sábado, 17 de outubro de 2009

Teimosias



Esteve uma bela tarde para apanhar mais um pouco de sol. Esta nossa amiga decidiu que deixar as roupas “ali mesmo ao pé das flores amarelas” era um bom ponto de referência. Todos lhe dissemos que não... mas qual o quê?! Teimosa!!!...

Claro que agora nenhum de nós é “capaz” de lhe dizer onde estão as roupas... mesmo os que sabemos...

Roda Viva



Não teria o menor sentido tentar contar-vos da classe do grande grupo MPB 4, nem explicar-vos a constante e funda presença do Chico Buarque. Não faria o menor sentido tentar mostrar-vos o que tão claramente está dito e feito nesta histórica canção!

Roda Viva
Chico Buarque

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu...
A gente quer ter voz activa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá...

A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou...
A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá...

O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou...
No peito a saudade cativa
Faz força pró tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...

“Roda Viva” – MPB 4 e Chico Buarque
(Francisco Buarque de Holanda)

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Conversas à mesa



Tive há muitos anos uma amiga, entusiástica praticante do hábito de falar de sexo durante as refeições. Quanto mais avançada fosse a hora e quanto maior o número de comensais, maior o empenho com que o fazia.

Era de tal maneira gráfica nos seus relatos, que, não poucas vezes, uma espécie de onda eléctrica varria a mesa e tudo em volta. Tudo o que era comida se transubstanciava. Pelos imaginários eriçavam-se-nos nas costas, já nenhum ovo se sentia mais seguro... e até os talheres enlouqueciam...

Chamava-lhes eu, as conversas “dos copos até à ponta”.

Não imagino por onde andará, mas dedico-lhe esta imagem.

"À margem" – Coral de São Domingos



Em condições normais o que é que se espera de um grupo de amadores de música coral? Que, como todos os verdadeiros amadores, gostem muito daquilo que fazem e, dando de barato todos os entraves e dificuldades técnicas... cantem muito bem. O Coral de São Domingos é desses!

Se acaso se proporcionar conhecermos pessoalmente os elementos do grupo coral, o que é que seria muito bom? Que fosse constituído por pessoas que militassem na primeira divisão dos seres humanos. O Coral de São Domingos é desses!

Amanhã, Sábado dia 17, ás 18 horas, o Coral de São Domingos estará apresentando aos amigos e outros amadores de música o seu mais recente CD, “À margem”, fruto de grande trabalho e a carga de nervos equivalente. Será em Montemor-o-Novo, no Convento de São Domingos (não, nem tudo em Montemor se chama São Domingos). Serão, como sempre, dirigidos pela “mão de ferro” vestida de veludo, do seu maestro fundador, João Luís Nabo, professor, escritor, blogueiro, amigo... não necessariamente por esta ordem.

Olhando para o cartaz, poder-se-á pensar: pronto... têm um amigo com jeito para as artes gráficas, e depois?! Não! No Coral de São Domingos o bom gosto da embalagem está sempre de acordo com o bom gosto do conteúdo, tal como os sorrisos dos seus elementos revelam o que eles são.

Apareçam por aí... há onde almoçar muitíssimo bem, há coisas bonitas para ver e o único “perigo” real que correm é tropeçarem em alguns dos 55% de alentejanos que aqui votaram CDU há dias, ou em mim... que na realidade não sou alentejano.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Novos rumos, ou novos arrumos?



Começada esta nova etapa política, dando de barato a profusão de Vossas Excelências para cima e Vossas Excelências para baixo e as primeiras “curiosidades”, como esta ou esta... que Sócrates e que Partido Socialista teremos? Um novo PM e PS dialogantes, negociadores, dispostos ao compromisso, ou mais do mesmo, arrogância e prepotência, avançando com políticas provocatórias acompanhadas de chantagem do género “ou é como nós queremos, ou então cai o governo, a culpa será toda da oposição e ficaremos tão “calimeros”, tão mártires, que em eleições intercalares a maioria absoluta serão favas contadas?”

Claro que a existir uma disposição real para a negociação e compromisso por parte do governo, a equivalente disposição por parte dos partidos da oposição será determinante...

Não tardaremos muito a saber.

Barack Obama - Ainda o Nobel... mas apenas porque o senhor Thorbjoern Jagland perguntou



Para dizer a verdade, não é só por o senhor Thorbjoer ter perguntado, que volto ao Nobel de Obama, mas também pelo ridículo artigo de Mário Soares, no DN (de que tomei conhecimento num excelente texto do "Cravo de Abril"), em que a notícia sobre o prémio é classificada como "um raio de luz que subitamente caiu e iluminou o mundo inteiro"... ou algo assim igualmente ridículo de tão baboso.

Habituados (mal!) a que as suas escolhas (mais amuo menos amuo) sejam acolhidas em clima de festa, os elementos do Comité Nobel estão algo incomodados com a natural estranheza que o Nobel da Paz atribuído a Obama causou no mundo inteiro. Mesmo admitindo a boa intenção de Barack Obama em relação a alguns dos imensos problemas que herdou, a crua verdade é que até agora pouco fez a não ser falar sobre eles. Falar muito bem, admitamos... mas apenas falar.

