segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Ramos Horta e Timor - Faites vos jeux... rien ne va plus!






Chegam notícias do programa da estadia em Portugal do presidente timorense Ramos Horta, que dão conta da sua visita a Cavaco Silva, das novidades de Timor, que a serem verdadeiras, são positivas e falam de crescimento económico, tranquilidade nas ruas, decréscimo da mortalidade infantil e da pobreza, criação de postos de trabalho, construção de infra-estruturas.

Num lado mais lúdico da visita, destaque para a boa relação com o presidente do Sport Lisboa e Benfica, desde a viagem deste a Timor, razão pela qual esteve como convidado de honra no jogo entre o Benfica e o Braga, que teve lugar no Estádio da Luz... que parece tê-lo impressionado. Aqui diz-se mesmo que Ramos Horta ficou «satisfeito com as instalações benfiquistas»... seja lá o que for que o “jornalista” quis dizer com isto.

De qualquer modo, o facto que mais me “interpelou” foi a anunciada intenção de Ramos Horta em investir boa parte dos mais de quatro mil milhões de euros do Fundo Petrolífero de Timor, em acções de empresas portuguesas, sendo a EDP o alvo principal.

Admito que seria bem pior se Ramos Horta e os restantes governantes timorenses desatassem a estoirar o Fundo Petrolífero directamente no Casino da Póvoa, ou do Estoril, ou em vinho verde e p... palermices do género; mas francamente, não haveria nada melhor para fazer com o dinheiro do povo de Timor, do que vir arriscá-lo no jogo da batota da Bolsa de Valores... e logo a de Lisboa?

Senhora de Fátima – Apenas de passagem...




Os cristãos (e provavelmente os fiéis de outras religiões) têm o hábito compreensível de agradecer ao seu Deus a alimentação que têm na mesa. Algo como «Senhor, agradecemos-te (ou “agradecemos-vos”, conforme o grau de intimidade) esta refeição que vamos tomar...», isto com imensas variantes possíveis, dependendo da inspiração do comensal encarregado da oração.

Ontem, por volta do meio-dia, enquanto percorria de carro todo o perímetro de um dos lados do enorme Santuário de Fátima, dei por mim a pensar «Senhora, peço imensa desculpa por esta refeição que vou tomar daqui a pouco...» e dei por mim a rir sozinho até chegar ao Zambujal (Ourém), onde ia participar num almoço com Jerónimo de Sousa.

Depois de um almoço tão simples quanto agradável, Jerónimo de Sousa partilhou com os presentes algumas das suas ideias sobre a urgência de pôr Portugal a produzir, a urgência de correr com os lacaios nacionais dos grandes figurões internacionais da finança e da especulação, a urgência de lutar por direitos e melhores condições de vida, em vez de ficar de braços cruzados enquanto eles nos são roubados e por aí adiante... já sabem... as "manias" do costume do Jerónimo e dos seus camaradas.

Depois cantei umas canções que me pareceram apropriadas para partilhar com as quase duzentas pessoas que tiveram que se repartir por mais do que uma sala do restaurante, pessoas unidas, salvo duas ou três destacadas excepções, por uma característica comum... roubando dois versos a uma belíssima canção da chilena Violeta Parra: «Y todos son comunistas, con el favor de mi Dios, si!»

Posso até estar a ser injusto com esta piada de pedir desculpa à Senhora de Fátima por ir almoçar com tantos comunistas juntos... mas a verdade é que estou convencido de que desde 1917 até hoje ela não perdeu nenhuma da profunda aversão que tem por nós,  aversão que a “convenceu”, aliás,  a fazer as suas famosas “aparições” exactamente naquele ano...

domingo, 3 de outubro de 2010

Elis Regina - A canção do sal




Por volta dos meus 10 anos de idade tornei-me um miúdo estranho. A conversa da igreja do meu pai começou a entrar-me por um ouvido e a sair pelo outro; na escola primária, embora com a sorte de ter um professor fantástico, aprendia mais de História desviando-me do caminho normal para casa e passando belos pedaços de tarde com um velho sapateiro que contava as façanhas, virtudes e vergonhas de reis, rainhas, soldados e seus derivados, como se as tivesse vivido; na aldeia perto de Aveiro, em Ouca, onde por mim viveria sempre, aprendia sobre agricultura servindo de peso à grade de arar o campo de milho, vindimando, apanhando batatas (estragando muitas...); aprendia sobre o vinho pisando as uvas no lagar; aprendia sobre o pão passando noites em claro a “trabalhar” (dizia eu) na padaria do pai das minhas primas (pão para toda a aldeia e mais algum, tudo amassado à mão, forno de lenha), o grande primo António, um manancial de estórias que só paravam de desfilar de manhã... ou quando eu, depois de três dias sem dormir, “entrava em coma” em cima dos sacos de farinha; aprendia sobre ferro e fogo e tudo o mais que viesse à conversa, com o outro António, este, o senhor António, vizinho da frente da casa da aldeia, ferreiro, ferrador, um artista na forja e a “calçar” de novo juntas de bois, cavalos... e também grande “filosofador”, bastando a minha disponibilidade para accionar a alavanca do enorme fole da forja para ter conquistado a sua simpatia.

