Se houvesse, por absurdo, que escolher entre o Chico Buarque e o Caetano Veloso (ainda bem que não!), cá em casa sem dúvida ganhava o Chico. Ao contrário deste, que desde "A banda" até aos discos que irá ainda fazer, consegue vender-me sem dificuldade as obras completas, o Caetano sempre me "obrigou" a colocar na beira do prato uma grande quantidade das suas canções, por vezes quase discos inteiros, não por razões musicais, mas por alguns dos temas pelos quais sempre se interessou, desde a fase muito "hippie", até aos vários misticismos, esoterismos e etc, tão do agrado de grande parte dos brasileiros e alguns portugueses.
De qualquer modo, como todo o grande autor e compositor, quando Caetano Veloso resolve pousar os pés na Terra e fazer uma "canção de intervenção" é capaz de o fazer com grande arte e o tremendo estrondo que se pode escutar nesta extraordinária versão do seu "Haiti", uma espécie de murro no estômago vestido de versos.
Entre as várias versões possíveis, todas boas, escolhi esta por ter um arranjo musical do Jaques Morelembaum (o homem do violoncelo) que "é obra"!
Como de costume, leiam, ouçam, vejam... em separado ou tudo ao mesmo tempo e digam coisas...
Bom Domingo!
Haiti(Caetano Veloso)Quando você for convidado pra subir no adro da
Fundação Casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos
E outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se olhos do mundo inteiro possam
estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque, um batuque com a pureza de
meninos uniformizados
De escola secundária em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada
Nem o traço do sobrado, nem a lente do Fantástico
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém
Ninguém é cidadão
Se você for ver a festa do Pelô
E se você não for
Pense no Haiti
Reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico
Mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo
Qualquer qualquer
Plano de educação
Que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
do ensino de primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua
sobre um saco brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina
111 presos indefesos
Mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos
Ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres
E todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti
Reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
"Haiti" - Caetano Veloso
(Caetano Veloso)