domingo, 31 de Agosto de 2008

Algures na arena da esperança...





O José Carlos Ary dos Santos era uma força da Natureza, uma espécie de vendaval que levava tudo à sua frente, uma mão que “pousava” nas nossas costas deixando-as prontas para a ortopedia, um imenso amigo, um vozeirão que incomodava meio mundo... “porém morrendo aos poucos de ternura”.
Costumo dizer que só fiz uma cantiga com o Ary, o que não é rigorosamente verdade, já que existiram umas canções, que certamente nunca voltarei a saber como eram, para um espectáculo do grupo de teatro “A Barraca” em início de vida, todas com versos dele e algumas com música minha. De qualquer maneira, cantiga, gravada e fazendo parte do meu reportório, só há uma, esta, intitulada “Llanto para Alfonso Sastre y todos”.
Uma noite, de trabalho colectivo em casa do Ary, para preparar já não me lembro o quê, tive o descaramento de ocupar algum tempo a remexer em papeis manuscritos com versos e quando encontrei e li este “llanto”, em vez de disfarçar ou pedir desculpa, declarei com ar decidido “Zé Carlos, quero estes versos para mim!”. “Leva-os, mas ai de ti que não faças a música!...”
Passado algum tempo, como a música não aparecia, o poeta já ameaçava “Vou fazer um escândalo à tua porta” e foi assim, pressionado e “temendo o pior”, que fiz esta música, gravei-a no álbum de 1979 “Ao alcance das mãos” (na imagem) e passei a cantá-la sempre que posso, como neste programa “Sabadabadu” da RTP, de princípios dos anos 80, portanto, há muitos anos e “muitos cabelos atrás”.
Bom Domingo!

Llanto para Alfonso Sastre y todos
(José Carlos Ary dos Santos)

Foi quando as madres terriveis
Levantaram a cabeça
Foi quando os sinos dobraram
Nas torres de Saragoça

Foi quando a Guarda Civil
Surgiu no brilho de aço
Que de novo se pintou
A Guernica de Picasso

Não eram cinco da tarde
Nem da noite ou da manhã
Era a hora de lutar
Pela Espanha de amanhã

Era a hora de acordar
A voz de Lorca e Machado
Era a hora de atacar
Com a foice e o arado

Não eram cinco da tarde
Nem da noite ou da manhã
Era a hora de lutar
Pela Espanha de amanhã

Algures na arena da esperança
Contra os cornos do fascismo
Um pocta abria a dança
Dos passos do heroismo

Suas palavras agudas
Feriam as carnes da besta
Pois jamais se quedam mudas
As vozes de quem protesta

Algures na arena da esperança
Contra os cornos do terror
Um poeta abria a dança
Das palavras que dão flor

Dizia amigo canção
Pátria alento humanidade
Dizia verdade e pão
Como quem diz liberdade

Não eram cinco da tarde
Nem da noite ou da manhã
Era a hora de cantar
Pela Espanha de amanhã

Foi então que do mais fundo
Do ódio do mal do medo
Irrompeu o berro imundo
De quem oprime e não cede

Choveram balas patadas
Correntes golpes mordaças
E palavras embrulhadas
Em insultos e ameaças

Chegaram ferros e facas
Uivos lampadas chicotes
Choques agulhas matracas
Baionetas e garrotes

Não eram cinco da tarde
Nem da noite ou da manhã
Era a hora de calar
Pela Espanha de amanhã

Algures na arena da esperança
Um poeta foi torturado
Sua alegria a vingança
Seu nome cantor soldado

Algures na arena da esperança
Um poeta foi torturado
Sua alegria a vingança
Seu nome cantor soldado

Não eram cinco da tarde
Nem da noite ou da manhã
Era a hora de cantar
Pela Espanha de amanhã.

“Llanto para Alfonso Sastre y todos” - Samuel
(José Carlos Ary dos Santos / Samuel)



sábado, 30 de Agosto de 2008

"Playboy", sim... mas nada de terço!




Se virmos bem, em qualquer lugar e a qualquer hora, há sempre um padre, bispo ou cardeal de dedo espetado no ar, apontando a alguém terríveis pecados, ou por actos, ou por pensamentos, ou por um filme, ou por uma escultura, música, livro ou até, como neste caso, umas fotografias.
Infelizmente, estamos já tão habituados à arrogância de "certa" Igreja Católica, que vive convencida de que por direito divino pode exigir que o mundo se molde à sua vontade e aos seus gostos e crenças, que já nem reagimos.
Ainda se os sacerdotes e as suas eternas beatas se limitassem a lavrar os seus protesto, um direito que obviamente lhes assiste... mas não. Avançam sempre com exigências, chamas do inferno, pedidos de condenação em tribunal e desgraçadamente há sempre um juiz pronto para se pôr de gatas e lhes fazer a vontade, condenando, proibindo, apreendendo isto e aquilo, ao sabor dos fantasmas teológico-sexuais dos queixosos.
Este último caso é um bom exemplo. Uma jovem actriz brasileira, de nome Carol Castro, de que nunca ouvira falar, achou por bem espanejar os seus talentos até aí mais escondidos, numa sessão fotográfica para a revista “Playboy”, que eu nem sabia que publicava fotografias, tantas são as pessoas que lhe gabam os textos. A pretexto de vestir (???) umas personagens de “mulheres de Jorge Amado”, lembrou-se de numa ou duas das fotografias segurar entre os dedos... um terço. Danou-se!
“Ai a ofensa ao terço, ai a ofensa à Igreja Católica, ai a ofensa aos fiéis, ai...” Resumindo, ai a ofensa! 
Resultado, a tal da “Playboy” do Brasil já está proibida por um juiz, o padre ficou famoso e o bem, mais uma vez, venceu o mal.
Poucas coisas devem interessar-me menos do que esta estória perfeitamente idiota com fotografias de gosto discutível e notória falta de guarda roupa.
O que eu gostava mesmo de saber, pegando numa velha ideia de Eça de Queiroz, é o que podemos nós embargar, apreender ou “cortar” à Igreja Católica, de todas as vezes que a sua hierarquia ofende (tantas vezes tão gravemente) os milhões de praticantes de outras religiões, os simplesmente não católicos, ateus, agnósticos e não poucas vezes, os seus próprios fieis.
Essa sim, seria uma grande informação!

