segunda-feira, 8 de março de 2010

«A mulher é o futuro do homem»



Numa data como esta, seria fácil cair num discurso lamecha, paternalista ou demagógico. Para tentar evitá-lo, fico-me pela frase do título, da autoria do grande escritor/poeta e comunista francês Louis Aragon e por duas canções.

A primeira, a nossa conhecida “Maria, Maria”, de Fernando Brant e Milton Nascimento, cantada pela Elis Regina, num vídeo todo construído com desenhos infantis.

Maria, Maria
(Fernando Brant/Milton Nascimento)

Maria, Maria, é um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece viver e amar
Como outra qualquer do planeta
Maria, maria, é o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que ri quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta

Mas é preciso ter força, é preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria, mistura a dor e a alegria
Mas é preciso ter manha, é preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania de ter fé na vida


A segunda é cantada pela grande “Mama África”, Miriam Makeba, numa gravação de 1966, feita em Estocolmo, numa das inúmeras viagens em que esta extraordinária mulher, artista e combatente levou a todo mundo a luta das mulheres, das crianças, dos homens do seu país, de todos os seres humanos. Na ocasião, apresentou a canção com estas palavras:

Khawuleza é uma canção sul africana. Uma canção que vem dos bairros, reservas (o que quer que seja) dos arredores das cidades da África do Sul, onde todos os negros da África do Sul vivem. As crianças gritam nas ruas, sempre que vêem carros da polícia chegando às suas casas para fazerem rusgas por este ou aquele motivo. Gritam «Khawuleza mamã!», o quer dizer simplesmente «Depressa, mamã! Por favor, não os deixes apanhar-te!»

Para todas e todos, um bom 8 de Março!


“Maria, Maria” – Elis Regina
(Fernando Brant/Milton Nascimento)



“Khawuleza” – Miriam Makeba
(Miriam Makeba)


domingo, 7 de março de 2010

Já nem têm medo... já nem disfarçam!



Este era, pelo menos à hora em que a vi, o aspecto de parte da primeira página do DN online de hoje. Com estas duas belas notícias lado a lado.

Presumo que a notícia da direita, que nos dá conta do “prémio” de 244 mil euros pago a José Penedos, mesmo não sendo já presidente da REN e estando sob fortes suspeitas de ter participado “numas coisas”, é uma maneira de confortar e dar ânimo aos funcionários públicos, que na notícia da esquerda são informados da intenção do Governo em manter congelados os seus vencimentos... também em 2011.

Já dizerem, como se pode ler na notícia, que os "aumentos" na Função Pública ficarão a zeros, depois de informarem no mesmo texto que vão diminuir as deduções com despesas de saúde, educação, etc... e mesmo assim afirmarem que não há cortes nos vencimentos... é apenas mais uma típica mentira deste governo e mais um insulto à inteligência dos portugueses.

Este bando confia mesmo que o povo não passará de uns protestos, de uma greve aqui ou ali... e que no fundo, se vão safar. Quando tiverem que passar o poder aos outros predadores, do PPD-PSD, já terão uns, os bolsos bem cheios e todos, o futuro garantido em grandes “empregos”.

Como seria bom que estivessem estrondosamente enganados!

E para quando o extermínio puro e simples?



Salvo em casos extremos, não considero que com o mal dos outros se “ganhe” seja o que for. De qualquer modo, as desgraças alheias podem sempre servir para colocarmos na devida perspectiva as nossas próprias “desgraças nacionais”. Vem isto a propósito de uma estória infecta, vinda dos EUA.

Andre Bauer, um dos muitos fascistas disfarçados de Republicanos, mas com a particularidade de ser Vice-Governador do Estado da Carolina do Sul e estar mesmo a preparar-se para concorrer para Governador, veio há dias, provocando um merecido escândalo, mostrar-se digno de ser um dos dirigentes dos muitos milhões de estadunidenses que recusam a ideia de participar com um dólar que seja dos seus impostos, para apoiar um sistema público de saúde, pensado para os vários milhões de cidadãos que não têm dinheiro para pagar seguros de saúde privados e muito menos os tratamentos de que necessitam. Para captar a atenção destes americanos, educados e formatados para o egoísmo, individualismo e insensibilidade social mais ferozes, decidiu ser ainda mais “ousado”.

