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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Roda viva – Quem não anda?...


“Os saltimbancos” e “Roda viva”. Duas obras teatrais que viram a luz do dia em tempos turbulentos no Brasil. Ambas têm a marca de Chico Buarque. A primeira, que ele adaptou para português a partir do texto original de Sergio Bardotti e música de Luis Enríquez Bacalov, a que acrescentou mais umas músicas da sua lavra. A segunda, a sua primeira peça teatral, escrita em 1967, com uma canção-tema com o mesmo nome da peça.
“Os saltimbancos” é um musical infantil, que aborda subtilmente a luta de classes, através da estória de um burro, um cão, uma galinha e uma gata… todos contra o “Barão”, o inimigo dos animais.
É impossível igualar a maravilha que foi o elenco original, com Pedro Paulo Rangel e Grande Otelo, as jovens Marieta Severo, Miúcha, Bebel Gilberto (filha de João Gilberto e Miúcha), Sílvia Buarque (filha do Chico e da Marieta), Isabel Diegues (filha de Nara Leão e Cacá Diegues)… e por aí fora.
Quanto à “Roda viva”, essa fiou mais fino! Com um elenco inicial composto por Marieta Severo, Heleno Prestes e António Pedro, teve uma primeira temporada de sucesso. Depois… veio a borrasca.
Já com Marília Pera, Andre Valli e Rodrigo Santiago, o espectáculo começou a estar na mira do CCC (Comando de caça aos comunistas), que por duas vezes invadiu os teatros durante a representação, espancando os artistas e destruindo todo o material. Acabou proibida!
Dando um salto de quase cinquenta anos, para Montemor-o-Novo, o meu filho mais “recente”, de sua graça Paulo, decidiu trabalhar com alguns muito jovens rapazes e raparigas montemorenses, numa produção da Associação Theatron, fazendo uma versão muito livre do texto de “Os saltimbancos” (sem as canções), juntando-lhe, a dado passo, a tal canção do Chico Buarque, “Roda viva”.
Levaram a coisa à cena numa das salas do Convento da Saudação, com o apoio do “Espaço do Tempo” do coreógrafo Rui Horta. Diz quem viu, que foi coisa fina. Eu também gostei… mas neste caso a minha opinião não conta lá grande coisa!
Estabelecidas as “distâncias” entre os muitos e célebres actores e cantores originais e a miudagem montemorense, constituída por (ainda) não-actores e não-cantores, aqui fica a “Roda viva”, que eu tive o maior prazer em alindar com uns sons que me pareceram adequados para a idade dos participantes, gravar as vozes de dez dos mais jovens elementos da Oficina do Canto, também de Montemor… e misturar tudo. Boa audição!



quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Joaquim Benite – Uma página de História da Cultura




E de repente, nos antípodas do esterco humano que tantas vezes povoa os textos deste blogue, esterco que permanece, teimosamente, sujando e infectando o ar que respiramos... sabe-se da morte de mais um homem bom!
E de repente, de uma forma tão injusta quanto cobarde e despropositada – é sempre assim que a morte chega, mesmo que largamente anunciada – ficamos sem a companhia amiga, solidária e criativa do Joaquim Benite.
Parceiro de conversas cúmplices desde o velho “teatro” numa colectividade em Campolide (onde eu haveria de passar mais tarde com o recém formado grupo de teatro “A Barraca”), de animados e intermináveis leilões de arte, em que quadros a óleo, ou serigrafias, ou simples desenhos, eram oferecidos ao “Teatro de Campolide” pelos artistas plásticos para serem vendidos em sessões de cantigas que nós, os baladeiros, oferecíamos igualmente. Tratava-se de uma espécie de “reforço de subsídio” para os projectos corajosos que ali dirigia. Isto ainda no tempo em que “os avançados morriam ao amanhecer” (1971).
Ajudou a transformar para sempre o teatro em Portugal. Passou da crítica à acção, divulgou autores “inconvenientes”, criou um grande Festival de Teatro, escreveu, interveio, ajudou a rasgar caminhos para o futuro...
Almada acolheu, desde 1978, o seu talento. Proporcionou-lhe uma “casa” com a dignidade que merecia... e ele gostou. Bastava ver o brilho dos olhos quando mostrava o “seu” Teatro de Almada.
Vem aqui fazer um recital dos teus! – dizia-me ele de cada vez que nos víamos por lá – Tens tudo à disposição! É só dizeres o que precisas...
Acabei por nunca ir. Um dia destes alguém há-de convidar-me para ir cantar no “seu” Teatro... e pensarei no sorriso aberto do Joaquim Benite... que vai viver ali para sempre.
Abraço, velho companheiro!