Crimes com recurso a violência



Aqueles que no nosso país se auto-intitulam de “jet-set”, são, na maior parte dos casos, bandos de verdadeiros inúteis e parasitas que não servem para nada mesmo depois de prontos. Digo depois de prontos, porque como todos sabemos, aquilo é gente que está constantemente “em obras”, para remodelar o nariz, incrementar as mamas, aumentar a musculatura peitoral, cultivar cabelos, etc, etc, mesmo tendo à vista os exemplos dramáticos das caras do Michael Jackson ou da Manuela Moura Guedes, que são retratos vivos do perigo que correm diariamente nas mesas de operações estéticas...
Esta fauna, vive de festa em festa, habita mais nas revistas “cor de rosa” do que em casa, come de borla, veste emprestado. Em troca, tem que manter o seu público devidamente informado da cor e modelo de roupa interior que usa, que lençóis tem na cama aos Domingos, qual a amplitude sonora e frequência dos orgasmos da, ou do parceiro actual, por comparação (se possível com muitos pormenores) com a, ou o “ex”, combinar com os “paparazzi”, cirurgicamente, quais os lugares em que vai estar, para ser “apanhado inadvertidamente” com alguém e, muitíssimo importante, “ser pela paz no mundo”.

Se o cidadão normal vê esta fauna prescindir de qualquer noção de privacidade, pudor e liberdade pessoal e aparentemente dar-se tão bem na vida com isso, acaba por ficar pronto a aceitar como normal andar com “chips” no carro, ter cartões de identidade onde vem “tudo escarrapachado”, ter os movimentos vigiados por cada vez mais câmaras de vídeo-vigilância, etc, etc, etc, se isso o fizer sentir “mais seguro”.
Aqui é que a porca torce o rabo...
Para o cidadão engolir os remédios da “segurança”, é necessário que comece a sentir que existe uma grande “insegurança”. É exactamente para isso que servem as grandes campanhas, como a que está em curso, para “vender” a grande insegurança e criminalidade violenta. Ainda há pouco, o CDS defendeu que para além dos bancos, tribunais, centros comerciais, etc, as câmaras de vigilância devem estender-se igualmente aos chamados “bairros problemáticos”, esquecendo-se de dizer que a maioria das pessoas que habitam nesses bairros não causam quaisquer problemas e que para rentabilizar o “investimento” nas tais câmaras de vigilância, todos os cidadãos considerados problemáticos, terão que continuar a ser empurrados à força para viver nesses bairros “adequados” à sua condição de suspeitos do costume.
Como já vai sendo tempo neste texto, de eu tecer as minhas costumeiras considerações, diria que:

1. Esta tremenda campanha em toda a comunicação social sobre insegurança, crimes com violência, assaltos e conflitos de toda a ordem, apresentados como uma “onda imparável” e na maior parte dos casos, sem consequências, acaba por atrair toda a sorte de mentecaptos, que sozinhos ou em grupo, querem também ter os seus minutos de fama, cometendo toda a espécie de tropelias mais ou menos graves, algumas, infelizmente, muito graves, ou até, assaltando “com violência”... máquinas de tabaco ou venda de bebidas e chocolates, acabando por multiplicar a contagem dos fenómenos de criminalidade. Será exactamente isto o que se pretende?
2. Vender esta nossa “realidade” criminal como grande insegurança e violência, serve afinal para branquear e calar a verdadeira grande insegurança e violência que são o desemprego, a miséria, a iliteracia e a falta de perspectivas de futuro para tanta gente em Portugal, assim como a esmagadora insegurança e violência que diariamente vivem e sofrem povos como os do Iraque, da Palestina, milhões de africanos e outros verdadeiros mares de vítimas por esse mundo fora.
3. Nenhuma das anteriores considerações significa que eu não concorde estarmos perante um real problema de aumento da delinquência, que as forças policiais e o sistema judicial, mais por falta de meios e coordenação que de efectivos, não conseguem controlar e que é necessário avançar com soluções para esta situação, que não será (seguramente) resolvida, recorrendo apenas à repressão.

sexta-feira, 29 de Agosto de 2008

Ousadia



O grupo UHF faz trinta anos. No seu mais recente disco, de que podem ver aqui a capa, tiveram a ousadia de fazer uma versão à UHF da “Grândola” do Zeca. Ficou giro, ficou à UHF e bem feito. Como me parece já ter aqui contado, na gravação dessa faixa do disco participaram como cantores convidados o Manuel Freire, o José Jorge Letria, o Vitorino e este vosso amigo.
Ousadia, também, para não dizer descaramento, foi eu ter aceite o convite (mais o Letria) para ir às Festas de Corroios (que não fazia ideia de serem tão grandes) fazer essa versão da Grândola ao vivo com a banda.
Muitos milhares de pessoas pelo grande recinto da festa, algumas 15.000 à frente do palco, muito fumo, muitíssimos decibéis, “Grândola vila morêêê-ê-na...”, em rock bem batido e pesado... voltar para casa depois das duas da manhã...
E não é que gostei?!

quinta-feira, 28 de Agosto de 2008

Vítimas duas vezes



Leio no Diário de Notícias (online) um trabalho bem feito, sobre o universo das vítimas de actos de violência, em Portugal e da tremenda falta de informação que leva a um cenário em que “só uma em cada dez vítimas pede indemnização”.
Não estou a falar de pedidos de indemnização “à sorte” ou “a ver se pega”. Não. Estou a falar de milhares de pessoas que são violadas, vítimas de violência domestica, assaltos, etc, etc, que preenchem todas as condições para receber as indemnizações estabelecidas pela lei.
Pode ser uma pergunta muito parva... mas já que se trata de vítimas que são conhecidas e que portanto, ou junto das autoridades policiais, ou nos hospitais, foram devidamente identificadas enquanto vítimas, custaria muito a esses agentes (policiais ou de saúde) informar imediatamente essas pessoas dos seus direitos?
A quem é que interessa que as vítimas desconheçam que têm direito a indemnizações?
Eu sei que na esmagadora maioria dos casos, os agressores não têm condições para pagar seja o que for e nesses casos é o Estado que deve assumir as responsabilidades.
Que raio de Estado é que faz uma lei “bonitinha” em que as vítimas têm direitos, mas depois, pelos vistos, não faz nenhum esforço para que elas os conheçam?
Fica mais barato aos cofres públicos?
Que coisa triste!

quarta-feira, 27 de Agosto de 2008

Manipular, manipular sempre!


Sinal de "trânsito" que devia passar a figurar nas capas de alguns jornais, revistas e no início de muitos programas de televisão.

