muito "hippie", até aos vários misticismos, esoterismos e etc, tão do agrado de grande parte dos brasileiros e alguns portugueses.
De qualquer modo, como todo o grande autor e compositor, quando Caetano Veloso resolve pousar os pés na Terra e fazer uma "canção de intervenção" é capaz de o fazer com grande arte e o tremendo estrondo que se pode escutar nesta extraordinária versão do seu "Haiti", uma espécie de murro no estômago vestido de versos.
Entre as várias versões possíveis, todas boas, escolhi esta por ter um arranjo musical do Jaques Morelembaum (o homem do violoncelo) que "é obra"!
Como de costume, leiam, ouçam, vejam... em separado ou tudo ao mesmo tempo e digam coisas... 
Bom Domingo!


Haiti
(Caetano Veloso)

Quando você for convidado pra subir no adro da
Fundação Casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos
E outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se olhos do mundo inteiro possam
estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque, um batuque com a pureza de
meninos uniformizados
De escola secundária em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada
Nem o traço do sobrado, nem a lente do Fantástico
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém
Ninguém é cidadão
Se você for ver a festa do Pelô
E se você não for
Pense no Haiti
Reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico
Mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo
Qualquer qualquer
Plano de educação
Que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
do ensino de primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua
sobre um saco brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina
111 presos indefesos
Mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos
Ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres
E todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti
Reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui

"Haiti" - Caetano Veloso
(Caetano Veloso)

16 comentários:

Daniel de Sá disse...

Samuel, desculpa, mas é a minha opinião. O poema parece-me cheio de lugares-comuns, a música é demasiado rap (que nasceu lá perto) para o meu gosto, enfim, tenho ainda no ouvido "uma cova gande, muito larga e funda" e, na memória, a idade que o Chico e eu tínhamos nese tempo.

Maria disse...

Nem de propósito... :)
Excelente este Caetano!

Obrigada, Samuel

Abreijos

zambujal disse...

Respeitando outras opiniões... gostos são gostos, fiquei absolutamente impressionado por esta interpretação, eu branco quase preto quase pobre quase nada quase Haiti que é aqui que não é aqui e que é aqui e ali e aí quase ai. Quase!
Obrigado e um grande abraço

Fernando Samuel disse...

Vi, ouvi e li e achei... magnífico!
(sobre o Chico e do Caetano subscrevo a tua opinião)

Um abraço.

samuel disse...

Daniel
Se estás a lembrar o "Funeral de um lavrador" da nossa juventude, essa é como disse, uma das razões pelas quais se tivesse de escolher entre os dois...

Abraço

BlueVelvet disse...

Samuel,
nem sempre podemos estar de acordo, não é mesmo?
Eu, se tivesse que escolher ( e ainda bem que não tenho), escolheria Caetano.
Em qualquer caso,lendo esta letra pungente, batida e sofrida, consigo ver naquele Largo que tão bem conheço,... os quase pretos
Ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres...
Excelente, como sempre.
O post!
Abreijinhos

poesianopopular disse...

A escolha não é o mais importante!
Omais importante é ouvir a mensagem e meditar sobre ela!
Sinceramente:não fiquei maravilhado ,mas tambem não me desagradou.
Abraço companheiro!

Rosa dos Ventos disse...

Um murro no estômago de facto!

Abraço

linhadovouga disse...

Brutal, um verdadeiro "murro no estômago" na mensagem crua. E musicalmente interessantíssimo, a casar bem com o poema.

Sal disse...

Muito interessante, Samuel.
Não conhecia.
Aprender sempre, dizia o outro...

bjs

Justine disse...

Também sou fã incondicionalíssima do Chico, mas este Haiti é perfeito! Obrigada e que tenha sido um gande domingo:))

Pata Negra disse...

É por isso que guardo religiosamente o vinil: Caetano e Chico e "cantarolo" tantas vezes duas ou três daí acompanhado pelo silêncio da lâmina de barbear!
Obrigado por me revelares esta parte de Beloso! A cantar é que gente se entende!
Um abraço de chico caetano

Daniel de Sá disse...

Samuel, eu sei que isto em que nos puseste foi como, no meu caso, me tivesses obrigado a escolher entre Zeca Afonso e tu mesmo. E é esse "Funeral" espantoso, que chegou a ser representado aqui na Maia por alunos da Escola Comercial de Almada, que me fez acrescentar o Chico a nomes míticos da minha infância, como a Rachel de Queiroz, o Niemeyer ou o Millôr Fernandes. E há aquela sublime pororoca que veio desaguar no Tejo, e que o Gilbert Bécaud ao fim de uma semana, ou pouco mais, já cantava também.

Lúcia disse...

Caetano e Chico - basta estes nomes para os identificarmos. Também por aqui se vota mais no 2º - mas apenas por razões "históricas".
Caetano dá cá uma alegria de viver...:)
Beijos

Jorge disse...

A interpretação de Caetano é muito boa! Já repararam?
Ver também:
http://ocastendo.blogs.sapo.pt/223205.html

lorena disse...

Prefiro não ter que escolher entres esse dois genios da musica brasileira!Acredito que cada um deles tem cançoes que marcam bastante. HAiti, Fora de Ordem do Caetano são minhas prediletas,principalmente, por tratar de assuntos tão polêmicos..guerras e as diferencas socias geradas pelo maldito capitalismo!Mas o velho Chico também tem cançoes excelentes, a fabulosa construçao é um belo exemplo.Além das varias outras, como foi citado funeral de um lavrador!Prefiro nao fazer comapraçoes, cada um tem suas qualidades e suas musicas impossiveis de se esquecer.