Antes do mais, começar por explicar a fotomontagem de hoje. A senhora, primeira a contar da esquerda, é a Dra. Ana Jorge, ministra das doenças, aqui apanhada num intervalo das filmagens do Harry Potter. O segundo é o Dr. Pedro Nunes, Bastonário da Ordem dos Médicos e que serve basicamente para nos mostrar que a nossa geração não foi particularmente feliz com o “Pedro Nunes” a que teve direito, por comparação com o pessoal que viveu em meados do Século XVI. O terceiro, não sei quem é. O quarto é o Dr. João Cordeiro, presidente da Associação Nacional das Farmácias.
Agora voltando para trás. O Dr. João Cordeiro preside ao negócio das farmácias, negócio esse, não poucas vezes, de contornos algo “mafiosos”, eternamente nas mãos de famílias que passam os títulos de farmacêuticos de pais para filhos, de geração em geração. Trata-se de um negócio em que é virtualmente impossível entrar, se não se pertencer a uma das “famílias” que já estão no ramo e que quando, por algum acidente de percurso, muda de mãos, por mais aparentemente insignificante que a farmácia em causa pareça, o trespasse atinge valores absolutamente milionários. Por uma qualquer tentação populista, somada ao interesse que a sua associação e (ao que parece) ele próprio têm na distribuição e fabrico de medicamentos genéricos, resolveu iniciar uma cruzada contra as receitas “blindadas” em que os médicos não permitem a troca de medicamentos de marca, por genéricos, informando que as farmácias passarão a fazer a troca, mesmo contra a vontade dos médicos. Joga com a miséria das pensões de reforma de milhares de doentes, que assim veriam bastante reduzidas as suas despesas mensais. Joga ainda com o facto de o Estado poder poupar ainda muito mais dos que os doentes, nas comparticipações.
O terceiro, continuo a não saber quem é, nem o que está a fazer aqui.
O segundo, ataca as farmácias e nem quer ouvir falar na possível deterioração da bela relação que existe entre uma boa parte dos médicos, os medicamentos de marca, as férias e congressos em ilhas exóticas... com tudo pago pelos laboratórios farmacêuticos.
A primeira, a ministra, quanto mais não seja para nos mostrar o real poder que tem a indústria farmacêutica e quem é que manda, realmente, no negócio da saúde, veio imediatamente pôr-se ao lado da Ordem dos Médicos, ameaçando não pagar as comparticipações do Estado às farmácias, mesmo sabendo que o Estado pouparia milhões de Euros que poderia investir em melhores serviços de saúde e, sobretudo, que a troca dos caros medicamentos por genéricos a metade do preço, se devidamente acompanhada, não implica nenhuma espécie de risco para os doentes.
No meio disto tudo, o terceiro, que não sei para que serve, mas alguma coisa deve fazer, já que os outros lhe chamam “chefe”... não diz nada.
Entretanto, os muitos milhares de doentes, na esmagadora maioria idosos pensionistas com doenças crónicas e portanto, dependentes das medicações, já poucos ou nenhuns impostos pagam, já poucos votos rendem, já pouca voz têm para gritar a sua indignação. Para o poder, aqui representado por estes trastes, é como se já tivessem morrido.