É hoje evidente para quem quiser ver, que um grande número de pessoas que se fazem de jornalistas, estão infiltradas nas revistas, jornais, rádios e televisões, com o único objectivo de merecer o que os patrões lhes pagam para defender as posições desses mesmos patrões.
Como os interesses dessa gente raramente coincidem com os reais interesses da sociedade, os seus criados “jornalistas” são obrigados a mascarar de notícias e posições independentes e pluralistas, toda a sorte de mentiras, calúnias, manipulações da verdade, etc, etc, enfim, tudo o que sirva para denegrir ou mesmo eliminar os adversários económicos ou políticos dos seus donos.
Claro que ainda existem jornalistas que resistem e, evidentemente, blogues, que aproveitando a ausência de censura neste novo meio (por enquanto), dizem o que há que dizer sobre este lamaçal da manipulação, casos de um ou outro blogue (e mais... e mais e tantos mais...) de pessoas que me orgulho de ter como “amigos de infância”.
Como é que estes “jornalistas” atingem o estado de perfeição que lhes permite estabelecer como verdades que Chávez é um ditador, as FARC acamparam na Festa do Avante para sempre, os monges budistas do Dalai Lama querem implantar o paraíso no Tibete, Álvaro Uribe é um democrata, etc, etc, etc? Pois... praticando muito! Para mentirem com perfeição sobre assuntos importantes, como as maravilhas de uma qualquer nova privatização, flexi-qualquer-coisa, ou o que fôr, treinam, treinam muitíssimo e diariamente... com banalidades.
Exemplo de “treino de manipulação com assunto banal” de hoje.
No jornal aqui do café da esquina, que já nem digo qual é, senão ainda pensam que tenho alguma coisa contra o Correio da Manhã, leio pelo canto do olho, uma rubrica que já dura há algumas semanas e em que pessoas conhecidas falam do seu “modelo” de férias ideais. Desta vez era o psicólogo Júlio Machado Vaz, cujo ideal de férias, segundo as letras garrafais do título, seria:
“A Quinta de Cantelães e uma mesa a abarrotar!”
Qualquer pessoa que o não conheça ou tenha alguma aversão a pessoas que estão constantemente a falar de sexo, pensa “Este gajo é um verdadeiro alarve!”

Se no entanto se der ao trabalho de ler as respostas que ele realmente deu, descobre que a tal quinta é a sua casa e não um qualquer Turismo Rural com restaurante “enfarta brutos” e o que disse afinal, foi “A Quinta de Cantelães e uma mesa a abarrotar de amigos e família!
Viram? É apenas um treino. Mesmo numa entrevista é possível fazer isto... escreve-se a alarvidade no título e, como costumo dizer, o mal está feito. Quase ninguém vai ler o resto...

terça-feira, 26 de Agosto de 2008

Condoleeza Rice, mensageira da "paz(inha)"



Coincidindo com a visita ao Médio Oriente desta radiante (e radiosa) Secretaria de Estado Norte Americana, a senhora Condoleeza Rice, o governo israelita sacou do seu armário dos horrores uma súbita vontade de mostrar “interesse na paz” e uma “demonstração de confiança" no líder da Autoridade Palestiniana, Mahamoud Abbas.
Para isso, escolheram de entre os “seus” perto de 11.000 prisioneiros palestinianos disponíveis, cerca de 200, mas que pertencessem à Fatah, a organização que apoia Abbas... e libertaram-nos.
A libertação de prisioneiros de guerra é sempre bem-vinda, nomeadamente para dois dos prisioneiros, que já levavam 30 e 28 anos de cativeiro.
Infelizmente, desconfio (e parece que não sou o único...) que este súbito “gesto de paz” por parte do governo de Tel Aviv, libertando prisioneiros palestinianos da Fatah, mas “esquecendo-se” dos militantes da Jihad Islâmica e do Hamas, este gesto, como dizia, depois de correctamente traduzido, mostra apenas a grande vontade e o grande interesse israelita em incendiar ainda mais as rivalidades políticas entre os vários movimentos palestinianos.
Se for assim... triste iniciativa de paz!

segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

Manuel "Pinus Maritimus Ridiculus"



O extraordinário nadador Michael Phelps, exibindo as suas nove medalhas, conquistadas em Pequim... perdão! Oito medalhas... e uma nódoa!

E agora?



Começou o campeonato nacional de futebol (ou Liga, ou lá como é...).
O governo deve estar radiante!...
Cerca de metade dos portugueses já tem com o que se ocupar!

domingo, 24 de Agosto de 2008

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer, qualquer coisa que eu devia resolver. Porquê, não sei, mas sei que essa coisa é que é linda!




Está a tornar-se recorrente a minha afirmação de grande apreço por praticamente tudo o que José Mário Branco compõe e escreve. Mesmo assim, há nesta espécie de electrocardiograma da audição das suas canções, uns “picos” ainda mais “inquietantes” que os outros.

Inquietação

A contas com o bem que tu me fazes 

A contas com o mal por que passei 

Com tantas guerras que travei 

Já não sei fazer as pazes

São flores aos milhões entre ruínas 

Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas 

Oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação 

É só inquietação, inquietação 

Porquê, não sei 

Porquê, não sei 

Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer 

Qualquer coisa que eu devia perceber 

Porquê, não sei 

Porquê, não sei 

Porquê, não sei ainda

Ensinas-me a fazer tantas perguntas 

Na volta das respostas que eu trazia 

Quantas promessas eu faria 

Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho 

Pois falta sempre pouco para chegar 

Eu não meti o barco ao mar 

Pra ficar pelo caminho

Cá dentro inqueitação, inquietação 

É só inquietação, inquietação 

Porquê, não sei 

Porquê, não sei 

Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer 

Qualquer coisa que eu devia perceber 

Porquê, não sei 

Porquê, não sei 

Porquê, não sei ainda

Cá dentro inqueitação, inquietação 

É só inquietação, inquietação 

Porquê, não sei 

Mas sei 

É que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer 

Qualquer coisa que eu devia resolver 

Porquê, não sei 

Mas sei 

Que essa coisa é que é linda


(José Mário Branco)

"Inquietação" - J. M. Branco
(José Mário Branco)


sábado, 23 de Agosto de 2008

Família alegre é aquela que se "entertém"!



Para descomprimir, como costuma dizer a Maria, aqui vai uma singela fotografia, tirada por este vosso amigo. Como podem ver, trata-se de um supermercado conhecido que fica aqui perto e que tem, como tantos outros, uma secção de revistas, livros e filmes, aquilo a que decidiram chamar “entertenimento” para a família. Existem secções como esta em todas as grandes superfícies comerciais. Bem... talvez não escrevam o nome desta “maneira”... mas existem e são praticamente todas iguais.
Então o que é que faz desta um caso especial?
Se quiserem fazer o favor de clicar na fotografia de baixo, que é um pormenor ampliado dos DVDs da prateleira de cima visto de outro ângulo... e quanto mais não seja para apreciar a trabalheira que eu tive para imitar o efeito da lupa, verão que o gerente desta loja se “esticou” um bocadinho quanto ao seu conceito de “filmes para a família”.
Modernices!...
(Está lá, assim, há meses.)