Todos suportavam estoicamente as minhas intermináveis perguntas e faziam de conta que admiravam os meus modernos e citadinos conhecimentos académicos, revistos e aumentados ano após ano.

Foi assim que aprendi a ver para lá do postal ilustrado da vida do campo e das profissões em vias de extinção. Ver o lado menos pitoresco, o lado do tremendo esforço, do sofrimento, dos bebés transportados em canastras, à cabeça, por mães operárias a caminho das fábricas de ferragens, pedalando nas suas bicicletas (que espectáculo! - dizia quem passava), do desespero das cheias do campo de Águeda (uma aventura para a garotada) que destruiam todo o milho de um ano de trabalho, do luto eterno dos pescadores da Vagueira e de Ílhavo. Foi assim que fiquei a conhecer o inferno por detrás da coisa mais bela que enfeitava o caminho que fazia para chegar à Costa Nova do Prado, as resplandecentes salinas de Aveiro, onde toneladas de mar eram transformadas em sal, que ia alimentar os porões dos barcos que partiam para a faina do bacalhau... e regressava, meses depois, impregnado nos milhares e milhares de grandes peixes que ficavam ali, esparramados a secar ao sol, em “estendais” intermináveis, Gafanha após Gafanha...

Mas chega de memórias de adolescência! Acho que encontrei a banda sonora perfeita para estas salinas e os seus heróicos “marnotos”. Canta-a a Elis Regina (há dias de sorte!), escreveu-a o Milton Nascimento e é dedicada a todos os homens e mulheres que trabalham o dia inteiro «pra vida de gente levar».

Bom domingo!

Canção do sal
(Milton Nascimento)

Trabalhando o sal é amor é o suor que me sai
Vou viver cantando o dia tão quente que faz
Homem ver criança buscando conchinhas no mar
Trabalho o dia inteiro pra vida de gente levar

Água vira sal lá na salina
Quem diminuiu água do mar
Água enfrenta sol lá na salina
Sol que vai queimando até queimar

Trabalhando o sal pra ver a mulher se vestir
E ao chegar em casa encontrar a família sorrir
Filho vir da escola problema maior é o de estudar
Que é pra não ter meu trabalho e vida de gente levar.


“Canção do sal” – Elis Regina
(Milton Nascimento)


sábado, 2 de outubro de 2010

João Rendeiro - BPP – Ó pra mim tão espantado...


(parece que tirei o dia para falar destes calhordas...)

Segundo leio, o advogado das vítimas da burla generalizada em que consistia a quase totalidade das actividades do Banco Privado Português, dirigido por este alegado aldrabão de colarinho branco que é João Rendeiro, está convencido de que será praticamente impossível que o banqueiro venha a ser condenado, ou mesmo sequer acusado pelo Ministério Público... seja do que for. Dada a enorme e já costumeira grande dificuldade em provar este tipo de trafulhices e a verdadeira resma de “escapes e truques” que, como se pode ler na notícia do “Sol”, caracterizam a actuação de toda a gente envolvida neste imbróglio do BPP, o caso, muito provavelmente, «terminará na falta de responsabilidade penal» de João Rendeiro.

Se esta coisa dos blogues já tivesse imagem vídeo em directo, agora vocês poderiam apreciar a minha cara de grande espanto, diria mesmo, enorme surpresa… vá lá... mesmo estupor (no sentido mais erudito do termo).

Faria de Oliveira – CGD - A vergonha é um capital muito escasso...





Sempre com um espírito de “serviço público” e presumindo que alguma leitora ou leitor possa ter curiosidade em saber qual é a aparência de um “faria de oliveira” de raça lusitana, aqui está a fotografia de um espécime, no seu habitat natural, a presidência da Caixa Geral de Depósitos.

Dado que este blogue não tem nenhum convénio com a “National Geographic” perguntam vocês, “ó Samuel, e então porque é que pões aqui a fotografia do animal?” Porque este, de repente, desatou a dar opiniões sobre o PEC III.