Para criticar as célebres “dependências do estado”, verdadeiros cavalos de batalha destes neoliberais-fascistas, no caso, várias políticas das escolas públicas, em que se inclui o fornecimento de refeições gratuitas a crianças necessitadas, oriundas dos sectores da sociedade mais injustiçados (não gosto do termo “desfavorecidos”), o brilhante Andre Bauer comparou essas refeições gratuitas a “alimentar animais vadios”.

Como deve ter achado que a simples comparação não era ainda suficientemente pornográfica, não hesitou em explicar porque é que alimentar aqueles miúdos era mau, recorrendo para isso a um antigo “ensinamento” da sua avó: «Se alimentarmos os animais vadios, eles não só nunca mais nos largam a porta... como se reproduzem!»

Portanto, como vemos já a acontecer em tantos lugares do mundo, uma maneira eficaz de acabar com a pobreza e, principalmente, com os pobres, é matá-los à fome. Só nunca tinha visto o conceito defendido publicamente por um Vice quase Governador dos Estados Unidos da América, essa grande e admirada pátria disto e daquilo...

Abjecto!

sábado, 6 de março de 2010

Viva a “solidariedade”!



Por vezes, algumas mentes inquietas, devem perguntar-se o que estará efectivamente por detrás das enormes campanhas de “solidariedade” para com as vítimas de catástrofes, ou mesmo das “ajudas” a países em dificuldades, por parte dos multimilionários que são donos dos chamados países ricos. Não será preciso um grande esforço para perceber que, como em tudo nas suas vidas, também aqui o que os move é a perspectiva de lucro.

Muitas vezes dão-se ao grande trabalho de mascarar estas “operações” como se fossem verdadeira solidariedade, quanto mais não seja para comover as populações, que acabam por entrar com grande parte do dinheiro. Outras vezes, são absolutamente “transparentes”, como neste caso da Grécia:

Políticos de direita, da coligação da chanceler Angela Merkel, não só defendem que a União Europeia não deve ajudar a Grécia, como dizem mesmo que estes deviam vender parte das ilhas gregas... e ainda monumentos históricos, obras de arte, etc., etc...

Estão a ver o cenário? Os amigos destes políticos, e eles próprios, por tabela, donos de futuros novos paraísos mediterrânicos para turismo de luxo e belas estâncias para reformados alemães e outros? Eles mesmo, de vez em quando, a irem até lá, vigiar os seus investimentos e “bater” umas cervejas?

Pelo andar da carruagem, quando é que começaremos a ter ofertas de compra para o que resta de interessante no Algarve?

Que gente é esta?



Segundo um estudo, a maioria dos portugueses está convencida de que o Primeiro Ministro mentiu no Parlamento, quando disse desconhecer o negócio da TVI. Desses, a maior parte diz mesmo que essa mentira é injustificável.

Curiosamente, esta convicção não tem como resultado um corte radical com José Sócrates. Antes pelo contrário, se as eleições fossem hoje, o PS reforçaria a sua votação. O que levará o eleitorado a reagir desta forma? Ignorância pura? A ausência de alternativas credíveis?

Talvez esta segunda referência a um outro estudo ajude a entender o fenómeno. Aqui, chegou-se à conclusão de que 63 por cento dos portugueses são muito tolerantes para com a corrupção, «desde que produza efeitos benéficos para a população em geral», o que, traduzido da língua do “chico-espertismo” para a língua de Camões, quer dizer «desde que eu ganhe algum com isso», ou resumindo ainda mais, «eu quero é o meu!»

