Belmiro de Azevedo, o milionário merceeiro do regime, incontestável cabecilha do Gang dos Hipermercados, vive tempos felizes. Sabe que conseguirá atravessar o deserto da crise sem ver os seus lucros muito beliscados, já que quem sofre principalmente com a falta de poder de compra dos portugueses é o pequeno comércio, esmagado pelos mesmos Hipermercados, pois mesmo em dificuldades, a classe média e média baixa tentam manter o seu nível de consumo, até na comida, à custa dos cartões de crédito... e depois lá resolve como pode os seus problemas com o outro Gang, o dos Bancos, que os assalta com juros que podem chegar aos 30 por cento.
Ao contrário do que seria de esperar em seres humanos dignos do nome, o facto de mais de 600.000 trabalhadores estarem no desemprego e desses, uma parte escandalosamente grande nem ter sequer acesso a subsídio de desemprego, não impressiona os nossos gangsters da venda a retalho. Para já, porque não são pessoas muito impressionáveis; depois, aqueles que estão mesmo a passar fome, são ajudados, por exemplo, pelo Banco Alimentar, que vai buscar os artigos onde? Exactamente! Aos Hipermercados, onde são pagos pelos cidadãos com emprego, praticamente “obrigados” à solidariedade; finalmente, o gigantesco desemprego não os impressiona, exactamente porque é a maior bênção dos patrões.
Um exército de pessoas desesperadas por um emprego é o sonho de qualquer patrão com o carácter miserável que estes exibem. Saberem que têm alguns milhares de “colaboradores” que vivem sob a ameaça de serem substituídos por outros tantos milhares, dispostos a aceitar seja o que for, trabalhando sem direitos, como “independentes”, ou com contratos renováveis ao mês.
Daí, sentirem-se seguros para fazer esta provocação obscena de proporem horários de trabalho que podem passar das 40, para chegarem às 60 horas semanais, horários marcados de forma aleatória, desprezando o facto de as trabalhadoras ou trabalhadores serem mulheres e homens com uma vida privada, familiar, fora do emprego. Daí, o mostrarem-se visivelmente “ofendidos” por os trabalhadores
resistirem a esta provocação. Daí, o acharem tão estranha a resistência e a sugestão de uma greve, que lhe chamam
“pequeno ataque de baixa qualidade!”
São os novos “negreiros” que continuam, séculos depois, a “marcar” os seus escravos, embora com outros ferros.
Defendo que quando a oportunidade se apresentar novamente na nossa História, este tipo de canalhas não deve ter uma segunda oportunidade... e não consigo censurar-me por isso.