Tenham um grande Sábado!


sexta-feira, 22 de Agosto de 2008

Mário Lino (antologia viva da asneira)



As grandes catástrofes naturais, ou os grandes acidentes, como este de Madrid, impõem de forma terrível a sua presença, a crueza dos seus números, o sofrimento das suas vítimas directas e indirectas. É impossível aos órgãos de comunicação, ignorar estas tragédias, mesmo sabendo que são terrenos extremamente movediços e perigosos, onde qualquer passo em falso nos leva para a demagogia, para a exploração mórbida da dor alheia. Temos, infelizmente, assistido a muitos desses passos em falso. Apesar disso, alguma coisa deve sempre ser dita... de seres humanos para outros seres humanos.

Não preciso de pensar que sou lido em Espanha, ou por espanhóis que vivam cá, ou por amigos deles, para dizer que me magoa como uma ferida aberta esta imagem sinistra de mais de 150 pessoas, que em segundos se transformam numa massa de escombros que é necessário identificar com testes de ADN. Primeiro, porque desde miúdo que sinto essa sensação de que algo me queima a pele, mesmo que apenas se tratasse de um colega que caísse e ferisse um joelho. Segundo, porque os amigos que por aqui passam também são “gente que se sente”, como quaisquer outras pessoas normais.
Estou, como já se percebeu, a andar às voltas ao verdadeiro assunto do post, porque estou profundamente irritado mas não quero ser excessivo.

O ministro Mário Lino, na primeira declaração pública de um membro do Governo na televisão, portanto a primeira que viram os espanhóis (familiares, amigos, ou apenas normais cidadãos) que por qualquer razão se encontram no nosso país, ao comentar o desastre de aviação de Madrid, não teve uma única palavra de pesar pelo sucedido, ou uma palavra de conforto para com os familiares e amigos das vítimas.
Friamente e naquele tom aldrabão do costume, a única coisa que lhe ocorreu dizer foi que “o que este tipo de acidentes vem mostrar é que o governo tem toda a razão em querer acabar com o perigoso aeroporto do meio da cidade de Lisboa e levá-lo para Alcochete”. Foi mais ou menos isto.

Até agora não percebi o que é que este acidente de Madrid tem que ver com a localização aqui ou acolá do Aeroporto de Barajas, nem por que raio é que na cabeça de Mário Lino esta se mostrou ser uma boa ocasião para fazer o seu “número” de demagogia barata e somar uns pontinhos aos argumentos do Governo para encerrar a Portela (e dar largas aos negócios de milhões que ali se vão fazer).

As amigas e amigos que me estão a ler, que tenham convivido no passado com Mário Lino e tenham sido ou ainda sejam seus amigos pessoais, que me perdoem, mas é exactamente com episódios destes que se vai formando e sedimentando na cabeça e no coração de milhares de pessoas, a convicção de que, salvo raras excepções, os políticos são uns canalhas!
Mário Lino quis fazer pequena política no locar e hora errados... e prestou um péssimo serviço não só à politica como à própria democracia.

Desculpem o longo e irritado desabafo!

quinta-feira, 21 de Agosto de 2008

Está lá? Podia ligar-me ao princípio do século passado, se faz favor?



Eu sei que nos tempos que correm “um emprego é um emprego é um emprego é um emprego...” e que é uma ajuda, mesmo que pequena e temporária, para muitos dos jovens que o conseguem. Ainda assim...

Se a CGTP não for apenas um grupo de gente ainda mais desconfiada do que eu.
Se o PCP não for apenas um grupo ainda maior de gente muito mais desconfiada do que eu.
Se os 1200 postos de trabalho que a PT diz que vai criar, afinal não passarem de uma manobra que permita encerrar vários serviços, para criar um só, muito maior, apenas para (como eles gostam de dizer) optimizar os meios humanos.
Se a PT afinal não vai realmente contratar ninguém, recorrendo unicamente a empresas de trabalho temporário para preencher os lugares.
Se todos estes “novos” empregos serão, portanto, precários, quando alguns dos que irão ser extintos não o eram.
Se não sou o único a pensar que um “call-center”, criado nestas condições, poderá ser tudo... menos progresso (social, económico, politico, ou qualquer outro).
Se não sou o único a pensar que a criação de um depósito gigante de trabalhadores precários, a recibo verde, que perderão o emprego ao primeiro esboço de rebeldia ou reivindicação e embora com o 12º ano de escolaridade como mínimo para serem admitidos, não passarão dos 500 euros de vencimento mensal, não é propriamente uma coisa de que um Primeiro Ministro que se diz socialista deva orgulhar-se por aí além...

Então (e o Rudyard Kipling que me desculpe a cópia dos “ses” e do “então”) assistimos mais uma vez a um simples espectáculo de propaganda enganosa a que José Sócrates não devia ter-se associado, ou, no caso de estar consciente disso (alguém duvida?), um dos seus amigos mais chegados devia ter a solidária coragem de lhe dizer que “não lhe será possível enganar sempre toda a gente”.

Mas lá está... se calhar é apenas o meu feitio desconfiado...

quarta-feira, 20 de Agosto de 2008

Um ano!


"Velho soprando uma vela"
Alvoco da Serra - Seia - Serra da Estrela

Quando no dia 20 de Agosto de 2007 publiquei neste blog o primeiro texto, com quatro ou cinco linhas, dizendo que esperava não me arrepender de o fazer, estava longe de pensar que um ano depois as contas seriam estas.
A redescoberta e descoberta de tantas pessoas, a riqueza que isso representa, a alegria das ideias, certezas, utopias, músicas, aplausos ou indignações que partilhámos e também, embora não seja o mais importante, os números que isso envolve, são uma enorme "prenda".
Diz-me o site encarregado de fazer as contas, que fui visitado até hoje por cerca de 132.000 pessoas, das quais, 47.000 prolongaram as visitas por quase 4 minutos (em média), o tempo suficiente para ler com calma e deixar, por vezes, um comentário. 
Os comentários, que não sei quantos serão, foram acompanhando e incentivando, a uma média de talvez mais de dez por cada post, o dia a dia dos textos publicados.
Durante um ano, inexplicavelmente, arranjei assunto (pelo menos algumas vezes acho que consegui) para escrever 544 posts!
Um grande, grande abraço às "blogueiras" e "blogueiros", mais todos os outros que por aqui passam.
 
Obrigado... e abreijos!

terça-feira, 19 de Agosto de 2008

Federico Garcia Lorca (1898-1936)


Retrato do jovem Lorca, no documento de entrada na Universidade, em que se pode ver a sua juvenil assinatura, que a vida e um intenso contacto com as artes viriam a transformar nesta:
“Adivinha da guitarra”

Na redonda 
encruzilhada,

6 donzelas
bailam.

3 de carne
e
3 de prata.

