Enquanto decidia o que escrever para este post, um noticiário da SIC-N mostrava-me um slide onde tinham escrito “Drama em Pamplona”. O desenvolvimento da notícia explicava que, pela milionésima vez, bandos de irresponsáveis se tinham feito trucidar por toiros em corrida tresloucada pelas ruas, alguns em fúria... todos os restantes apenas aterrorizados pela selvajaria dos “humanos” que festejam desta forma a memória de um indivíduo que dava pelo nome de Fermin... e que chegou a “santo”.
Pensei com os meus botões: realmente, Pamplona tem um drama... mas não é apenas hoje! É o drama diário de ser habitada e gerida pelo que parece ser uma maioria de débeis mentais que, ano após ano, repetem esta insanidade, por não resistirem à ancestral sede de sangue mascarada de cultura.
Por uma estranha coincidência, pouquíssimo tempo antes tinha assistido a alguns escassos minutos da estreia de um “imponente” programa da SIC, dedicado ao mesmo universo: o da a relação amorosa de alguns cromos com os cornos dos toiros.
Vivemos num tempo (que dura há anos) em que qualquer uma das televisões não consegue encontrar justificação para pagar o que quer que seja aos artistas (sobretudo cantores) que convida para abrilhantar os seus programas, programas em que apenas os apresentadores têm o estatuto – e o ordenado – de grandes vedetas. Os artistas, na expectativa de assim poderem promover os seus espectáculos ao vivo, caem no conto do vigário.
Ao mesmo tempo, no entanto, assistimos a estas mega-produções, com custos de montagem ostensivamente milionários, como é este “Olé”, que promete pôr "famosos" a pegar toiros no luxo climatizado do novo Campo Pequeno. Para compor o ramalhete, junta-se sempre o mesmo grupo de indigentes, que andam de concurso em concurso, fazendo de bobos a troco de dez reis de mel coado, bobos que tanto podem ser escritoras “light”, como “lilis-caneças”, como ex-concorrentes do “bigbrother”. Veste-se a Bárbara Guimarães mais ou menos de espanhola... e já está!
Nunca, é uma palavra demasiado forte... e neste tempo de coisas “irrevogáveis” deve usar-se como os ouriços cacheiro fazem amor: com muita cautela. Por isso mesmo, digo apenas que se é extremamente difícil alguém conseguir ver-me a participar de uma daquelas manifestações pró-animais e anti-touradas... é ainda mais difícil conseguir ver-me a assistir a uma dessas touradas.
Costumo dizer que bastará esperar, sem grandes hostilidades nem discursos inflamados de parte a parte, que o tempo e a evolução se encarreguem de varrer dos (poucos) palcos em que ainda persiste, o espectáculo “artístico” da tourada... como já antes varreu os não menos “artísticos” espectáculos das lutas de gladiadores, etc., etc.
Enquanto eu me perguntava se, numa altura destas, mesmo que apenas como entretenimento, era mesmo de um espectáculo de televisão assim que o país precisava... a minha mais recente namorada (pronto... a coisa dura há já 30 anos, mas nem por isso deixa de ser a mais recente) leu-me o pensamento e, vendo as cores berrantes, as maquilhagens exageradas, o luxo bacoco, a entrada esvoaçante do Castelo Branco... comparou aquilo ao fim do Império Romano.
Como acrescentar mais seja o que for? É aquilo! O país a agonizar, as suas instituições e as estruturas do poder a apodrecerem, lenta e irremediavelmente... por debaixo do brilho falso e decadente dos espectáculos de arena.