quinta-feira, 12 de novembro de 2009

E já irão tarde!



Já houve um tempo, na nossa imberbe democracia, em que qualquer turista menos informado seria levado a pensar que “rua” era o apelido mais popular em Portugal, tal a profusão e colorido das inscrições nas paredes, onde se podia ler “Soares rua!”, “Sá Carneiro rua!”, "AD rua!", “Pinto Balsemão rua!”, “Mota Pinto rua!”, etc., etc.

Se a actual classe política que se tem intitulado do “arco da governação” (e que bem eles se têm governado!), não começar a ver, rapidamente, alguns dos seus membros devidamente acusados, julgados e presos e se de uma maneira geral, não derem lugar a gente honesta que consiga voltar a instalar na sociedade alguma confiança, afastando do nosso dia a dia este espectro de corrupção generalizada e, sobretudo, ostensivamente impune, acredito que voltaremos muito em breve a ver as nossas ruas inundadas de inscrições com muitos dos nomes dos políticos mais conhecidos, seguidos do inevitável “RUA!!!”

Não será a demagogia do PPD (um antro...), nem da sua presidente Manuela Ferreira Leite, que se tivesse um pingo de vergonha (enquanto dirigente do partido, claro!) nem abria a boca, que ajudarão à necessária retoma da credibilidade.

Este “pas-de-deux”, ou “tango”, ou lá o que é, entre o Supremo Tribunal de Justiça e o Procurador Geral da República... tampouco.

Se Sócrates, ou alguém da máquina de propaganda do PS ressuscitar mais uma vez a estafada teoria da cabala, ou da campanha negra... ainda ajudará menos!

É que não pensam em mais nada!...


(Pároco Ortodoxo, numa atitude pouquíssimo ortodoxa, perante a nada ortodoxa posição de uma sua paroquiana)

Em cada dez documentos que a Igreja Católica (e muitas das Protestantes e Evangélicas) produzem e fazem chegar à comunidade através dos meios de comunicação social, um ou dois debruçam-se efectivamente sobre a religião. Dois ou três são ataques a um qualquer livro, filme, ou obra plástica, acompanhados pela histérica diabolização dos seus criadores. Tudo resto é, invariavelmente, dedicado a um único tema: sexo!

É que não pensam em mais nada!...

Mais uma vez, uma posição da Conferencia Episcopal gasta o seu e o nosso tempo, vociferando contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, contra o que insiste em considerar ataques à família (não se entende que ataques, nem que família), contra a educação sexual nas escolas, neste caso, apelando mesmo a uma figura algo nova, o “inconformismo cívico”.

Adaptando livremente uma dissertação sobre o mesmo tema, que ouvi a alguém num canal de televisão francês (se não estou em erro), o sexo é suposto ser, tal como a comida, uma coisa boa, saudável, que alimenta e faz crescer os seres humanos harmoniosamente e em felicidade... só que dá ainda maior prazer.

Claro que, como todos sabemos, existe gente que vive obcecada com a comida. São pessoas doentes, uns sofrem de anorexia, outros, de obesidade...
Estes dirigentes religiosos obcecados por sexo são também pessoas visivelmente doentes. Que nome terá este grave e já insuportável distúrbio psíquico?

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

PJ procura bruxa com gosto pela aventura. Bom ambiente de trabalho. Salário a combinar.



As gravações dos telefonemas entre Armando Vara e José Sócrates, obtidas durante a investigação absolutamente legal de que Vara vinha sendo alvo, referente ao processo de corrupção “face oculta”, poderão ser consideradas nulas, contenham elas sela lá o que for... porque tratando-se do Primeiro Ministro, as gravações teriam que ter sido autorizadas por um Tribunal Superior. Mais "jogo de empurra" ou menos "o outro que diga", parece que é isto o que se passa.

Deixa lá ver se entendi. Se a Judiciária estiver a vigiar os telefonemas de um meliante qualquer e se de repente ele se lembrar de que conhece o Primeiro Ministro desde os tempos da escola secundária, resolver pegar no telefone e desabafar com ele as provas todas de que anda metido em “certas e determinadas pequenas, médias e grandes alhadas”... as provas são nulas, porque o agente da polícia devia ter adivinhado que ele ia telefonar ao Primeiro Ministro e ir a correr pedir uma autorização a um Tribunal Superior e voltar esbaforido, ainda a tempo de poder gravar o telefonema, quando ele acontecesse...

Bela bosta de norma!