Isto mostra a natureza e dificuldade do trabalho que tem pela frente todo aquele que decidir enfrentar esta cultura dos interesses e do dinheiro, por troca com o sonho e a esperança activa de construção de uma outra sociedade. Uma sociedade onde a mentira nunca dê lucro, onde a corrupção nunca compense. Ou, como canta o espanhol Joaquin Sabina na sua "Noche de bodas":

«Que ser valiente no salga tan caro
que ser cobarde no valga la pena»

sexta-feira, 5 de março de 2010

Títeres, robertos, marionetas, fantoches, bonifrates, bufões... e outros bonecos de engonços



Mais de trinta anos de governos apostados fundamentalmente em destruir o essencial de tudo aquilo que se conquistou em Abril de 74, deram-nos a conhecer muitas dezenas de ministros. Salvo honrosas excepções, que se podem contar pelos dedos das mãos do célebre general francês Louis Henri Loison, os tais ministros têm-se dividido em dois grandes grupos, para utilizar a feliz definição de um “autor” desconhecido: aqueles que são totalmente incapazes... e aqueles que são capazes de tudo.

Mesmo sendo gente que atingiu níveis de excelência na arte da falta de vergonha na cara, de quando em vez deparam-se com tarefas que eles próprios consideram desclassificantes, idiotas... ou pura e simplesmente sujas demais. Para essas tarefas, para além de uma ou outra coisa ainda menos importante, fazem-se rodear de hordas de Secretários e Subsecretários de Estado.

A vida desta “subespécie” é um constante teste. É durante esta passagem pelos governos que todos e todas demonstrarão a “sem-vergonhice”, elasticidade da espinha e a cara de pau, que os farão ir longe na vida, quando depois de sair dos Governos da Nação, rumarem aos conselhos de administração de empresas públicas e até de empresas privadas, com as quais fizeram chorudos negócios “políticos” enquanto governantes.

Um dos testes mais famosos e que engloba as três principais qualidades do candidato, a falta de vergonha, elasticidade da espinha e cara de pau, consiste em vir para as televisões, sejam quais forem as evidências que entrarem pelos olhos dentro a toda a gente, dizer, por exemplo, que uma greve com cerca de 80 por cento de adesão teve “realmente” apenas 13.

Se repararmos que o Governo chegou a este extraordinário número de 13 por cento porque, afirma, foi essa a percentagem de serviços que tiveram que fechar, sabendo nós a quantidade desses serviços que foram mantidos “a funcionar” com um funcionário ou dois, como aconteceu em vários locais aqui para as minhas bandas... temos uma imagem, mesmo que apenas aproximada, da desonestidade abjecta desta gente.

Ontem tivemos mais um desses “exercícios para exame”, acrescido do bónus de se considerar a greve «insignificante»... e o número de comédia (como extra) de se dizer que esta greve era «inoportuna», pelo facto de se estar no meio de uma “negociação”, chamando o Governo negociação ao acto de informar os sindicatos de que os vencimentos estão congelados... e calou!

Este secretário de estado, Gonçalo Castilho dos Santos, para além de ter uma forma patusca de falar, uma espécie de imitação de fancaria da pronúncia e entoação de José Sócrates, decididamente, é dos que vai longe! Não pestanejou, não gaguejou e, sobretudo, nunca corou!

O problema é que por vezes, talvez por erro de iluminação, conseguimos ver os fios que fazem movimentar e “falar” estes pobres títeres, firmemente comandados por alguém “lá em cima”... o que estraga sempre a magia própria destes espectáculos de fantoches.

quinta-feira, 4 de março de 2010

40 anos de amor à liberdade


(Libertação de presos políticos de Caxias em 1974 – Fot. Carlos Alberto)

Em finais de 1964, um grupo de democratas fundou a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos. 40 anos depois, alguns desses fundadores tomaram a iniciativa de criar e divulgar uma petição à Assembleia da República, em que depois de um breve historial da Comissão, se pode ler no final:

«Na passagem dos 40 anos sobre a data da sua constituição impõe-se o reconhecimento público e oficial do Estado democrático, pela Assembleia da República, da relevante intervenção cívica que protagonizou, na defesa de todos aqueles que pagaram com a sua própria liberdade a insubmissão aos ditames arbitrários do regime fascista a que a Revolução de Abril de 1974 pôs termo.»

Sendo a minha presença na lista dos 150 primeiros subscritores desta petição meramente acidental, uma verdadeiramente honra seria poder contar com a vossa companhia neste colectivo, multiplicando por muitos esses cento e cinquenta.

Para assinar a petição basta ir AQUI e seguir os passos que são indicados.