domingo, 13 de junho de 2010

Danny Boy – Prazer vezes cinco...



Hoje, para além do já quase habitual post sobre uma música bonita, uma canção importante, uma interpretação notável, decidi fazer também um texto contra as ideias pré-concebidas. Já todos nos confrontámos com alguém que sobre tudo e mais alguma coisa e o que hoje interessa, uma música, tem a certeza absoluta e inegociável de como ela deve ser tocada, cantada, orquestrada... no limite, até como devem estar vestidos os intérpretes. Este post é, portanto, contra isso.

Peguemos numa canção pouco conhecida em Portugal, para estarmos de espírito mais aberto para a experiência. Uma canção extremamente bonita, que embora não sendo totalmente irlandesa, foi escrita sobre um trecho da sua música tradicional, “Londonderry Air”, uma espécie de hino da Irlanda presente no país e na diáspora, sendo que (quase) nenhum irlandês se faz rogado para verter uma lágrima sempre que a canta ou ouve cantar. Chama-se “Danny Boy” e deve ter milhares de versões, interpretações e gravações diferentes.

Não dêem por perdido o tempo que levarão a “ouver” cinco vezes a mesma canção. A ideia da “experiência” é mesmo essa.

Em primeiro lugar, a versão das “Celtic Woman”, na pureza do original, na irrepreensível beleza das vozes, no ambiente “celta”...

Em segundo, a versão de um miúdo de oito anos, Declan Galbraith, que obviamente, não tem a menor ideia daquilo que o faz a cantar assim.

No terceiro, a arte de um senhor da história da música popular, Eric Clapton, que depois de dizer que, para melhor respeitar uma melodia que acha quase sagrada decidiu fazer uma versão muito “simples” e o mais pura possível, presenteia-nos com a simplicidade da lapidação de diamantes... ou de uma renda...

Em quarto, um momento fantástico de criação, por um dos melhores pianistas de jazz de uma geração que produziu vários pianistas de jazz inexplicáveis, Keith Jarrett.

Finalmente, em quinto e porque hoje estou nos meus dias, a versão que é de longe a minha preferida. O génio em estado puro, a interpretação definitiva... dos “Lepricon Brothers”.

Bom domingo!

“Danny Boy” – Celtic Woman
(Frederick Weatherly/Traditional)



“Danny Boy” – Declan Galbraith
(Frederick Weatherly/Traditional)



“Danny Boy” – Eric Clapton
(Frederick Weatherly/Traditional)



“Danny Boy” – Keith Jarrett
(Frederick Weatherly/Traditional)



“Danny Boy” – Lepricon Brothers (The Muppet Show)
(Frederick Weatherly/Traditional)

sábado, 12 de junho de 2010

Campeonato do Mundo de Futebol – Cala a boca, Galvão!



Aí está a sessão de hipnose global com que o sistema nos brinda mais uma vez , como muito bem ilustra este cartoon do artista catalão Jaume Capdevila, KAP, surripiada ao António Vilarigues . Os adeptos e apreciadores de futebol terão a oportunidade de, aqui e ali, irem assistindo a alguns momentos de arte e génio, infelizmente inquinados pela consciência daquilo que realmente está por detrás destas gigantescas organizações, os interesses que se movem, as “esperanças de tranquilidade” que alguns políticos sempre depositam nelas.

Outra realidade que teima em inquinar qualquer possível momento de arte e génio é o facto de irmos conhecendo o número inquietante de “comentadores desportivos” que têm cérebros ainda mais vazios do que as bolas de futebol. É o triste caso de um tal Galvão Bueno, comentador brasileiro de sucesso, um daqueles “especialistas” que se sente perfeitamente à vontade seja em que desporto for... e muito conhecido por praticamente só abrir a boca para dizer asneiras.

Neste Mundial da África do Sul, terra de muito sangue, suor e lágrimas, terra da mais tremenda história de discriminação racial, felizmente, também, a terra de Nelson Mandela e daqueles que com ele lutaram por um futuro diferente... o tal Galvão Bueno, num apontamento de grande cultura e respeito por todo um povo, resolveu declarar, referindo-se à abertura do Campenato, que «aquele era o dia mais importante da História da África do Sul».

Volta Gabriel Alves... estás perdoado!

PT/TVI – Manda dizer o senhor engenheiro...



