sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Cristas – Será um pássaro? Será um avião...


A meio da bica fui surpreendido por mais um voo de Assunção Cristas, a super-ministra da Agricultura, do Mar, do Ambiente, do Ordenamento do Território, do Sol na Eira e da Chuva no Nabal, do Pássaro na Mão e Dois a Voar...
Lá estava, escarrapachado numa notícia do alentejano “Registo” sobre a interminável Barragem do Alqueva: «Cristas promete “task-force” para promover regadio».
Lá dentro do texto vem tudo explicado. Para além de se repetir a ideia da “task-force”, nome que fica sempre muito bem, explica-se que os agricultores terão que se habituar à água, terão apoios disto e daquilo, que a coisa levará tempo... ai, a curva de aprendizagem, ai, as contas públicas... "ai a fase do leite, ai a crise do gado" (desculpa Ary!)...
Atendendo aos milhares de promessas que já foram assentadas no "Grande Livro do Alqueva", com registos que vêm desde os idos de D. Sancho I, "o povoador", passando por D. João I, "o de boa memória", até chegar a D. Sócrates, "o de má memória", tudo isto somado ao ainda curto mas recheado registo que a jovem ministra já leva de adiamentos, de cortes, de “agora não posso” e de “adiante se verá”... eu, mesmo também gostando muito do termo “task-force”, acho que o ministério da Agricultura se ficará pela criação de uma “fask-torce”.
Uma “faz-que-torce”, sim, mas sem gravatas... por questões de poupança e defesa do ambiente.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A reunião do G20 passo a passo


A minha colega de canções, Carla Bruni, autora e intérprete de algumas cantigas de que gosto, está de parabéns. Para além de, aos 44 anos, ter dado à luz a sua Giulia, filha de Nicolas Sarkozy, o seu marido de 56... “deu” também a Barack Obama aquela que é, até agora, a única ideia de jeito saída da reunião do G20.
Barack Obama, dando os parabéns a Nicolas Sarkozy pelo nascimento da sua filha, acrescentou: «Ainda bem que a menina saiu à mãe!»
Muito bem! Que diacho... o homem não pode errar sempre...
Quanto às verdadeiras razões e possíveis resultados desta reunião de figurões mundiais... adiante se verá, mas temo que não passe de mais do mesmo.

Álvaro Santos pereira... num mundo ideal




Qualquer trafulha, dono de uma fabriqueta de têxteis, onde explore, por exemplo, 150 trabalhadoras produzindo em condições de salubridade dignas do terceiro mundo e ordenados abaixo dos quinhentos euros, sabe o que tem de fazer para comprar o novo Mercedes de 75.000 euros, caso não tenha o dinheiro ali mesmo á mão: não pagar os vencimentos desse mês às operárias, sob uma qualquer desculpa esfarrapada... e depois logo se verá.
Em traços largos é isto a grande “ideia económica” deste governo de trafulhas. Em traços largos é esta a política “económica” do ministério da dita Economia e do Emprego, cuja cara (chamemos-lhe assim...) é Álvaro Santos Pereira. Em traços largos é esta a única ideia verdadeiramente original do traste que presentemente ali faz as vezes de ministro: aumentar os dias de trabalho, aumentar as horas de trabalho por dia... mas sem pagar. De preferência, reduzindo mesmo os salários.
O bandalho bolçou recentemente para uns microfones que lhe esticaram à frente da fronha, um «apelo aos parceiros sociais para que se deixem de "guerrinha" e enveredem pelo diálogo».
Ora, como as várias associações patronais têm, no essencial, aplaudido as propostas do ministro e contribuído até com sugestões do tipo “se um diz mata, o outro diz esfola”, na tentativa de rapidamente, enquanto o vento lhes é favorável, destruírem o edifício de direitos laborais e sociais que custaram muito suor, muita luta e muitas vidas, um edifício que levou gerações a construir... o bandalho só pode estar a dirigir-se aos sindicatos, cujas Centrais, embora com diferentes graus de intensidade e coerência, contestam e combatem a política do governo. Não perdeu a oportunidade para insultar os trabalhadores, ao apelidar as suas mais do que justas lutas de “guerrinha”.
Num mundo ideal, este tipo de calhordas não seria ministro de coisa nenhuma. Num mundo ideal e politicamente escorreito, não existiria tal governo, sendo que um tão grande ajuntamento de bandidos só seria possível de encontrar no seu habitat natural: os pátios das penitenciárias.
Num mundo ideal e politicamente escorreito, não haveria tantos cidadãos alheados daquelas que deveriam ser as suas causas, assim permitindo que esta corja alterne no poder há décadas.
Num mundo ideal... mas (há que dizê-lo) “politicamente incorreto”, o jornalista, certamente ele próprio sindicalizado, teria enfiado o microfone nos dentes do escatológico ministro, enquanto este bolçava as suas “ideias”.
Decididamente, está à vista que não vivemos no mundo ideal...