Eu quero crer que Sócrates não tem nada que ver com esta sujeira (Que diabo! O homem não pode estar metido em tudo o que é estória manhosa!...), mas preferia que ele não pudesse ver-se livre deste pequeno aborrecimento, como tantos outros antes dele, por causa de um “pormenorzinho técnico”.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Antes que seja tarde



A ver pelas notícias de fraudes eleitorais que nos chegam de tantos lugares no mundo, seria bom que se começasse a pensar em expurgar os nossos cadernos eleitorais dos eleitores-fantasmas (entre muitas outras bizarrias) que andam a assombrar as nossas eleições de uma forma que começa a ser preocupante. De preferência rapidamente, antes que estejamos novamente tão perto de novos actos eleitorais, que já não seja, mais uma vez, muito ético, estar a mexer nos ditos cadernos.

Segundo estudos divulgados, o estado de degradação dos cadernos eleitorais é tal, que começa a influenciar os resultados eleitorais, o que é absolutamente inaceitável, seja porque os níveis de “abstenção” estão a ser inflacionados em quase 10%, o que no caso, por exemplo, de um referendo, pode dar como não vinculativo um referendo que afinal o teria sido, seja nas armadilhas monumentais que falsos eleitores podem provocar, por via do método de Hondt, que é muito engraçado, mas que por meia dúzia de votos pode decidir a eleição ou não eleição de deputados, o que falseia o sentido do voto popular.

(Para esclarecimentos sobre o método de Hondt, é favor dirigirem-se directamente ao estabelecimento do Dr. Sérgio Ribeiro, que dá explicações excelentes, aqui, aqui, aqui e aqui, faz orçamentos grátis... e vai a casa.)

Uma coisa, acima de tudo, faz-me uma grande impressão. Será assim tão complexo retirar os mortos dos cadernos eleitorais... ou os institutos de sondagens não podem prescindir deles para fazerem as célebres “sondagens à boca das urnas”?

Pelo menos isso explicaria muito do que se passa com as “benditas” sondagens...

Por uma humanidade sem muros


(Muro da Cisjordânia, que continua a ser construído pelo regime israelita)

É legítimo opinar sobre a antiga RDA, mesmo que algumas das opiniões estejam erradas. É importante ter a liberdade de contar estórias sobre a antiga RDA, mesmo que uma grande parte das estórias seja muito “mal contada”.

Já é menos legítimo organizar um “muro” de propaganda realçando unicamente os aspectos negativos da vida na antiga RDA e nos restantes países chamados de leste, mesmo sendo aspectos negativos e contradições entre princípios e prática, de tal maneira graves, que levaram à derrota política de todos esses países. Claro que o fazem com o fim único de esconder uma parte importante da verdade histórica.

Os nossos jornalistas e comentadores, sempre tão prontos a tirar ilações de tudo e mais alguma coisa, mesmo quando por descargo de consciência incluem nas suas peças declarações de cidadãos da RDA, alguns mesmo declarando que não concordavam com muito do que se passava no país, mas ainda assim, defendendo, no essencial, o socialismo e dizendo sem rodeios que então viviam melhor... passam rapidamente em frente, como se estas declarações não tivessem qualquer significado e não fossem repetidas por mais de metade dos alemães da ex RDA. Assim, bem escondida atrás do “muro” da propaganda, fica a triste realidade que por lá se vive. Os trabalhadores e cidadãos em geral da Alemanha de leste são discriminados, sofrem uma taxa de desemprego que ronda os 20%, têm salários médios que chegam apenas a pouco mais de metade dos salários médios dos alemães ocidentais e, embora não tão gravemente como os cidadãos de outros países, como a Rússia ou a Roménia, onde está instalado o caos social, ficaram nas mãos de bandos de criminosos organizados em verdadeiras máfias... a outra face do capitalismo.

Em termos pessoais, sou a favor de uma democracia pluripartidária e da mais transparente liberdade, no que sou, aliás, apoiado pelo programa do PCP e muitos milhares de portugueses sem partido, logo, não era o que se pudesse chamar um simpatizante do Muro de Berlim. Mesmo tendo sido muito bem tratado quando por lá andei não deixei de o dizer...

Os dirigentes da RDA e de outros países da área socialista, consideraram que a construção, ou melhor, a manutenção do muro, tal como outras medidas diferentes na forma mas iguais em significado e grande dureza, eram a melhor maneira de os seus países se defenderem dos ferozes ataques que o mundo capitalista lhes moveu desde a primeira hora. Estavam errados! Não só não foram grande defesa, como contribuíram objectivamente para o afundamento dessas sociedades e para o descrédito internacional de todo o projecto do socialismo, por muito injusto que isso seja.

