Embora correndo o risco de atrair à caixa de comentários algum "maduro" saudosista que nos venha vender a ideia de que o ensino no tempo de Salazar é que era bom, independentemente do facto de ser só para alguns (pequeníssimo pormenor...), ensino onde as aulas decorriam na paz e colorido que a imagem tão bem ilustra... mesmo assim aí vai.
Mais uma vez, cumprindo o que é já um hábito tão novo quanto inútil, aí temos o ranking das escolas portuguesas. Mais uma vez, inexplicavelmente, mistura-se alhos com bugalhos, compara-se o que não tem comparação possível, juntam-se a esmo escolas públicas perdidas no campo do interior do país, ou nos bairros miseráveis eufemísticamente apelidados de bairros problemáticos, perdidos nas periferias das grandes cidades, com colégios privados, de várias cambiantes de luxo.
Mais uma vez, vêm uns génios explicar-nos terem “descoberto”, certamente com grande espanto, que as escolas particulares, frequentadas pelos filhos da classe média-alta e pelos francamente ricos, que, salvo excepções, têm em casa todas as condições para apoiar o trabalho da escola, escolas onde na maior parte dos casos se impõe uma rígida selecção à entrada e uma disciplina férrea que não permite a menor perturbação do ambiente produtivo das aulas, em turmas correctamente dimensionadas e com professores motivados pelas excelentes condições de trabalho... quase sempre têm tendência para produzir melhores resultados do que a esmagadora maioria das escolas públicas, sobrelotadas, onde várias décadas de “eduquês” pouco mais que inútil, erradicou das estudantis cabeças qualquer noção de trabalho e esforço, de respeito pelo saber e pelos professores, professores esses martirizados por trabalho administrativo, desrespeitados ainda mais gravemente pela tutela do que pelos alunos, professores que pouco depois dos trinta anos já estão a fazer contas à reforma e a contabilizar os anos que lhes restam de pesadelo, professores diariamente aterrorizados pela possível entrada na sala de aula de algum encarregado de “educação” que venha esclarecer uma negativa do filho à força de pancada, professores impotentes perante o falhanço estrondoso de um conceito de educação que, na ânsia de transformar a escola num espaço lúdico, apenas conseguiu transformá-la numa bandalheira.
Existem, como sempre, várias excepções a estes cenários, tão lamentáveis no primeiro caso, como louváveis, no segundo. Como sempre, também, umas e outras apenas vêm confirmar a regra.
Não vislumbro, como já se percebeu, qualquer utilidade ou sentido, nestas comparações espúrias e na futilidade destes rankings. Qualquer leitor mais conhecedor do mundo da educação, professor ou não, poderá trazer valiosos contributos para este mistério.
Uma coisa é certa. A experiência que eu gostaria mesmo de ver, seria a ida de uma ou duas turmas com alunos em excesso, originárias de uma escola pública situada num dos tais “bairros problemáticos”, directamente para um colégio de luxo, por troca com os alunos de uma ou duas turmas de “génios” do colégio, que iriam frequentar a tal escola pública, juntamente com as restantes várias centenas de residentes habituais. Adoraria apreciar os resultados do colégio, por um lado e dos “génios”, por outro, ao fim de um ano lectivo ou mesmo apenas um período!
Mas claro... posso estar completamente enganado.






