terça-feira, 16 de março de 2010

PEC – Com amigos como este...



O PEC, “programa-não-sei-de-quê-mais-não-sei-quantos”, é um amontoado de mentiras, de ataques àqueles que mais castigados são com a crise, um convite à resistência e luta, cheio de “medidas” muito justamente contestáveis.

Para saber a bela trampa que é este PEC, bastaria ler este título de um dos jornais que deram a notícia:


Alguém ainda quer alguma coisa de que Durão Barroso goste? Ou, como cantou o Fausto,

“Faz lá como tu quiseres (4x)
Folha seca cai ao chão
Eu não quero o que tu queres (4x)
Que eu sou doutra condição”

(Fausto – “Uns vão bem e outros mal”, in “Madrugada dos Trapeiros” - 1978

França – Eleições regionais e vergonha




Como já sabemos, a primeira volta das eleições regionais francesas ditaram a vitória provisória do Partido Socialista e a derrota da UMP, o partido de direita do Presidente Nicolas Sarkozy. Para além disso, mais uma vez, cavalgando a crise generalizada e a ignorância, a Frente Nacional, o partido do fascista e simpatizante nazi Jean-Marie Le Pen, que considera os campos de concentração e o Holocausto meros “detalhes”, partido que alicerça toda a sua luta política no ódio xenófobo, no racismo, na perseguição, discriminação e agressão física dos imigrantes e seus descendentes, mesmo que estes sejam já franceses por nascimento, teve uma votação importante.

Houve candidatos portugueses, ou luso-descendentes, em todas as formações políticas importantes no cenário da política regional, incluindo obviamente o PCF.

Li algures declarações de um dirigente de uma associação de imigrantes portugueses que se dizia envergonhado por ver portugueses a participar nas listas do fascista Le Pen. Também eu fico envergonhado!

Manda o pluralismo e abertura de espírito democrático que eu considere os portugueses e luso-descendentes que participaram e foram eleitos nas listas do PS, da UMP, ou do PCF, como aquilo que são: cidadãos livres e interessados em intervir no destino da sociedade em que vivem, sendo, muito naturalmente uns, socialistas, outros “sarkozystas”, outros comunistas.

Já quando chego à Frente Nacional, o meu pluralismo sofre (sem remorso) uma quebra bastante abrupta que me leva a dizer que esses portugueses e luso-descendentes que concorrem e são eleitos pelo partido fascista de Le Pen, não passam de uma pouca de bosta que se esqueceu das suas raízes, ou que não esqueceu mas traiu, desonrando os pais e avós e faltando ao respeito a todos os seus compatriotas que ainda hoje, sempre que uma ocasião se apresenta, são insultados, agredidos, pontapeados no chão, debaixo de gritos de “sale portugais” (português sujo) pelas milícias fascistas de Le Pen.

Tal como o nosso amigo emigrante/imigrante da tal associação, quem não se sentiria envergonhado?

segunda-feira, 15 de março de 2010

Lei da rolha – Afinal quem é que a votou?



Regressemos ao Congresso do PPD-PSD e à famosa “lei da rolha” que tanto excita comentadores políticos e políticos comentadores. Para além de Manuela Ferreira Leite, que raramente tem noção do que diz quando lhe enfiam um microfone à frente da cara e de Santana Lopes que foi o “inventor” da coisa, não há ex-dirigente, futuro dirigente, ou ex-futuro dirigente do PPD-PSD que não esteja contra a coisa.

Passemos por cima da idiotia que é o facto de tanto os “laranjas” em congresso, como os “rosas” que vêm demagogicamente acenar com “estalinismos” e fazer trocadilhos oportunistas com a “claustrofobia democrática”, não saberem que tanto nos estatutos (links copiados do "O tempo das cerejas") de um como do outro partido já existem normas para castigar, fustigar, vilipendiar, despentear ou mesmo expulsar os militantes "recalcitrantes". Passemos igualmente por cima do facto de que, mais nuance menos nuance, a generalidade dos partidos tem, muito naturalmente, normas disciplinares que prevêem estes casos.

Mesmo assim, atendendo à geral condenação por parte dos candidatos social-democratas, desta “lei da rolha”; atendendo ao facto de que todos os candidatos estavam presentes nos trabalhos do Congresso; atendendo ao facto de que (pelo menos era o que parecia...) uma grande parte dos delegados eram afectos às hostes dos vários candidatos... uma pergunta impõe-se:

Quem raio era aquela gente que votou por larga maioria a adopção de uma norma contra a qual todos agora parecem estar?

PPD-PSD... um belo cabaz...



Uma nota prévia apenas para dizer que apesar de entender as razões pessoais que levam Santana Lopes a propor, defender e fazer aprovar em Congresso uma “lei da rolha” que proíbe os militantes social-democratas de discordarem publicamente do partido e atacarem o líder, dois meses antes de actos eleitorais, sob pena que pode ir até à expulsão e da espessa estupidez e vasto preconceito político que levaram uma jornalista a dizer-lhe «mas nem o PCP tem isso escrito»... apesar de tudo isso, como dizia, pago para ver aquele saco de gatos, durante dois meses antes de eleições, com todos eles lá dentro, unidos, cordiais e cheios de mútua lealdade.