Sobre as medidas tremendas que vão abater-se sobre os trabalhadores, pensionistas e até desempregados, a quem vão cortar abonos de família, pensões de reforma, subsídios de desemprego, apoios sociais vários, ordenados na Função Pública, mais o aumento do IVA, etc., etc., etc., diz o bicho que se trata de medidas de austeridade «indispensáveis» e que vão melhorar a imagem do país junto das instituições europeias.

Já em relação à “taxinha” sobre a banca, anunciada pelo Governo, mas que ainda nem se sabe bem qual é e que, em condições normais, cortaria apenas uma pequeníssima fatia aos lucros milionários dos banqueiros, diz que não senhor!, sacrilégio!, diz que «é evidente que os custos com o novo imposto sobre as entidades financeiras, anunciado pelo Governo, irão recair sobre os clientes».

Nos meus tempo de inocência, que entretanto perdi, pensaria que só um refinado filho "da outra" poderia, sobre este assunto e num espaço de horas, assumir publicamente estas duas posições... nunca um respeitado presidente do maior banco nacional, que ainda por cima é do Estado.

Como não tenho mais inocência para perder, olhem... nem sei o que diga, nem o que lhe chame.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Equador – Em que é que falhou a “inteligência” da CIA?







O golpe de estado no Equador, falhou! Mereceu a rejeição quase geral. Foi condenado claramente pela maioria dos governantes da América Latina. A UNASUL exige o julgamento dos golpistas. Teve igualmente direito à cínica “oposição”, muito a contra-gosto, dos EUA, que já antes tinham igualmente “condenado” o golpe fascista nas Honduras... só que estes golpistas equatorianos, pelo menos nesta primeira tentativa, foram muito incompetentes... ou não entenderam as instruções.

Desta vez o povo do Equador conseguiu unir-se em volta do seu legítimo Presidente, Rafael Correa, que vai assim continuar a povoar os sonhos conspirativos da CIA e dos “falcões” do Pentágono com a sua postura anti-imperialista e a decidida defesa da independência do Equador e dos direitos do seu povo.

Quando do golpe nas Honduras, abençoado e financiado secretamente pelos EUA, um senhor cubano já com uma certa idade, Fidel – creio que é o seu nome – avisou que a vitória dos golpistas hondurenhos iria animar muitos outros bandidos, por toda a América Latina, a tentarem a sua sorte nos vários países que actualmente, em maior ou menor grau, são espinhos cravados na arrogância imperial “yanqui”.

Estava cheio de razão o velho Fidel! É preciso estar alerta! O "sismo" pode ter réplicas... e todos sabemos que algumas réplicas podem ser tão ou mais violentas do que o terramoto inicial.


Manuel Alegre - Se ao menos fosse possível hibernar por umas semanas...






Finalmente!!! Ao fim de umas looooongas quase 24 horas, Manuel Alegre lá conseguiu balbuciar qualquer coisa sobre as medidas deste PEC III, anunciadas pelo Governo do seu Partido.

Diz que são medidas «difíceis»... mas não diz nada sobre a profunda injustiça que significam. Diz que deve ser «exigida» uma maior participação da banca na ajuda... mas não diz como. Diz que devia haver «medidas para a criação de emprego»... mas não diz quais. Diz que o Governo devia «cortar ainda mais nas despesas supérfluas»... mas não as identifica.

Num breve encontro que tive com este primeiro “outdoor” de campanha num dos acessos à zona da “Expo” em Lisboa, já fiquei ligeiramente irritado, embora admita que boa parte da irritação se devesse a estar parado num interminável sinal encarnado - estando com pressa - e por estar a dirigir-me exactamente para a tal zona da “Expo”... que já me irrita desde 1998 (tanto, que nunca pus os pés na exposição). Agora, perante as sonsas declarações do candidato Alegre, não resisti à tentação de “vandalizar”, embora suavemente, esta versão digital do seu “outdoor”... embora, na verdade, compreenda a delicada situação de Manuel Alegre.

Se engrossa a voz e faz uma das suas proclamações inflamadas contra as medidas do Governo e em favor do povo... perde ainda mais votos dentro do PS. Se apoia as medidas de Sócrates, alegando a defesa da sua ditosa Pátria, mas, afinal, ajudando a legitimar o saque imposto aos portugueses pelos agiotas internacionais, perde parte dos eleitores do Bloco que ainda não perdeu até agora...

A vida do candidato Alegre não está nada fácil!

(Ah... e o meu candidato à Presidência da República sabe de que lado está!)