É legítimo opinar sobre a antiga RDA, mesmo que algumas das opiniões estejam erradas. É importante ter a liberdade de contar estórias sobre a antiga RDA, mesmo que uma grande parte das estórias seja muito “mal contada”.
Já é menos legítimo organizar um “muro” de propaganda realçando unicamente os aspectos negativos da vida na antiga RDA e nos restantes países chamados de leste, mesmo sendo aspectos negativos e contradições entre princípios e prática, de tal maneira graves, que levaram à derrota política de todos esses países. Claro que o fazem com o fim único de esconder uma parte importante da verdade histórica.
Os nossos jornalistas e comentadores, sempre tão prontos a tirar ilações de tudo e mais alguma coisa, mesmo quando por descargo de consciência incluem nas suas peças declarações de cidadãos da RDA, alguns mesmo declarando que não concordavam com muito do que se passava no país, mas ainda assim, defendendo, no essencial, o socialismo e dizendo sem rodeios que então viviam melhor... passam rapidamente em frente, como se estas declarações não tivessem qualquer significado e não fossem repetidas por mais de metade dos alemães da ex RDA. Assim, bem escondida atrás do “muro” da propaganda, fica a triste realidade que por lá se vive. Os trabalhadores e cidadãos em geral da Alemanha de leste são discriminados, sofrem uma taxa de desemprego que ronda os 20%, têm salários médios que chegam apenas a pouco mais de metade dos salários médios dos alemães ocidentais e, embora não tão gravemente como os cidadãos de outros países, como a Rússia ou a Roménia, onde está instalado o caos social, ficaram nas mãos de bandos de criminosos organizados em verdadeiras máfias... a outra face do capitalismo.
Em termos pessoais, sou a favor de uma democracia pluripartidária e da mais transparente liberdade, no que sou, aliás, apoiado pelo programa do PCP e muitos milhares de portugueses sem partido, logo, não era o que se pudesse chamar um simpatizante do Muro de Berlim. Mesmo tendo sido muito bem tratado quando por lá andei não deixei de o dizer...
Os dirigentes da RDA e de outros países da área socialista, consideraram que a construção, ou melhor, a manutenção do muro, tal como outras medidas diferentes na forma mas iguais em significado e grande dureza, eram a melhor maneira de os seus países se defenderem dos ferozes ataques que o mundo capitalista lhes moveu desde a primeira hora. Estavam errados! Não só não foram grande defesa, como contribuíram objectivamente para o afundamento dessas sociedades e para o descrédito internacional de todo o projecto do socialismo, por muito injusto que isso seja.
Agora é necessária muito mais energia e convicção para lutar pelo socialismo, para lutar pelo derrube destes “muros” de propaganda paga a peso de ouro em todos os jornais e televisões pelo grande capital internacional, o qual quer esconder custe o que custar, o que a Revolução significou para os trabalhadores de todo o mundo, em termos de alteração das condições de trabalho e de vida e de conquistas efectivas de dignidade individual e colectiva. O grande capital internacional não perdoa os sustos por que passou (e passa) sempre que os trabalhadores levantam a cabeça.
Pena é ver tanta gente que se reclama de esquerda e que, no seu direito, foi e é contra os tais erros graves da aplicação prática da política nesses países, não ser capaz de se demarcar claramente da festança boçal regada a champanhe que a direita mais retrógrada faz por esta altura, enquanto esfrega as mãos de contente perante as perspectivas de belos negócios alimentados de baixos salários e precariedade e trabalho sem direitos que esses “novos” países proporcionam.
Uma coisa boa resta de tudo isto. É de esperar que pelo menos uma pequena parte destes entusiastas e festivos “comemorantes” do fim do Muro de Berlim, passadas que estiverem as ressacas, se mostrem disponíveis para lutar mais activamente contra os novos muros, não simbólicos, mas bem reais, que estão a ser erguidos, por exemplo,
na Palestina, por Israel, para roubar as terras, a água e as vidas dos palestinianos (quando estiver pronto terá mais de 700 quilómetros),
nos EUA, o muro na fronteira com o México, para manter os pobres fora do país, exceptuando os muitos milhares de trabalhadores sem papeis, que dão milhões de lucro aos seus patrões (quando estiver pronto terá cerca de 700 quilómetros, mais 800 de barreiras adicionais), o
muro de Ceuta, com que a Espanha e a fina Europa se “defendem” dos emigrantes africanos, etc., etc., etc., até pequenos muros para cercar comunidades ciganas, como este, muito recente, na cidade de
Ostrovany, na "libertada" Eslováquia.
Abaixo os muros!