Segundo “A Bola”, Almeida Santos diz que «relatório da Comissão de Inquérito é político». Segundo a Renascença, «o primeiro ministro sabia quando disse que não sabia». Segundo a “RTP”, «Sócrates “conhecia” a intenção da PT em comprar a TVI». Segundo o “JN”, João Semedo diz que «não foi possível provar que o primeiro ministro mentiu»... mas mesmo assim, segundo o “SOL”, «relatório conclui que Sócrates mentiu ao Parlamento»… o que leva o mesmo Sócrates, segundo a Renascença, a criticar duramente o relatório, garantindo que «a única conclusão que se pode tirar é que disse exactamente a verdade no parlamento».

Confuso? Talvez. Na verdade esta estória está no ponto de saturação e cheira mal. Já cheira muito mal! Cheira mesmo tão mal, que acabei por deixar que o pensamento me levasse para a galhofa, esse caminho pecaminoso onde raramente ponho os pés, como se sabe, e mesmo assim sempre com grande constrangimento… como se adivinha… e lembrei-me de uma célebre piada atribuída ao Bocage, envolvendo... “vento”.

Francamente, nesta altura da farsa PT/TVI/Sócrates, porque é que não arranjam um “boy” suficientemente descarado para ir ao Parlamento parafrasear o grande poeta sadino, declarando solenemente:

- Senhor Presidente, senhoras e senhores deputados, senhoras e senhores jornalistas. Manda dizer o senhor engenheiro, que o “vento” que ele deu… não foi ele, fui eu!

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Vá lá! Agora todos juntos... patrões, empregados, desempregados...



Quem se coloca a si próprio na pouco invejável situação de ouvir, mesmo que com bastantes “intervalos”, os discursos cometidos em cerimónias como esta do 10 de Junho... depois não se pode queixar. É exactamente por isso que não me queixo. São rigorosamente aquilo que se espera. Discursos soporíferos, redondos, pretensiosos, “patrioteiros”, manhosos.

Do sociólogo Barreto, o tal que diz orgulhar-se acima de tudo de ter contribuído para a destruição da Reforma Agrária, poderei dizer simplesmente que não foi com o discurso de ontem que arranjou novo motivo de orgulho. Aquilo foi uma coisa penosa! Para explicar uma coisa simples, mas que ele deve ter muito mal resolvida no cérebro já um pouco despenteado, a ideia de que os soldados que cumpriram o seu serviço militar na guerra colonial não ficaram por isso equiparados aos colonialistas nem aos “pides”, nem ao regime que os enviou para a guerra, não sendo portanto legítimo (salvo excepções) que sejam olhados de lado... para explicar esta coisa tão simples, como dizia, andou para ali às voltas, repetindo as mesmas frases vezes sem conta, enrodilhado em justificações e comparações inúteis. Poderia, sei lá... ter-se lembrado de que os “velhos militares de Abril” foram todos (ou quase todos) “velhos combatentes” na Guerra Colonial...

Quanto à estrela da companhia, Aníbal Cavaco Silva, mesmo sem talento para ler em voz alta nem um menu de restaurante, nem lhe sendo conhecidos grandes rasgos de coragem, mesmo retórica, era de esperar que o seu apurado oportunismo o impelisse a abrir oficialmente, ali, a sua campanha eleitoral.

Enquanto a coisa se ficasse pela “patrioteirada” inconsequente, genérica e apologética dos oitocentos anos de História, do dar mundos ao mundo, do levar a Europa a todo o globo, etc., ou então, num registo mais imediatista, defender a «equidade nos sacrifícios» e a «transparente explicação dos mesmos»... ainda se suportaria, mesmo que cabeceando; mas quando se passa para o tal discurso manhoso em que, a pretexto de uma alegada unidade nacional para vencer a crise tenta vender-se a ideia de que as (tantas vezes) profundas diferenças na luta política, não passam afinal de «querelas partidárias», ou de «quezílias ideológicas», de que é possível e aceitável promover a união de trabalhadores e patrões («pedir às vítimas para ajudar os carrascos», como horas mais tarde diria certeiramente Jerónimo de Sousa), aí o caso muda de figura.

Primeiro, pelo perigo que representa o enorme número de portugueses que, na falta de melhor conhecimento, ainda acha que assim é que devia ser... “deviam era juntar-se todos!”...

Segundo, porque este tipo de discurso, profundamente ideológico, ao contrário do que quer parecer, um discurso em que se quer substituir uma sociedade dinâmica, pensante, dialogante, comprometida, por uma espécie de “lamaçal” em que todos estariam com todos... é o paraíso dos oportunistas, aproveitadores e, no limite, dos “homens providenciais”, aqueles que põe “ordem nas coisas”.