Agora sobre o Congresso propriamente dito, pondo de parte os Jardins e outros cromos que mesmo querendo, não conseguem passar de arruaceiros ou números de revista, adorei ver todos os “mais ou menos notáveis” a fazer de conta que gostam imenso uns dos outros, encenando aquela espécie de “valsa palaciana”, quando todos sabemos que a dança que lhes vai bem é a “quadrilha”... o que nos leva até este vídeo, com uma ilustração de um pequeno poema de Carlos Drummond de Andrade e que termina com uma curta animação musical a cargo do Chico Buarque... muito a propósito.

“Quadrilha” – C. Drummond de Andrade e Chico Buarque
(Carlos Drummond de Andrade/Chico Buarque)

domingo, 14 de março de 2010

Silva Lopes – O desgostado





A julgar pelo que li no “O tempo das cerejas”, um blog onde vou regularmente em busca de lucidez (e boa música), o Vítor Dias viu praticamente as mesmas partes que eu vi do “Plano Inclinado” e “achou graça” à mesma frase que eu também destaquei da lengalenga do costume.

Segundo um dos convidados, o parasita Silva Lopes, desavergonhado acumulador de pensões e prémios milionários, as nacionalizações que se seguiram ao 25 de Abril, até tiveram o seu acordo... mas depois, desgostou-se das ditas por ter descoberto que afinal (mais palavra menos palavra) «os trabalhadores ficavam com a totalidade dos dividendos das empresas para si» e o Estado acabava sempre por ter que pôr dinheiro nessas empresas.
Isto leva-me a duas, digamos, considerações... e uma pergunta:

1. Convivi com dezenas e dezenas de trabalhadores de empresas nacionalizadas, como bancos, seguradoras, estaleiros navais, siderurgias, grandes indústrias metalo-mecânicas, etc., etc.... e confesso o meu espanto por nunca ter percebido que eles andavam todos a enriquecer. Que bem que os trabalhadores conseguiram esconder os Ferraris, os Porsches e os Iates!

2. Considero a violência entre humanos uma coisa condenável e muito feia. Já para a chamada “Justiça Divina”, que tantos insistem que existe, a violência não parece constituir um grande problema, nem agora, nem ao longo dos últimos Séculos.

Sendo assim, porque diacho é que quando estes trastes aparecem em público debitando frases destas, não desce dos céus um raio que lhes parta os dentes?

Jean Ferrat – “Cest un joli nom...”



Ontem, com 79 anos de vida, deixou-nos. Chamava-se Jean Ferrat. Filho de pai imigrante, um judeu de origem russa, viu-o ser deportado e assassinado em Auschwitz. Foi "poupado" a uma morte certa pela acção e protecção de membros do Partido Comunista Francês, camaradas de seu pai. Permaneceu ao lado do PCF durante toda a vida. Enorme compositor e cantor de uma certa música francesa que soube e mereceu ser a banda sonora de muitos e grandes sonhos colectivos.

Muitos desses sonhos estão por cumprir. Até lá continuaremos a cantar e a “amar até perder a razão”...

“Aimer à perdre la raison” – Jean Ferrat
(Louis Aragon/Jean Ferrat)

sábado, 13 de março de 2010

Grandes títulos, pequena “História”




Antes que alguém pense que algo me move pessoalmente contra a senhora Irene Flunser Pimentel, repito que não. Se a senhora conseguiu com três ou quatro livros o estatuto de “grande historiadora do regime” ainda bem para ela. Como o conseguiu e a troco de quê, interessa-me muito pouco.

De qualquer maneira, este regresso à historiadora da moda não se prende com a pessoa, como já disse, mas com um pequeno pormenor do seu mais recente livro, desta vez de “histórias” sobre o cardeal Cerejeira, parceiro privilegiado daqueles que impuseram 48 de fascismo e repressão em Portugal.

A técnica é antiga. Todos os dias a vemos aplicada em parangonas de jornais e anúncios televisivos com “resumos” dos telejornais. Todos os donos de órgãos de comunicação social sabem muito bem que a esmagadora maioria dos portugueses apenas ouve os resumos com as principais “notícias” dos telejornais e muda imediatamente de canal, assim como a não menos esmagadora maioria dos “leitores” de jornais se fica pelos grandes títulos das capas que vê de passagem, dos jornais estendidos nos quiosques e papelarias. Independentemente do que o jornalista queira, ou seja obrigado a escrever lá dentro, no corpo na notícia, o que conta realmente, aquilo que vai ficar na retina do “leitor/transeunte” é o que estiver escarrapachado nos títulos. Assim, esta é a melhor maneira de fazer passar para o público seja que mentira for, seja que calúnia for, seja qual for o tamanho do embuste e da demagogia... o que me traz de volta ao livrinho da senhora historiadora, que leva por título “Cardeal Cerejeira – O príncipe da Igreja”.

E aí está! Independentemente de tudo o que possa estar escrito no livro, esteja certo ou errado, verdade ou mentira, seja discutível ou não, aquilo que contará para a tal esmagadora maioria é o que está estampado na capa... e essa, diz-nos que o Cardeal Cerejeira foi "O Príncipe da Igreja". Ora, isso só pode ser uma coisa muito boa, não é?