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Referendo – Uma carga de nervos...


Neste "paraíso" global das multinacionais, já não há, praticamente, decisões económicas que digam respeito a um país, que sejam realmente tomadas nesse país. As multinacionais controlam dois terços de todo o comércio mundial. Um tal poder económico transforma-os nos verdadeiros mandantes das nações, restando aos governos – a quase todos os governos – o papel de lacaios desse poder económico.
Têm o seu exército – os mercados – a sua tropa de choque – as agências de rating – e os seus peões – os milhares e milhares de politólogos, comentadores, analistas, “jornalistas” arregimentados e políticos a soldo.
Têm o seu “super-estado”: uma máquina global de funcionários e organismos que ninguém elegeu, mas que tomam todas as decisões que afetam as vidas de milhões.
O papel dos grandes partidos políticos nacionais da área do poder e, no nosso caso particular, para além desses, as “instituições” europeias, é o de manter o povo dentro da rotina das “liberdades” e de um arremedo puramente ritual de democracia, enquanto é diariamente roubado... dando força à frase que diz: «Não há maior escravo do que aquele que vive na ilusão de ser livre».
Uma decisão como esta do anúncio de um referendo, na Grécia, mesmo podendo não passar de um acto de desespero do governo, leve ela o caminho que levar e tendo em conta que isso significa uma possível tomada de posição, de forma direta, pelo povo, num referendo que, dada a situação que se vive naquele país, deverá ser muito participado e vivido de uma forma apaixonada... aterroriza esta corja.
Desde há horas que andam como doidos, oscilando entre as ameaças e o já habitual arrancar desesperado de cabelos.
Até à hora a que escrevo, já atendi duas vezes o telefone ao Sarkozy. Lá tive que lhe dizer, no meu melhor francês, que non et non, monsieur... não sou a senhora Merkel, pardon... mas também não sou o Papandreou... nem o Berlusconi, ni la puta madre!!!... Au revoir... adeusinho!!!
...tal é a carga de nervos com que o homem anda a digitar os números “ao calhas” no telemóvel!

Governantes de luxo


Nos últimos dias, a tinta que tem corrido a propósito do tema das pensões de ex-deputados, acabou por não deixar brilhar devidamente as notícias sobre as fantásticas evoluções nos vencimentos de ex-governantes, essas sim, dignas de um lugar de destaque.
Aí podemos ver que governantes como Armando Vara, Dias Loureiro, Fernando Gomes, Jorge Coelho, Pina Moura, Ferreira do Amaral, para só falar nos mais conhecidos, tudo gente que tinha rendimentos “modestos”, na ordem dos 40, 50, ou 70 mil euros anuais, depois de passarem pelo governo de Portugal, ascenderam a ganhos que, nalguns casos, atingem os 600, 700, ou mesmo 800 mil euros.
Alguns deles foram “trabalhar” para empresas que tutelaram enquanto ministros, sendo o caso de maior e mais rápido “sucesso” o de Ferreira do Amaral, que depois de negociar com a Lusoponte a construção da Vasco da Gama, no papel de ministro, foi, pouco tempo depois, sentar-se na administração da mesmíssima Lusoponte.
As pessoas reagem cada qual à sua maneira, cada qual com o seu particular nível de asco. Já eu, gosto de ver as coisas pelo seu “lado positivo”:
Temos tido alguns dos melhores governantes que o dinheiro pode comprar!
Não me levem a mal o segundo sentido que esta frase pode ter... mas a culpa é da língua portuguesa, que é muito traiçoeira...

