domingo, 7 de novembro de 2010

Al alba – Quero que não me abandones, meu amor, ao amanhecer




Se eu te dissesse, meu amor, que temo a madrugada... não sei que estrelas são estas que ferem como ameaças, nem sei o que sangra a lua no fio da sua gadanha.
Pressinto que atrás da noite virá a noite mais longa... quero que não me abandones, meu amor, ao amanhecer.
Os filhos que não tivemos escondem-se nas cloacas, comem as últimas flores; parece que adivinharam que o dia que se avizinha vem com a fome atrasada.
Milhares de abutres calados vão estendendo as suas asas; não te destroça, meu amor, esta silenciosa dança? Maldito baile de mortos, pólvora da manhã.

Em 1975 foram executadas as últimas penas de morte na Espanha. Durante os dias que precederam esses dois últimos assassinatos da lista de milhares de crimes do franquismo, o compositor e cantor Luís Eduardo Aute escreveu esta canção, que ainda hoje, sempre que a canta, dedica «a todos aqueles que deram a vida para que todos possamos desfrutar de uma noite como esta».

Há uns tempos, enquanto seguia acidentalmente, na televisão espanhola, um concurso de jovens cantores, desses que também temos por cá, tive a felicidade de acertar no dia e na hora em que uma muito jovem Rocio Márquez tinha escolhido esta canção de intervenção para concorrer... e fiquei arrepiado.

A jovem Rocio Márquez não ganhou nada; lá como cá, outros “valores” se levantam... mas durante uns segundos incendiou parte dos corações da plateia e deixou praticamente em lágrimas os artistas populares e veteranos – o duo “Los d’el rio” - que estavam ali como “padrinhos”. Durante uns segundos foi como uma rajada de vento vinda do fundo da História recente e ainda ferida.

Não sei o que terá sucedido, entretanto, na carreira desta jovem de voz fantástica e dramática... mas sei que esta noite terá sido, muito provavelmente, “A noite!”. Conhecendo algumas versões da canção, cantadas por outros tantos intérpretes, diria mesmo que esta foi uma das grandes noites da própria canção.

Bom domingo!

Al alba
(Luis Eduardo Aute)

Si te dijera amor mio

Que temo a la madrugada

No se que estrellas son estás

Que hieren como amenazas

Ni sé que sangra la luna

Al filo de su guadaña



Presiento que tras la noche

Vendra la noche mas larga

Quiero que no me abandones

Ay amor mio al alba

Al alba, al alba

Al alba, al alba



Los hijos que no tuvimos

Se esconden en las cloacas

Comen las ultimas flores

Parece que adivinaran

Que el dia que se avecina

Ay viene con hambre atrasada

Miles de buitres callados

Van extendiendo sus alas

No te dentroza amor mio

Mientra el silencio se avanza

Maldito baile de muertos

Ay pólvora de la mañana

“Al alba” – Rocio Márquez
(Luís Eduardo Aute)

8 comentários:

Maria disse...

A garra madura da voz desta jovem não amadureceu os verdes votantes. Porque as palavras incomodam? Porque as verdades ocultadas promovem o pseudo-conforto? Porque é mais fácil ser-se como a avestruz? Porque...? Porque...?
Eu também me arrepiei.
Obrigada e bom domingo, Samuel!

Fernando Samuel disse...

Que NOITE!...

Um abraço.

Suq disse...

Quero-te toda toda toda

Até ao amanhecer

De manhã, á tarde, á ceia


Enfim a sós :)))

Anjos disse...

...Rajada de vento que nos corta a respiração!

MARAVILHOSO!

Obrigada e com um abraço desejo Bom Domingo para todos.

trepadeira disse...

Depois dos gritos do Síntese a chamar pela República,ontem à noite no TMG,(não vou dizer mais,foi excelente,são meus amigos)que é preciso reimplantar,não sou capaz de comentar esta pérola,a letra já conhecia mas esta voz.

Um abraço,
mário

maia disse...

Lindo e de arrepiar. É a voz e a interpretação. Obrigada.

Graciete Rietsch disse...

Que voz, que canção, que expressão!!!!!
E a atenção e entusiasmo do público!!!!!!
Então nada disso valeu para ganhar alguma coisa?!!!!

Um beijo.

Curiosa disse...

maravilhosa voz e letra ...
lindo post!
aliás, encontrei muita coisa boa aqui .. Adoro quando chego (de longe! a espaços que me dizem tanto ...
bjos pra vc, Samuel ...