O “Festival Cantar Abril”, organizado pela Câmara Municipal de Almada, vai na sua quarta edição. Realiza-se de dois em dois anos e arrisca-se, passados estes seis anos desde o dia zero, a tornar-se uma tradição. Isto, se aceitarmos como boa a definição de tradição que, segundo alguns, não passa de algo que já foi uma experiência... que deu certo.
O Festival Cantar Abril deu certo! Em todas as edições trouxe-nos algo de muito bom e, o que não se vê todos os dias, em quantidade muito apreciável. Nunca, até hoje, aconteceu ficar o júri perante a possibilidade de não atribuir algum dos prémios, por falta de candidatos à altura. Bem antes pelo contrário!
Este ano a história repetiu-se. Repetiram-se também alguns concorrentes, o que é bom sinal: gostaram da experiência. Houve coisas de grande nível. Coisas que seriam sempre de grande nível, fosse qual fosse a sala ou situação em que se mostrassem.
Hoje partilho convosco o “Prémio Ary dos Santos” (prémio melhor letra) deste ano, um prémio atribuído a uma das letras dos trabalhos inéditos em concurso. Apenas às palavras... embora estas viessem "acompanhadas" de uma música divertida, competente, interpretada com a qualidade a que o Miguel Calhaz nos habituou.
Atendendo a que não se trata de um prémio literário, mas sim de um concurso de canções, ainda por cima canções que se pretendem de intervenção – como são todas as canções e toda a arte, mas neste caso viradas para o espírito de Abril e da liberdade – resolvemos atribuir o prémio da melhor letra a uma canção “mal comportada”, cheia de suculentos trocadilhos com nomes de “famosos” e alfinetadas às suas obras “valorosas” contra o povo português. Poderão ler a dita cuja aqui, na íntegra.
Tratasse-se de uns quaisquer jogos florais de bairro, desses destinados a quadras certinhas, bonitinhas, bem comportadinhas e com os tiques “literários” todos no sítio... e nem apurada teria sido para participar no festival.
Aliás, parecia ser essa, violentamente, a opinião de um poeta regional que vive na ilusão de conhecer suficientemente o Ary dos Santos, pelo menos o suficiente para achar que ele estaria a «dar voltas na sepultura» por ver uma «aberração destas ser premiada»... e ainda por cima com um “Prémio Ary dos Santos”... afirmando mesmo, chispando, que, fosse ele membro do júri e esta «aberração» só teria um prémio... «por cima do seu cadáver».
Imagino que ainda tenha dito mais coisas... mas confesso que o deixei a falar sozinho em pleno “foyer”.
Quanto mais me lembro do “ódio literário” com que o poeta regional me fustigou naquela noite... mais gosto desta canção do Miguel Calhaz (sim, ele já antes venceu o Festival com uma canção original). Adiante, pois esta estorieta de “foyer” não foi (nunca seria!) suficiente para me estragar a bela noite de canções que foi aquele fim de dia 30 de Abril.
Vivam os artistas que andam de olhos abertos! Vivam os jovens que querem juntar-se a estes artistas, viva a canção de intervenção!
“Era uma vez um país” – Miguel Calhaz