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Contra a corrente



Admito que devo ser um gajo com um feitio muito estranho. Isso revela-se em muitas pequenas coisas... mas uma das formas de “erupção” mais incómodas ataca-me em resultado de estórias como esta, a da “Luta para salvar a pequena Safira”.
Como qualquer pessoa “normal”, no começo também eu sou sensível a estas estórias e dramas humanos. Depois, à medida que vejo que (mais uma vez) essa estória se instala de manhã, à tarde e à noite nos telejornais, “especiais” televisivos, revistas e jornais, a minha inicial empatia vai-se esfumando, até que já só consigo pensar nos milhares e milhares de crianças cujas famílias não podem sequer sonhar com “escolhas”... quanto mais com este tipo de tempo de antena.
Ainda bem que a Safira parece estar livre de perigo! Ainda bem que a Safira, que deve o nome a uma “mensagem” que seres da floresta enviaram, em sonhos, à sua mãe psicóloga, não perdeu a vida com a recusa de tratamento decidida pelos pais...  mas, e desculpem este nadar contra a corrente da simpatia geral, estou farto!
Estou farto das “Maddies” que escondem milhares de crianças negligenciadas.
Estou farto das estórias da “socialite” ou jovem "atriz" de novela que leva um par de estalos... e durante meses serve para esconder os milhares de mulheres (e homens) vítimas de violência continuada.
Estou farto destas campanhas gigantescas, apontadas a casos especiais de pessoas que, ou por terem conhecimentos privilegiados, ou capacidade financeira, ou pura sorte, têm direito a uma cobertura mediática tal... que soterra a indiferença e desprezo com que milhões de seres humanos sem “visibilidade” são tratados todos os dias.
Estou farto destas “oportunidades” para lançar na sociedade as maravilhosas discussões e debates sobre a “livre escolha” e as “questões médicas e jurídicas” suscitadas por estes casos particulares, enquanto se foge como o diabo da cruz de discutir as questões sociais e políticas que afetam todos os outros.
Estou farto destes “critérios jornalísticos” de merda!

Trabalho - Atraso civilizacional e social de séculos


O governo não deve ter noção da «gravidade destas medidas», diz o economista João Ferreira do Amaral, a propósito do aumento de horas de trabalho sem remuneração, pois «há séculos que não existia trabalho obrigatório e não remunerado».
Achar que o governo não tem “noção” do que está afazer é, evidentemente, um acto de “boa vontade” do economista. Na verdade, o governo Passos/Portas não só tem toda a noção, como vai numa escalada de desvergonha nos seus ataques aos mais elementares direitos de quem trabalha... ou já trabalhou.
O governo abriu a porta ao aumento de meia hora de trabalho por dia... e o patronato fez de conta que não gostava muito da ideia... por ser pouco.
O governo abriu ainda um pouco mais a porta, acenando com a criação de um “banco de horas” que poderão ser acumuladas, sendo o trabalhador obrigado a aceitar trabalhar quando o patrão quiser... e o patronato já não esconde a satisfação.
O governo escancara as portas para a possibilidade de os trabalhadores virem a ter as férias reduzidas, feriados cortados e terem que cumprir o tal “banco de horas” aos sábados, sem que os patrões sejam, sequer, obrigados a comunicar a sua decisão a quem quer que seja e os cabrões, perdão... patrões, já dão saltos de contentes.
Cinicamente, o governo promete incentivos em dinheiro aos patrões que criem novos postos de trabalho. Quem é que quer criar postos de trabalho, se pode dispor dos trabalhadores que já tem, para trabalharem sempre que o patrão quiser... e sem ter que lhes pagar um cêntimo?
Para quando começar a pagar, não em dinheiro, mas em senhas com que os trabalhadores possam fazer compras apenas em lojas dos patrões para quem já trabalham?
Para quando, acabar de vez com essa maçada dos ordenados, arranjar umas barraquitas para os trabalhadores viverem junto às empresas, onde passarão a trabalhar apenas a troco de comida suficiente para sobreviverem... se forem saudáveis?
Para quando a coragem de acabarem com a mania de dar nomes esquisitos e complicados às empresas... passando a chamar-lhes apenas roças?
Salazar não teve a coragem de obrigar os portugueses a trabalhar sem remuneração. Felizmente, estes bandalhos não vão estar tanto tempo no poder!