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domingo, 5 de maio de 2013

Maria Rita – Num tempo novo


Venho de um tempo antigo. Um tempo triste, em que os novos músicos que iam aparecendo eram tão “curiosos” e amadores com quase todos os que os tinham precedido... e não havia perspectiva de que muitos dos que se seguiriam viessem a ser mais qualificados.
Era um tempo em que as poucas saídas realmente profissionais para músicos qualificados, não iam além da música dita erudita... e fechada sobre si.
Era um tempo em que uma boa parte dos músicos que se diziam “do jazz” (felizmente havia maravilhosas excepções!), não passavam de pequenos aldrabões que, só à custa da falta de preparação de quem os ouvia, conseguiam disfarçar o óbvio: não saberem tocar, realmente, os instrumentos.
Depois, felizmente e fruto da abertura proporcionada por Abril, tudo começou a mudar para melhor. Hoje temos um belíssimo “exército” de músicos fantásticos, capazes de se aventurar em qualquer género musical, interessados na música portuguesa e atentos ao que se passa no resto do mundo. Gente muito nova, capaz de entender as nuances que separam uma canção do Zeca ou do Sérgio Godinho... do universo musical de um Tony Carreira, isto sem, em qualquer dos casos, baixarem o nível de profissionalismo e competência em palco ou em estúdio.
Afortunadamente, eu próprio cruzei o meu caminho com uma mão cheia destes “miúdos” cheios de talento, que dão um novo som ao que faço. Sem eles, provavelmente, já estaria a pensar em arrumar a guitarra de uma vez por todas.
E assim chegamos à Orquestra de hoje e ao vídeo que quero partilhar. Trata-se da Orquestra de Jazz de Matosinhos, um “bando” de músicos fantásticos que explicam, na prática, alto e bom som, tudo o que disse até aqui.
Entra em cena a artista convidada de hoje, a já aqui vista e ouvida Maria Rita.
Habituada ao cliché do fado, da saudade, da tristeza, do bacalhau, cliché que acompanha tudo o que é português na sua terra brasileira, Maria Rita não estaria, certamente, à espera daquele som fantástico de um jazz bem “contaminado” de brasil, produzida por uma orquestra portuguesa... em Matosinhos.
Pelos vistos gostou. Sentiu-se em casa, reconheceu o “balanço” com que foi embalada muitas vezes no colo da mãe, Elis Regina... e ouvindo a sua música e a dos seus tantos e tão talentosos amigos. O balanço da sua terra.
Pelos vistos gostou. Canta com um sorriso aberto. Dança como quem flutua. 
Bela, feliz, sensual... pura!
“Num corpo só” – Maria Rita e “OJM”
(Arlindo Cruz/Picolé)



domingo, 23 de dezembro de 2012

Elis e Maria Rita – A fusão total


Durante cinco anos foi apenas a menina da sua mãe. Tímida, armações de óculos muito grossas, um olho vendado, extremamente estrábica. E ficou órfã.
Depois “descobriu” realmente o que é ser-se filha de Elis Regina. Foi uma adolescente esmagada pela memória da sua mãe. Descobriu que fora uma artista genial, cantora inesquecível, figura inultrapassável na cena artística brasileira, um ícone da força que foi precisa nos anos de chumbo do Brasil fascista.
Só aos 24 anos teve a coragem de cantar para o mundo, embora o quisesse fazer desde muito mais jovem. Mesmo assim, deve tê-lo feito com a noção de que lhe cairiam em cima as suspeitas do costume nestes casos: que quereria fazer carreira à custa da mãe, que a imitava propositadamente... isso para além da inveja daqueles que nem precisam de razões ou desculpas para a inveja... para além da própria inveja.
Venceu! Agora, ao fim de vários anos de carreira e muitos prémios conquistados, achou finalmente que podia e devia fazer aquilo que até agora nunca tinha ousado: cantar Elis Regina.
Em vez de incluir, discretamente, uma qualquer canção do reportório da mãe num novo disco, decidiu montar um espectáculo inteiro (acompanhado de CD e DVD), em homenagem à grande Elis. O resultado é tremendo!
No primeiro vídeo podemos ouvir Elis Regina cantando um dos seus grandes clássicos, “Como nossos pais”.
No segundo, vemos a Maria Rita cantando a mesma canção, invadida, como sempre, pela herança avassaladora que carrega na voz... mas inda “resistindo” fazendo diferente aqui e ali...
No terceiro, é a rendição total. Este “Águas de Março” é arrepiante. Como se fosse um dueto cantado por um corpo só.
Há particularidades nas interpretações de uma e de outra.
Claro que a Maria Rita tem o toque extra que é a emoção de ver, segundo a segundo, concerto a concerto, o quanto a sua própria mãe é lembrada, amada e cantada em coro por tantos milhares de pessoas
Claro que a interpretação da Elis, na primeira canção, traz um dramatismo e um rasgar de voz únicos que, para além de serem a marca de água da cantora eram o resultado do facto de ser cantada sob um regime brutal de ditadura militar e censura... um “pormenor” que pode mudar para sempre a nossa maneira de cantar, como nós bem sabemos.
Bom domingo!
“Como nossos pais” - Elis Regina
(António Carlos Belchior)


“Como nossos pais” – Maria Rita
(António Carlos Belchior)


“Águas de Março) – Maria Rita
(Tom Jobim)