Agora é necessária muito mais energia e convicção para lutar pelo socialismo, para lutar pelo derrube destes “muros” de propaganda paga a peso de ouro em todos os jornais e televisões pelo grande capital internacional, o qual quer esconder custe o que custar, o que a Revolução significou para os trabalhadores de todo o mundo, em termos de alteração das condições de trabalho e de vida e de conquistas efectivas de dignidade individual e colectiva. O grande capital internacional não perdoa os sustos por que passou (e passa) sempre que os trabalhadores levantam a cabeça.

Pena é ver tanta gente que se reclama de esquerda e que, no seu direito, foi e é contra os tais erros graves da aplicação prática da política nesses países, não ser capaz de se demarcar claramente da festança boçal regada a champanhe que a direita mais retrógrada faz por esta altura, enquanto esfrega as mãos de contente perante as perspectivas de belos negócios alimentados de baixos salários e precariedade e trabalho sem direitos que esses “novos” países proporcionam.

Uma coisa boa resta de tudo isto. É de esperar que pelo menos uma pequena parte destes entusiastas e festivos “comemorantes” do fim do Muro de Berlim, passadas que estiverem as ressacas, se mostrem disponíveis para lutar mais activamente contra os novos muros, não simbólicos, mas bem reais, que estão a ser erguidos, por exemplo, na Palestina, por Israel, para roubar as terras, a água e as vidas dos palestinianos (quando estiver pronto terá mais de 700 quilómetros), nos EUA, o muro na fronteira com o México, para manter os pobres fora do país, exceptuando os muitos milhares de trabalhadores sem papeis, que dão milhões de lucro aos seus patrões (quando estiver pronto terá cerca de 700 quilómetros, mais 800 de barreiras adicionais), o muro de Ceuta, com que a Espanha e a fina Europa se “defendem” dos emigrantes africanos, etc., etc., etc., até pequenos muros para cercar comunidades ciganas, como este, muito recente, na cidade de Ostrovany, na "libertada" Eslováquia.

Abaixo os muros!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Crise... qual crise! Só se for falta de vergonha...



Este é um dos brilhantes “outdoors” que por estes dias polui uma das rotundas daqui do burgo. Eu admito que vender casas a dar com um pau seja muito importante para os donos e funcionários da Remax, mas... “crise... qual crise?!!!”

Mesmo dando o desconto das liberdades e exageros dos publicitários, é pena que de vez em quando os narizes ou os dentes de alguns deles não tenham “encontros imediatos” com um ou outro cidadão vítima da crise, que esteja assim, digamos, mais irritado, sei lá... por exemplo por ter acabado de perder a casa para um banco gerido por corruptos...

Completamente ao arrepio das notícias e documentários históricos que estão na ordem do dia... 24 horas por dia!



A sessão de lançamento do livro “A Reforma Agrária é necessária”, que como atrás anunciei, teve lugar em Évora, foi mais uma ocasião para relembrar aquela que foi sem dúvida a mais bela conquista de Abril. Ali, numa grande e bela casa onde viveu Florbela Espanca, mais tarde comprada por algumas Cooperativas da Reforma Agrária e que agora seguirá o seu caminho na História da cidade como “Associação Povo Alentejano”, passámos um belo fim de tarde. Pela mão do José Casanova, do próprio autor do livro, do Abílio Fernandes e elementos da assistência, conversámos sobre a realidade que foi a Reforma Agrária e sobre o quanto ainda faz sentido num país com a agricultura quase moribunda, as mudanças radicais e para melhor que operou no Alentejo e Ribatejo e, inevitavelmente, sobre as causas que justificaram o profundo ódio que essa conquista atraiu sobre si, ódio a que Mário Soares e António Barreto deram forma, iniciando a ofensiva selvagem que cometeu sobre os trabalhadores e as suas Unidades Colectivas de Produção os crimes que são conhecidos, ao longo de vários governos, com os resultados catastróficos que se vêem.

O livro é, para além dos textos, uma excelente recolha de imagens, ora empolgantes e de festa, ora dramáticas, de que guardo ainda na memória até os sons...

António Gervásio, o autor, é um homem singular, nascido em 1927 (mas que ainda não perde uma ocasião para nos dizer que andamos um bocado devagar...), um alentejano Montemorense, trabalhador agrícola, comunista que nunca virou a cara à luta por melhores e mais justas condições de trabalho e de vida para o povo e que, por isso, viu por várias vezes a sua liberdade de movimentos (nunca a de convicções) encerrada em prisões do fascismo. A Revolução de Abril encontrou-o preso em Peniche, onde estava desde 1971, para cumprir uma pena de 14 anos...

No final da sessão, quando chegou a minha vez de ter a minha cópia do livro autografada, não se esquecendo do meu “estatuto de independente”, perguntou-me se não fazia mal escrever “ao camarada Samuel...”

Nem deve ter notado o quanto me honrou!