Há muito, muito tempo, era eu uma criança... (mas chega de plagiar o José Cid) que descobriu a maneira de se livrar da Mocidade Portuguesa de Salazar. Muito simplesmente, decidi inscrever-me em tudo o que era actividade circum-escolar, com grande prioridade para o atletismo... e pronto. Adeus à fardinha idiota, aos desfiles sem sentido e à gritaria dos “direitaaaaa vooolver!!!” insuportáveis, que desta maneira só aturei por umas três vezes. Claro que fui ajudado pelo facto de, nessa altura, em Águeda, a Mocidade Portuguesa não ser propriamente a actividade ou ideia de diversão juvenil mais popular.
Vem isto a propósito da forma displicente (nalguns casos apologética) com que a generalidade dos politólogos e comentadores oficiais observam a “viragem à direita do PPD-PSD de Passos Coelho, como se isso fosse o mais natural e necessário para o país. Assim como que uma espécie de sol na eira... ou chuva no nabal.
Com a espantação própria dos parolos, aplaudem a chegada atrasada a Portugal de um discurso neoliberal – como se ele não estivesse já entre nós – depois de este ter feito por todo o mundo os estragos que se vêem. Claro que o discurso neoliberal tem sempre ouvintes receptivos. O discurso neoliberal, para ser propositadamente redutor, resume-se a pegar nas baboseiras reaccionárias que correm nas tascas, nos táxis, nos barbeiros, subúrbios de cidades, campos dominados por senhores e párocos retrógrados e em todos os meios profundamente despolitizados e ignorantes, onde foi fácil amadurecer ideias furiosamente individualistas e anti-sociais, transformadas em cartilha contestatária do sistema político e dos políticos em geral, abrilhantada pelas eternas frases feitas tipo “eu quero é o meu”, “pra quem quer trabalhar há sempre trabalho”, “cada um que se oriente”, “os políticos são todos iguais”, etc., etc., etc... e intelectualizá-las. Juntar-lhes a teoria recorrente do “Menos Estado” e a cegueira não menos recorrente da “Revisão da Constituição”, é a cereja em cima do bolo.
Um político neoliberal, como Passos Coelho, tem apenas que vestir estas “bocas” de tasca com umas roupagens de teoria económico/filosófica, exactamente como fizeram antes dele alguns “gurus” da economia e filosofia (nos quais dirá inspirar-se...) e aí vamos! Direitaaaaa vooooolver!, acompanhados pelos fantasmas de Margareth Tatcher, Pinochet, Reagan, Bush ou Tony Blair, entre outros trastes, perante o ar enlevado dos comentadores e politólogos, encantados com a “indiscutível viragem à direita do PSD”, viragem que, somada à de Sócrates, é precisamente o que está a fazer falta a Portugal. Então não é?
A imagem aí em cima não é de uma manifestação dos delegados deste Congresso do PPD-PSD. Não! É mesmo de um desfile, em Lisboa, da velha Mocidade Portuguesa de Salazar. Faz a sua diferença... mas há que ficar atento!!!