Em particular um dos elementos, o senhor Thorbjoern Jagland, antigo Primeiro Ministro da Noruega e recentemente eleito secretário-geral do Conselho da Europa, reagiu mal à contestação e num tom algo provocatório, pergunta se “alguém, no ano que passou, fez mais pela paz do que Barack Obama”. A resposta, infelizmente, é fácil:

Sim! As vítimas das bombas de Obama, no Iraque ou no Afeganistão. As vítimas das bombas, das balas e da repressão dos aliados e protegidos de Obama, na Faixa de Gaza, na Colômbia, nas Honduras... ou onde quer que seja, num rasto de morte que varre o globo, passando por todos os lugares que já disse, mais os que não disse, até chegar ao Chile, Vietname, Coreia, Nagazaki e Hiroshima… até aos escravos negros e ao extermínio dos índios americanos, no limite.

Sim! Os prisioneiros de Guantanamo, Abu Grahib e de outras prisões secretas, em vários países, alguns europeus, encarcerados há anos, sem acusação formal e indiscriminadamente sujeitos a tortura.

Sim! As gerações de crianças cubanas condenadas pelo bloqueio dos EUA a uma vida de dificuldades desnecessárias e injustificadas, pelas várias Administrações da Casa Branca, desde há mais de quarenta anos... incluindo a Administração Obama.

Sim! Os milhões de vítimas, deslocados e refugiados, crianças, mulheres e homens que é preciso abater ano após ano, como animais, ou simplesmente afastar do caminho, para que o caudaloso rio de dinheiro gerado pela indústria de armamento americana continue a fluir livremente. Para que os diamantes brilhem. Para que o petróleo jorre.

O seu testemunho trágico e a denúncia mundial do seu sacrifício constitui o melhor alerta para despertar consciências, para que se lute efectivamente pela Paz.

Muita gente deposita esperança, em alguns casos algo desmesurada, nas intenções de mudança apregoadas por Obama em vários e belos discursos. Também eu, no fundo, gostaria de estar enganado na minha desconfiança e ver toda essa esperança colectiva largamente recompensada. Infelizmente, apropriando-me de uma ideia do poeta José Gomes Ferreira (se não estou em erro), o homem está, por enquanto, apenas a tentar convencer-nos de que vai conseguir fazer um edifício novo, revolvendo e virando do avesso os tijolos já podres do edifício velho.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Reflexões eleitorais avulsas (2)



Em mais uma reflexão eleitoral, gostaria de falar de dois temas, o primeiro constituído por duas alegrias e o segundo por um facto que não sendo para mim propriamente uma tristeza (há que ser sincero) também não é de todo motivo de festa.

Primeiro as alegrias, neste caso, o facto de as populações de Felgueiras e do Marco de Canavezes, investidos da sua sabedoria popular e independentemente dos partidos em que votaram maioritariamente, terem escorraçado das suas Câmaras Municipais aquelas duas aberrações políticas que dão pelo nome de Fátima Felgueiras e Avelino Ferreira Torres, ao contrário, por exemplo, dos “licenciados” e altamente “tecnológicos” eleitores de Oeiras.

Também gostaria de poder comentar a eleição de Valentim Loureiro... mas à segunda frase do homem os meus ouvidos, em legítima defesa, bloquearam, razão pela qual não faço a mais pequena ideia do que possa ter dito. Mas imagino...

Passando para o segundo tema, desde as últimas eleições legislativas que embora não escrevendo aqui uma linha sobre o tema Bloco de Esquerda e a sua extraordinária performance eleitoral (o que poderia ser mal interpretado), tenho, em conversas privadas defendido a ideia de que teria sido muito bom terem, dirigentes e militantes, moderado a dimensão e ruído da festa, em alguns casos muito centrada na ultrapassagem da CDU pelo BE, festa apenas atenuada pelo facto de o próprio BE ter sido ultrapassado pelas propostas populistas e xenófobas do CDS-PP de Paulo Portas.

Teria sido bom, tenho eu defendido, porque vinham aí umas eleições para as autarquias locais e porque era evidente não ser fácil, em dez anos de existência, criar uma ligação às populações, criar um historial de trabalho e obra realizada, criar uma imagem de responsabilidade e credibilidade que, convenhamos, é o ingrediente que mais conta numa eleição autárquica, mesmo que aqui e ali isso não seja conseguido pelos métodos mais limpos.

Por tudo isso, fui prevendo que mais tarde ou mais cedo, o BE seria forçado a devolver ao Partido Socialista os milhares e milhares de votos que estava extemporaneamente a festejar e a chamar “seus”. Por culpa deste caprichoso calendário eleitoral a “coisa” deu-se muitíssimo mais cedo que tarde. Bastaram 15 dias!

São várias lições de uma assentada:

- O povo, felizmente muitas vezes, não está disposto a ser publicamente enxovalhado pelo seus representantes e dirigentes.
- Uma certa classe média alta, bem retratada pelos “licenciados” de Oeiras, desde que “se dê bem” e tenha “o seu” ao fim do mês, está-se completamente borrifando para tudo e todos.
- O Bloco de Esquerda tem muito trabalho pela frente e muito para aprender, como muito bem disse Francisco Louçã logo no rescaldo do anúncio dos resultados... e não, isto não é nenhuma vingançazinha pela festa esfusiante do BE na noite das legislativas ou "deboche" pelo compreensível velório da noite das autárquicas. Para isso, eu teria que estar muito contente com os resultados da CDU e ter feitio para dar golpes em quem está (momentaneamente) no chão e francamente... nem uma coisa nem outra!

A História e o percurso de todos os partidos e movimentos sociais que a vão fazendo, estão aí, como livros abertos. A arte está em identificar as coisas más e apreender as boas, que naturalmente serão (umas e outras) o pavimento dos caminhos que todos faremos.


Nota: Não, não me estou a “esquecer” da CDU. Esta coisa das reflexões é para continuar.