Os sonhos de ontem procuram-nas

porém têm-nas abraçadas

um Polifemo de ouro.

Ai!, guitarra!
(Federico Garcia Lorca)

Lorca é a grande poesia, a voz que vem do mais fundo de uma Espanha culta e a transbordar de História, é o grande teatro representado em milhares de palcos por todo o mundo. Já faz parte dessa entidade vibrante e inexplicável que dá vida às danças e ao “cante” a que os espanhóis chamam “duende”.
Em 19 de Agosto de 1936, Lorca era um jovem adulto com 38 anos de idade. Já se tinha afirmado como grande poeta, grande dramaturgo, praticante de música, pintor e desenhador compulsivo. Era um amante da liberdade, do seu povo, da sua cultura e um defensor do socialismo, tudo coisas ofensivas para os fascistas espanhóis.



Em 19 de Agosto, em Granada, um dos membros da matilha de Francisco Franco, com a lucidez assassina que guia as feras, declarou “Ele é mais perigoso com a caneta do que muitos com o revólver!” e deu ordens para a sua execução, sem qualquer acusação ou julgamento, com um tiro na nuca.
A onda de revolta contra esse crime abjecto, que percorreu o mundo nessa altura e a presença constante que a obra poética e teatral de Lorca mantêm no mundo da cultura até aos dias de hoje, mostram que efectivamente, o assassino “tinha razão”...

"Ay qué terribles cinco de la tarde!
Eran las cinco en todos los relojes!
Eran las cinco en sombra de la tarde!"
(Lorca - Excerto de “La cogida y la muerte”)

"Cancioón del Jinete" - Paco Ibañes
(Federico Garcia Lorca / Paco Ibañes)



segunda-feira, 18 de Agosto de 2008

Vanessa Fernandes - Pequim 2008



Até parece mentira, não é, Vanessa?
Mas é verdade!... "Limpaste" mesmo a medalha de prata do Triatlo nos Jogos Olímpicos!
O resto é conversa.

"Sol", ou de como não basta ter nome de estrela brilhante, para se evitar ser uma nódoa!



A ruidosa e flamejante parte central da capa do “Sol” de 8 de Agosto, convenceu-me a comprar o número seguinte, de 15 de Agosto.
A curiosidade é uma coisa genericamente boa, mas mesmo na curiosidade há que ter prioridades, pelo que nunca até agora tinha comprado esta “espécie” de semanário, dirigido por essa “espécie” de jornalista, que é por sua vez uma “espécie” de pessoa... e podem ficar tranquilos, que salvo para acudir a alguma “espécie” de emergência, não voltarei a comprá-lo.
Agora, a explicação. Como se pode ver na tal capa, ou quase ouvir, dado o tamanho das letras, “CGTP enganou operárias”. Como disse, essa capa não me fez comprar o jornal. Fui antes dar umas voltas pela net, tentar saber o que se passava. Para além de achar, logo à primeira vista, tudo aquilo muito mal contado, fiquei imediatamente a saber que afinal não era a CGTP, mas sim o Sindicato Têxtil do Minho (STM), filiado na CGTP. Depois, afinal, quem acusa é o “incontornável” dirigente de extrema direita da “Nova Democracia” (???)! Lendo ainda com mais atenção, parece uma vulgar provocação, encenada pelo próprio “Sol”, por um advogado manhoso e o patronato, com o único fim de denegrir e dificultar a luta daquelas trabalhadoras e do seu sindicato e de passagem, dar tempo de antena a essa grande figura de “zombie solitário”, que antes dava pelo nome de Manuel Monteiro e cujo cérebro, visivelmente, não consegue processar devidamente a simples informação de que já está morto. Valeu pelo espectáculo absolutamente inédito de ver o “neo-qualquer-coisa” Monteiro a estrear-se como “defensor dos trabalhadores”!

Como qualquer pessoa que se tenha dado ao trabalho de tentar perceber que raio era aquilo, li reacções diversas à grande “notícia” da capa. Para reduzir essas reacções ao essencial, podem ler a resposta da CGTP, e noutro documento, a resposta do STM.
E então para que comprei o “Sol” deste fim de semana? Simples... foi a tal da curiosidade. Queria ver o que o “Sol” responderia, passada uma semana, aos desmentidos. Avançaria novos dados e argumentos? Contra-atacaria? Defender-se-ia, ou ousadia das ousadias, pediria desculpas?
Pacientemente e calado, esperei uma semana e... não! Para isso, o jornal e o seu director teriam de possuir qualquer coisa que utilizassem como sucedâneo da coluna vertebral...
Não! Nada! Nem uma linha, nem uma palavra!
A técnica “fascistóide” é conhecida. Lança-se a atoarda e a mentira... e o estrago está feito!... Qualquer desmentido, se chegar a ver a luz do dia, é num qualquer fundo de página, das que ninguém lê.
Não tenho a pretensão (nem a arrogância) de ser capaz de explicar esta história, nem opinar (sem saber) sobre as opções das lutas travadas, neste caso, pelos trabalhadores e os seus sindicatos. Para isso existem muitas pessoas qualificadas, sendo que algumas me honram, sendo leitores e leitoras deste blog. Quis apenas contar mais este episódio, retrato já tão corriqueiro, da "desinformação a que temos direito".

Antigamente, em tempos de menor higiene e consciência ecológica, a páginas dos jornais serviam para forrar os caixotes do lixo.
Hoje, no semanário “Sol”, salvo raras excepções, as páginas são o próprio caixote do lixo!

domingo, 17 de Agosto de 2008

Dorival Caymmi (1914-2008)



Morreu Dorival Caymmi. Foi neste Sábado, dia 16, tinha 94 anos.
Gostava de saber pôr em palavras a simplicidade luminosa das suas melodias, a ternura aconchegante das suas letras, a ligação profunda que tinha ao seu povo, à sua terra e ao seu mar e a profundidade calma da sua voz... mas quanto mais batalhar contra este tropeço na procura das palavras certas, menos o conseguirei.
Um abraço aos muitos portugueses que aprenderam a identificar o por cá pouco conhecido autor de tantas canções famosas, como a tão internacional “O que é que a baiana tem”, ou “No tabuleiro da baiana”, “Na baixa do sapateiro”, “Oração de Mãe Menininha”, “Modinha para Gabriela”, “Vatapá”, etc, etc, apenas exemplos da obra singular deste homem que brincava com o facto de em tantos anos apenas ter feito cerca de cem cantigas e por isso ter que conviver com a alcunha de “preguiçoso”, com que carinhosamente o brindaram aqueles que o amavam.
Um abraço aos milhões de brasileiros, amantes de boa música, que viveram toda a sua vida ouvindo canções deste baiano bom.

