domingo, 15 de agosto de 2010

E viva o (bom) ambiente!


(Amália em pintura de rua, numa rua de Vieux Lille, França - Jef Aérosol)

Numa vista de olhos feita à pressa, poucas seriam as coisas que teriam em comum o Fausto Bordalo Dias e Amália Rodrigues. No entanto não é bem assim. Vários seriam os pontos comuns, se analisados mais atentamente, mas hoje interessa-me apenas um.

Fausto e Amália partilham o feito de terem gravado, muito pouco depois do 25 de Abril de 74, e com um pequeníssimo intervalo entre si, duas canções que abordaram um tema em que até aí muito pouco se pensava... pelo menos em termos artísticos: a defesa do ambiente.

O fausto gravou a sua belíssima “Rosalinda” e Amália deu-nos esta divertidíssima “Caldeirada”, da autoria de Alberto Janes, o farmacêutico do Redondo que lhe escreveu vários dos seus famosos fados.

Bom domingo... e divirtam-se!


CALDEIRADA (Poluição)
Alberto Janes

Em vésperas de caldeirada, o outro dia,
Já que o peixe estava todo reunido,
Teve o goraz a ideia de falar à assembleia,
No que foi muito aplaudido

Camaradas: principia a ordem do dia!
É tudo aquilo que for poluição,
Porque o homem, que é um tipo cabeçudo,
Resolveu destruir tudo, pois então!

E com tal habilidade e intensidade
Nas fulguranças do génio,
Que transforma a água pura numa espécie de mistura,
Que nem tem oxigénio

E diz ele que é o rei da criação!
As coisas que a gente lhe ouve e tem que ser!
Mas a minha opinião, diz o pargo capatão,
Gostava de lha dizer!

Pois se a gente até se afoga!
Grita a boga, por o homem ter estragado o ambiente!
Dar cabo da criação, esse pimpão,
Isso não é decente!

Diz do seu lugar: tá mal!, o carapau,
Porque, por estes caminhos,
Certo vamos mais ou menos ficando todos pequenos,
Assim como “jaquinzinhos”

Diz então o camarão, a certa altura:
Mas o que é que nós ganhamos por falar?
Ó seu grande camarão, pergunta então o cação,
Você nem quer refilar?

Se quer morrer, diz a lula toda fula,
Com a mania da cerveja e dos cafézes,
Morra lá à sua vontade, que assim seja!,
Para agradar aos fregueses!

Diz nessa altura a sardinha prá tainha:
Sabe a última do dia? A pescadinha, já louca,
Meteu o rabo na boca,
O que é uma porcaria!

Peço a palavra! gritou o caranguejo,
Eu, que tenho por mania observar,
Tenho estudado a questão e vejo a poluição
Dia e noite a aumentar

Cai do céu a água pura
E a criatura pensa que aquilo que é dele é monopólio.
Vai a gente beber dela e a goela
Fica cheia de petróleo!

A terra e o mar são para o cidadão
Assim como o seu palácio.
Se um dia lhe deito o dente
Pago tudo de repente ou eu não seja crustáceo!

É um tipo irresponsável, grita o sável,
O homem que tal aquele!
Vai a proposta prá mesa: ou respeita a natureza,
Ou vamos todos a ele!



8 comentários:

Membro do Povo disse...

Não gosto de Amália Rodrigues, mas gosto de caldeirada... obrigado pela caldeirada.

Maria disse...

Não conhecia esta...
Obrigada e bom domingo!

Abreijos.

Anónimo disse...

Amigos.

Pedindo a todos desculpa pela intromissão fora do tema do post, peço a vossa atenção para o seguinte:

Fiquei doente quando ouvi a notícia do fogo no Parque Ecológico do Funchal.

Só mãos criminosas de labregos com poder, mas sem o verdadeiro amor à ilha da Madeira, puderam cometer tal afronta, concretizando um crime destes!!!

Sinto-me de luto...

Este atentado cheira-me a verdadeira represália, sobre as criticas/avisos efectuados por alguns amigos do Parque, aquando do trágico acidente do passado dia 20 de Fevereiro.

"Alguém" não gostou, e a vingança não tardou a chegar...

Neste blog "http://bisbis.blogspot.com", podemos todos apreciar o excelente trabalho que foi progressivamente desenvolvido pelos amigos do Parque, ao longo deste início de milénio. Está recheado de excelentes, belas e emocionantes fotografias...

Faço aqui a sua divulgação e convido-vos a fazerem uma visita, pois vão certamente apreciar.

Neste momento, penso que os amigos do Parque devem sentir-se um pouco desanimados, pois em apenas algumas horas o fogo destruiu o seu trabalho voluntário de muitos fins-de-semana, ao longo de vários anos.

Sugiro pois a todos os visitantes, uma palavra amiga e solidária neste momento de tristeza, pois eles bem a merecem.

Deixo aqui a minha vénia e sentida homenagem a todos os amigos do Parque Ecológico do Funchal.

Mª Irene

Suq disse...

Qualquer caldeirada temperada na voz de Amália degusta-se primeiro e. pouco a pouco, com sensibilidade dos "artistas" ouvintes saboreia-se e reparta-se, tal qual o Samuel.

trepadeira disse...

De amália só me ficou a primeira versão de Mãe Preta,depois ficou só a música,a letra era uma coisa qualquer.
Teremos de ir todos a ele.

Espero que o concerto tenha sido como desejava.

Esta nação,ainda existe?,também precisa,muito e com urgência de conserto.
Um abraço,
mário

Fernando Samuel disse...

Amália e Fausto, vejam bem!...
(bonita caldeirada...)

um abraço.

Graciete Rietsch disse...

Não conhecia esta canção, mas acho uma óptima maneira de mostrar a acção nefasta do ser humano sobre o meio ambiente.

Um beijo.

Anónimo disse...

Caro Samuel

por falar em Amália porque não publicar no blog o Fado Peniche?

è lindo! e até arrepia ao ouvir.

fica a sugestão.

um abraço