Felizmente, mesmo quando parece que não há outros caminhos... há! E há gente para os fazer, caminhando!

quinta-feira, 10 de junho de 2010

10 de Junho – “Que eu nunca vi pátria assim, pequena e com tantos peitos” *



Aí estão elas, as condecorações! Vou (mais logo) fazer um esforço para entender o disseram suas excelências, no decorrer das cerimónias. A austeridade e a crise, ao que parece, chegaram também às comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades... com o corte do cachet aos artistas. Depois do rio de milhões que tem saído e vai continuar a sair do país, nos bolsos das centenas de artistas estrangeiros que enchem a verdadeira revoada de “Festivais” disto e daquilo, tem no mínimo graça este corte no cachet dos artistas do 10 de Junho... mas adiante! Não é com isso que eu estou abespinhado hoje.

A verdade é que, por mais telefonemas e empenhos que tenha tentado, não consegui convencer a “comissão das condecorações” a agraciar colectivamente o Governo de José Sócrates com esta bela medalha, que tanto trabalhinho me deu a “inventar”:

A “Grã-Cruz da Ordem de Marcha”

* Como diz a cantiga do Tê e do Rui Veloso “A valsinha das medalhas”

O aumento do PIB... e uma questão de siglas


(Velha ambulância do "U. S. Naval Hospital", instituição a que peço desculpa pelas ligeiras alterações que fiz ao seu respeitável veículo)

O nosso Produto Interno Bruto teve um tímido estertor no sentido da subida, como quem se estica por um segundo e ergue o nariz uns milímetros acima da linha de água... para respirar. Diz o INE que a coisa se deu no primeiro trimestre deste ano. Houve uns portugueses que compraram mais meia dúzia de automóveis e uma exportações que (felizmente!) aumentaram...

Sócrates entrou num estado de êxtase pré-orgásmico! Quer fazer-nos acreditar que agora, já no terceiro trimestre do ano, alguns dos fenómenos irrepetíveis que provocaram a pequena (mas positiva) subida ainda farão efeito. Espera que não vejamos – uma coisa que já toda a gente percebeu e previu – que as tremendas medidas de austeridade que estão a ser impostas aos trabalhadores, às famílias, aos consumidores em geral e às pequenas e médias empresas, o aumento generalizado de impostos e o crescente desemprego, etc., etc., não só anularão essa tímida subida do PIB, como a empurrarão para baixo.

Não quero, nunca é demais repeti-lo, meter a foice em seara alheia para fazer o que não sei, pondo-me para aqui a interpretar números, descodificar indicadores, fazer previsões. Não quero, isso ainda menos, fazer humor com a nossa desgraça colectiva (bem... isso quero... só um pouquinho...); mas a continuar este desastre a prestações, este acidente em cadeia, este choque e encarceramento das vítimas, o sangrar constante... não seria altura de estas “novidades” económicas que nos são dadas pelo INE passarem antes a ser dadas pelo INEM?

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Pedofilia e campanhas científicas



O senhor Saraiva Martins, cardeal de profissão, personagem patusco que já vimos um dia aqui no “Cantigueiro” vestido de abat-jour, achou por bem dizer o óbvio sobre os pedófilos, os seus crimes, e o que lhes deve acontecer na estrutura da Igreja quando provados esses crimes. Pecados hediondos, como lhes chama.

Optimista, acha que esta vergonha internacional foi uma “graça de Deus”, pois vai reforçar a unidade da Igreja, depois de abanada a árvore, caídos os frutos podres... e tal... e coisa.

Só que não se aguentou sem voltar à lamúria de que todo este escândalo no seio da Igreja ficou a dever-se a alguns casos, sim... mas não tantos como se quer fazer crer e que a «chamada crise da pedofilia se consubstanciou numa campanha cientificamente organizada e muito bem programada, visando o Papa e o Ano Sacerdotal, que agora termina».

E pronto. À semelhança de quase todos os acusados de pedofilia que se sentam nos bancos dos réus, lá tentou passar para o papel de vítima, mais uma vez desrespeitando as verdadeiras vítimas espalhadas por todo o mundo onde chega o braço da Igreja Católica.

Ou então tem razão… e, como a imagem da pobre freira que escolhi como ilustração bem demonstra, existem pessoas (eu incluído) que entraram numa verdadeira “espiral” de falta de consideração pela Igreja de Roma, pelas suas figuras, pelos seus símbolos… e claro, pelos seus pedófilos.