Na tentativa de fugir à repetição dessas canções mais famosas e já milhares de vezes repetidas e regravadas por dezenas de cantores, deixo-vos aqui dois vídeos em que Caymmi partilha o seu mundo com um perfeitamente encantado Chico Buarque (quem não ficaria?), cantando em dueto as duas pérolas que são “Maricotinha” e “A vizinha do lado”.

"Maricotinha" - D. Caymmi e Chico Buarque
(Dorival Caymmi)




"A vizinha do lado" - D. Caymmi e C. Buarque
(Dorival Caymmi)



Se eu não tivesse sabido desta notícia pelos jornais que "correm" pela Net, o amigo Jorge Rezende ter-me-ia posto a par. Obrigado!

sábado, 16 de Agosto de 2008

Manuela Ferreira Leite



Se não contarmos com as raras (raríssimas, mesmo!) ocasiões em que, como a imagem documenta, a senhora está mais dada à galhofa, a Dona Manuela Ferreira leite é um todo coerente.
A cara sempre fechada, os famosos silêncios vazios disfarçados de prudência, o conservadorismo doentio, a alergia quase fobia ao povo (mesmo ao “seu”), as suas concepções retrógradas sobre a vida, de que a recente posição sobre o “casamento e procriação” é apenas um exemplo, tudo isto funciona como um bloco.
Se entrássemos no mundo de Manuela Ferreira Leite (longe vá o agouro!), seríamos transportados para meados do Século Dezanove, para cenários nebulosos, habitados por morais "vitorianas" ensinadas à reguada e vergasta, em colégios internos sujos e orfanatos lúgubres, saídos de textos de Charles Dickens.

Só que depois vemos e ouvimos a festas do Chão da Lagoa ou do Pontal, os discursos de Alberto João Jardim e Jaime Ramos, Mendes Bota e Ângelo Correia, ou o ranger de dentes dos que “andam por aí” como Santana ou Menezes... e é uma alegria!
Na verdade este PSD é uma espécie de “orfanato de Dickens”, só que numa encenação de Filipe La Féria!

sexta-feira, 15 de Agosto de 2008

Papa Bento Dezasseis




“Sua Santidade” tem gostos exóticos. E caros. Muitíssimo caros!
Recentemente, como mostram as duas primeiras imagens, retomou a tradição vinda de velhos Papas, de usar o barrete vermelho debruado a pele de arminho e uma grande estola, ou pequena capa (o que se quiser) vermelha... e debruada a pele de arminho.


Compreensivelmente, o arminho não é grande adepto desta moda papal, mas (como se pode ver) nem por isso passou a usar pedacinhos de pele de sacerdote como enfeites.

Uma ONG italiana, virada para a defesa da Natureza e Vida Selvagem, decidiu iniciar uma espécie de abaixo-assinado, para pedir ao Sumo Pontífice a “pequena e significativa renúncia pessoal (???)", de deixar de usar as peles de arminho, substituindo-as por peles sintéticas. Têm o meu aplauso...

Atendendo a outros gostos não menos exóticos de Sua Santidade, como por exemplo:


Os sapatinhos vermelhos (alegadamente) da Prada...


...chapéus vermelhos capazes de fazer corar a Rainha de Inglaterra...


...medalhas vermelhas e barretes... desculpem! Este parece-me ser o Chefe Silva, que não é desta história. (Eh, homens para serem parecidos!...)


...a exibição pública de “grandes superfícies” de ouro, etc.

Podiam ter aproveitado o balanço para pedir que passe a usar sapatos menos flamejantes, chapéus como os das pessoas normais, latão polido em vez de ouro... e vai por aí fora!...

Já se fosse eu (e se fosse crente), pedia-lhe apenas para ocupar um pouco mais do seu tempo pensando nos ensinamentos de um tal Jesus da Galileia e menos na escolha de adereços de “toilette”.
Se for verdade que esse Jesus da Galileia, homem de verdades simples, pensamentos “perigosos”, gostos frugais, adepto da companhia de pescadores e outra “gente pequena”, vê o que aqui na Terra alguns fazem em seu nome, não duvido que também ele fique “vermelho”...

quinta-feira, 14 de Agosto de 2008

Maria Keil



Esta senhora bonita é a nossa amiga Maria Keil, artista plástica.
Em 1941, via-se a si própria desta maneira.

Maria Keil (gosta que a tratem apenas por Maria) nasceu na cidade de Silves, em 1914. Partilhou a maior parte da sua vida com o arquitecto Francisco Keil do Amaral, com quem se casou, muito jovem, em 1933.
De lá para cá fez milhares de coisas, sobretudo ilustrações, que se podem encontrar em revistas como a “Seara Nova”, livros para adultos e “toneladas” de livros infantis, os de Matilde Rosa Araújo, por exemplo, são em grande quantidade. Está quase a chegar aos 100 anos de idade de uma vida cheia, que nos primeiros tempos teve alguns “sobressaltos”, umas proibições de quadros aqui, uma prisão pela PIDE, ali... as coisas normais para um certo “tipo de pessoas” no tempo do fascismo.

Para esta “história”, no entanto, o que me interessa são os seus azulejos. São aos milhares, em painéis monumentais, espalhados por variadíssimos locais. Uma das maiores contribuições de Maria Keil para a azulejaria lisboeta, foi exactamente para o Metropolitano de Lisboa. Para fugir ao figurativo, que não era o desejado pelos arquitectos do Metro, a Maria Keil partiu para o apuramento das formas geométricas que conseguiram, pelo uso da cor e génio da artista, quebrar a monotonia cinzenta das galerias de cimento armado das primeiras 19, sim, dezanove estações de Metropolitano. Como o marido estava ligado aos trabalhos de arquitectura das estações e conhecendo a fatal “falta de verba” que se fazia sentir, o Metro lá teve de pagar os azulejos, em grande parte fabricados na famosa fábrica de cerâmica “Viúva Lamego”, mas o trabalho insano da criação e pintura dos painéis... ficou de borla. Exactamente! Maria Keil decidiu oferecer o seu enorme trabalho à cidade de Lisboa e ao seu “jovem” Metropolitano.
Estes pormenores das estações do “Intendente” (1966) e “Restauradores” (1959), são bons exemplos.




Parêntesis: Qualquer alteração na “Gare do Oriente” do Arq. Calatrava, ou nas Torres das Amoreiras, do Arq. Tomás Taveira, só a título de exemplo, têm de ser encomendadas ao arquitecto que as fez e mesmo assim, ele pode recusar-se a alterar a sua obra original. Se os donos da obra avançarem para a alteração sem o acordo do autor, podem ter por garantido um belo processo em tribunal, que acabará numa “salgada” indemnização ao autor.

