sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Cuidado com a língua!




A língua portuguesa é fantástica! Nomeadamente quando quer mostrar que sabe e pode ser o oposto da língua dos poetas para passar a ser a dos calhordas, tranformar-se no idioma asqueroso do “factoring”, downsising”, “outsourcing”, “management”, etc., etc. É uma língua capaz de nuances assombrosas. Senão vejamos.

Se um pequeno comerciante ou um simples assalariado errarem, nem que seja sem querer, nas suas declarações ao fisco, acudam, acudam, que é fraude fiscal, fuga ao fisco... e enquanto o ministro esfrega um olho, lá se vai o Opel Corsa, ou o frigorífico, ou a máquina de lavar, como “penhor” da ultrajada honra do Estado.

Já se o senhor manda-chuva da Mota-Engil, ou o senhor Joe Berardo, ou o senhor ex presidente do Sporting, Soares Franco, tiverem algum desencontro contabilístico com as expectativas de arrecadação do Fisco, isso só pode dever-se a uma diferença de metodologias no “planeamento fiscal” adoptado pelos seus departamentos de contabilidade, ou, muito provavelmente, à incompetência de um “colaborador”... nada que não possa resolver-se com uma boa "discussão técnica"... e a existir alguma forma de punição, será sempre coisa que pairará num horizonte que ficará para além dos 227 recursos, contestações, incidentes, adiamentos... e depois de tudo isso, só ao fim de transitar mesmo, mesmo, mesmo, mas mesmo!, em julgado... daqui a uns vinte anos. Ou então mais rapidamente, desde que a coisa sobre apenas para o tal “colaborador.

Neste último caso, se o “colaborador” for um Zé Ninguém, é um ladrão e um corrupto; se tiver alguma importância na empresa, ou se for um "midalgo" (uma espécie de fidalgo, mas que em vez de filho é "amigo de algo"), aí... tratou-se alegadamente de uma “participação económica em negócio”, ou "fantasia do Ministério Público", como diz o advogado de Armando Vara (mas noutro processo, que Armando Vara não tem vagar para ser arguido nos processos todos!).

Vêem como é fantástico? É mesmo coisa para também fazer parte da famosa repartição justa dos sacrifícios pedidos aos cidadãos, aconselhada por Sua Excelência o Presidente da República.

10 comentários:

relogio.de.corda disse...

É verdade o que escreve; as palavras para uns não se aplicam da mesma forma a outros. No caso dos poderosos, aqui, na minha terra costumam chamar as suas palavras "palavras de 7 e quinhentos" (falando ainda à moda dos escudos), são palavras rebuscadas que geralmente apenas uma minoria conhece e sabe o seu significado.
O povo, esse, já se sabe; se fala é porque fala, refila, nunca está contente e mais valia estar calado; se não fala, é frouxo, engole sapos, come e cala e por aí fora.
Uma pessoa já não percebe nada disto!!!!

salvoconduto disse...

Essa do "migalgo" não conhecia. Normalmente chamo-lhes cães, perdão galgos. Tal a maneira como correm nunca o fisco os apanha.

samuel disse...

salvoconduto:

Era para ser "midalgo"... (já fui emendar), mas se fosse "migalgo" também dava para "dar uns toques"... como se pode ver. :-)))

Abraço.

São disse...

Tudo isto passou já as raias da poca vergonha, da indecência e da total falta de ética e decoro!!!!


Agrdeço que passes pelo "são"

Um bom fim de semana para vós.

Antuã disse...

É a cleptocracia que domina Portugal.

Graciete Rietsch disse...

Já nem sequer tenho paciência para dizer mais qualquer coisa. A corrupção, o nepotismo, a mentira .... vão num tal crescendo que nos sufocam. Resta-nos a luta e "fazer um pouco de televisão" sempre que tenhamos oportunidade.

Um beijo.

do Zambujal disse...

É isso mesmo! Com migalgos (e lebres) ou midalgos (e "padrinhos").

Um abraço

Camolas disse...

O meu avô dizia " os peixes grandes comem os pequeninos".
Até ao dia em que os pequenos acordem da hipnose colectiva e percebam que lutar pela dignidade até vale a pena.

Elísio Alfredo disse...

Vinha mesmo a talhe de foice, se o espaço e a vossa paciência abundasse, a estória, contada pelo próprio, o Luandino Vieira, e desconhecida da imensidade do público que somos nós, a propósito de uma execução fiscal em que foram protagonistas, no Tarrafal, um preso, ele, Luandino, o executor, talvez um oficial de diligências do regime, uma máquina de escrever - Luuanda, pois claro -, uma botas novas de couro, do Luandino, e o director do campo. Ouviu, regalada e deslumbrada, a assistência presente no lançamento de um novo livro, aqui nesta cidade de Castelo Branco.

Fernando Samuel disse...

Gente fina é outra coisa...

Um abraço.