Finalmente, a história! Recentemente a Metro de Lisboa decidiu remodelar, modernizar, ampliar, etc, várias das estações mais antigas e não foram de modas. Avançaram para as paredes e sem dizer água vai, picaram-nas sem se dar ao trabalho de (antes) retirar os painéis de azulejos, ou ao incómodo de dar uma palavra que fosse à autora dos ditos. Mais tarde, depois da obra irremediavelmente destruída, alguém se encarregaria de apresentar umas desculpas esfarrapadas e “compreender” a tristeza da artista.
A parte “realmente boa” desta (já longa) história é que ao contrário de quase todos os arquitectos, engenheiros, escultores, pintores e quem quer que seja que veja uma sua obra pública alterada ou destruída sem o seu consentimento, Maria Keil não tem direito a qualquer indemnização.
Perguntam vocês “porquê, Samuel?” e eu tão aparvalhado como vós, “Porque na Metro de Lisboa há juristas muito bons, que descobriram não ser obrigatório pedir nada, nem indemnizar a autora, de forma nenhuma... exactamente porque ela não cobrou um tostão que fosse pela sua obra!!!

Este país, por vezes consegue ser “ainda mais extraordinário” do que que é o seu costume! Ou não?

Fontes usadas para as imagens, o Google. Para a história, o blog "As causas da Júlia", seguindo uma pista da minha amiga Isabel, que já deu cartas na "cultura" autárquica aqui no burgo.

quarta-feira, 13 de Agosto de 2008

Criança de 12 anos abatida pelas costas!



Duas execuções de civis por parte de agentes das forças policiais em dois posts seguidos, é uma média que espero poder baixar muito nos próximos tempos.
GNR mata criança durante perseguição policial.

Qualquer pessoa com mais de dois neurónios, sabe perfeitamente que a pena a aplicar a assaltantes de estaleiros de materiais de construção, depois de provados os factos, nunca é a pena de morte.
Mais, também muita gente sabe, incluindo as forças de segurança, que os agentes não devem usar de medidas ostensivamente mais gravosas do que o próprio crime alegadamente cometido, ou que ponham em risco terceiros, caso das cinematográficas perseguições automóveis em locais com forte densidade de trânsito e pessoas, acompanhadas das tradicionais salvas de “tiros para o ar”, que o mais das vezes, atinge as pessoas pelas costas...
Sendo assim, porque é que estes casos de pessoas abatidas pelas polícias, se repetem com esta cadência infernal? O que é que está a piorar tanto a gravidade destas fugas, que "justifica" o dedo tão leve nos gatilhos por parte dos agentes?
Por mais extraordinário que possa parecer, é porque de há uns bons tempos para cá (puxem pela memoria!), não há fugitivo que, ou por ser alegadamente apanhado a roubar galinhas, ou estaleiros de materiais de construção, ou por ser adolescente e estar a conduzir sem carta, etc, etc, etc... não há um, de há uns tempos para cá, como disse, que antes de iniciar a sua fuga não decida fazer um desvio para tentar atropelar um dos agentes.
Ninguém entende em que é que somar o assassinato de um agente policial ao furto de uns materiais de construção (por exemplo) iria ajudar o caso dos fugitivos e sobretudo, em que é que o facto de eliminar um potencial perseguidor, deixando todos os outro vivos e em estado de fúria, iria ajudar à própria fuga em si.
Embora seja um caso diferente do assalto-falhado ao BES, as reacções “populares” que ouvi na rádio, do tipo “deus me perdoe, mas isto é mesmo assim... tenho pena da criança, mas eles sabiam ao que iam...(?)”, somadas à alegria desmesurada dos responsáveis, não auguram nada de bom.
Quando os aplausos são exagerados e despropositados, os “artistas” em vez de se concentrarem para “fazer bem”, ficam, pelo contrário, perigosamente “entusiasmados”...
Para terminar, também eu quero (por enquanto...) dizer que de uma maneira geral, tenho confiança nas reais motivações dos agentes da autoridade, bem menos nas das chefias, muito menos nas motivações dos verdadeiros responsáveis políticos pela segurança do país.
Apesar das melhorias evidentes ao nível da qualidade humana e técnica da maioria dos agentes, por vezes (muito mais do que gostaria) a pose, a atitude geral, desde os fatais óculos escuros até à postura física fanfarrona que alguns exibem em público, fazem-me recear que estejam a ser admitidos na PSP e GNR, muitos jovens com um grande défice de cultura cívica e democrática, "compensada" por uma enorme "cultura" de jogos de guerra de tipo "playstation", nos quais, como se sabe, abater os "inimigos", seja pela frente ou pelas costas, apenas significa amealhar pontuação.


terça-feira, 12 de Agosto de 2008

Operação "perfeita"



No rescaldo do lamentável assalto falhado à dependência do BES, na Marquês de Fronteira, antes de mais devo esclarecer que a minha ignorância sobre tácticas policiais, negociação em cenário de sequestros, etc, é total. 
Sobre o acontecimento em presença, esgotadas as vias negociais (se é que o foram) e perante a situação de reféns sob ameaça directa de armas de fogo, se calhar, a única solução possível à mão do comandante das forças policiais é julgar sumariamente os assaltantes, condená-los à morte e ordenar a sua execução imediata.
Quer esta introdução dizer, que estou satisfeito, obviamente, com a libertação dos reféns, só que ao contrário do lamentável Ministro da Administração Interna, não sou capaz de ficar idiotamente feliz com o resultado “perfeito” da operação e guardo um espaço no coração, como felizmente, muitíssimas pessoas, para lamentar a morte de um dos assaltantes.
Feita a introdução e depois de muitas conversas de rua e café ouvidas mesmo sem querer, das frases extraordinárias lidas em caixas de comentários de blogs e infelizmente, mesmo em textos de blogs onde não esperava tais climas de “justiceirismo” cego, o que eu gostaria mesmo de saber é qual o momento, na evolução do ser humano (pelo menos, destes) em que se passa a festejar mais ruidosamente a morte do sequestrador do que o salvamento do sequestrado.
Lendo alguns desses textos, fico com a impressão de que o destino dos sequestrados não lhes interessa para rigorosamente nada e do que gostariam mesmo, mas mesmo muito, era de ter uns DVDs em alta definição com as imagens em câmara lenta, das balas atravessando o cérebro do assaltante.
- Eh, pá... já "vistes"? Tá altamente! É pena é o outro gajo ter escapado!...

segunda-feira, 11 de Agosto de 2008

Geórgia, Rússia, Ossétia do Sul, Abkházia... Ou de como uma coisa boa para alguns, regra geral é má para todos os outros.



Se eu fosse perguntar pessoalmente a cada uma da leitoras e leitores do “Cantigueiro” algo como “De que é que o mundo mais necessita neste momento?” teria talvez uma resposta diferente de cada, mas certamente ninguém me responderia “De mais uma guerra!!!”

Infelizmente, não são os meus amigos que dirigem os destinos do mundo!
Infelizmente, aqueles que os dirigem, já nem tem o pudor de esconder que os reais interesses por detrás destes conflitos é a posse e controlo do petróleo, gás (etc, etc, etc, etc...) e consequentemente muito dinheiro.
Infelizmente, os povos ainda se deixam manipular por oportunistas, constantemente (sempre que lhes interessa) a agitar as bandeiras dos convenientemente fabricados ódios ancestrais e patriotismos “à la minute”.
Infelizmente, perdem a vida “sempre os mesmos” e aos milhares... ganha milhares (de milhões) a meia dúzia do costume.


Perdoem-me o “francês”, mas esta merde será assim tão difícil?
Estas miúdas terão cérebros de “génias” da astrofísica, serão os seus governantes “tapados” como portas... ou será que andamos todos a avançar para o futuro, cambaleando e tropeçando em cima da linha meio apagada e espezinhada que ainda vai separando os seres humanos das bestas?


Natalia Paderina (Russia), prata e Nino Salukvadze (Geórgia), bronze 
Jogos Olímpicos - Pequim 2008

domingo, 10 de Agosto de 2008

Camaradas... jornalistas e memória



Hoje, para intercalar nas “idas” até à sala... perdão, até Pequim, para continuar a seguir os Jogos, proponho duas pequenas reflexões sobre jornalismo, ou melhor, jornalistas. A primeira é uma tristeza, mas... paciência! A segunda é igualmente uma tristeza para a qual já vou tendo menos paciência.

A primeira: Relendo uma "Visão" já de aqui “à atrasado” como se diz no Porto, encontro um artigo de uma jornalista (que não vou denunciar), sobre um craque português qualquer (ao qual não vou fazer publicidade), que alegadamente ajudou na campanha de marketing político de Barack Obama e agora estará por cá, para ajudar Manuela Ferreira Leite. O assunto não me interessa rigorosamente nada, mas apenas por acaso, apanhei um pormenor delicioso no texto. Apesar de num destaque do texto se dizer que o homem “vive há mais de dez anos nos EUA”, portanto pouco mais que dez, senão teriam escrito “quase vinte”, presumo, pouco mais à frente, a articulista afirma “apesar de ser muito reservado e pouco conhecido em Portugal (está nos EUA há muitos anos)...” e vai por aí fora.
É isto que acontece quando para alguns dos nossos opinionmakers dez anos é quase metade da sua vida e é portanto compreensível que não ligassem muito a estes problemas quando ainda andavam numa “C+S” qualquer.
É por isso que para alguns deles, de 1990 para trás, não se passou nada. Dez anos, são efectivamente “muitos anos”. Mesmo assim são felizes, como aqueles peixes pequeninos de aquário, que tendo uma memória (em alguns casos) de apenas dois segundos, nadam alegremente milhas e milhas dentro da sua bola de vidro, vendo sempre cenários "nunca vistos" e fazendo constantemente "amigos novos".

A segunda: Exceptuando o PCP, o BE (até onde eu sei, o PS também já "recebeu" os trabalhadores) e algumas excepções individuais, como Batista Bastos... o silêncio embaraçado e algo embaraçoso da parte da maior parte dos jornalistas que têm o seu empregozinho, em relação ao que se está a passar com o “Primeiro de Janeiro”, deixa-me com aquela impressão amarga de que os jornalistas portugueses, enquanto classe, já viram melhores dias!...
Perante este cenário de falta de consciência de classe (ou de coragem, sei lá...), não seria de pensar em deixarem de utilizar entre eles (alguns, como disse) aquele tratamento de “camaradas”?
Chamem-me antiquado, mas para mim, “camarada” é toda uma outra coisa!...
Mais franca, mais solidária, mais camarada...

sábado, 9 de Agosto de 2008

Beijing... que é como quem diz, Pequim e as agendas


Apesar de tudo, os artistas já estão com melhor cara nesta fotografia

Em termos de Jogos Olímpicos, admito que sou um cliente fracote. Uma grande parte das modalidades que hoje em dia fazem parte do menu, aborrecem-me até ao bocejo, a proliferação dos casos das chamadas "substâncias proibidas" feriu de morte a minha capacidade de encantamento pelas performances e resultados, além de considerar de uma maneira geral,  os espectáculos de abertura, gratuitamente excessivos e basicamente uma estafa de dinheiro.
Salvam-se as modalidades de que gosto mesmo muito (não interessa quais) e já que se realizam, um ou outro momento de mais explosiva criatividade dos tais espectáculos de abertura.
Claro que cada pessoa terá muito naturalmente a sua diferente e legítima sensibilidade sobre cada momento de um evento desportivo com o gigantismo que têm os Jogos Olímpicos de Verão.

Não estou igualmente interessado (mas mesmo nada) em entrar para o grande clube que ultimamente se tem dedicado "olimpicamente" a misturar os Jogos Olímpicos de Pequim com jarrões da Dinastia Ming, Guerreiros de Terracota de Xian, Mao Tsé Tung, Revolução Cultural, Direitos Humanos e as simpáticas (eu acho!...) lojas de chineses de ali do fundo da rua.

Então para que falo dos Jogos? Simples...
Nos últimos tempos, vários dirigentes mundiais "fizeram peito" à custa dos mais que abusados direitos humanos, dizendo ora agora que não iam estar presentes na Cerimónia de Abertura, ora que talvez fossem, iriam só de manhã... ou apenas pela tardinha... usando os tais direitos humanos, que para muitos deles equivalem mais ou menos a uma entorse num tornozelo, como arma de arremesso no xadrez da negociata económico/polítiqueira.
Como seria de esperar, mais central nuclear vendida para aqui, mais petróleo ou tecnologias da informação para acolá... lá estavam praticamente todos a acenar.
Todos? Não! Segundo leio, "Cavaco e Sócrates combinaram não ir a Pequim". Qualquer leitor mais incauto pensa logo "Ah, valentes!" mas infelizmente se ler mais umas linhas lá vem a desculpazinha esfarrapada (muito à portuguesa), "por motivos de agenda". Claro!!! Quem é que se lembra de marcar uns Jogos Olímpicos com uma semana de antecedência?!

Por motivos de agenda?! Por amor da santa... que raio de desculpa é esta? Que é que foi feito das nossas antigas, boas e infalíveis desculpas, tipo "dói-me a barriga", ou "quero ir fazer xi-xi", ou "aquele menino é mau", ou "tem dói-dói no pé"... francamente, uma infinidade delas... e todas melhores, mais credíveis e sobretudo, mais dignas.