Salvo algumas tão honrosas quanto raras excepções, a comunicação social portuguesa (já que a outra não tenho o pretensiosismo de dizer que conheço) padece de uma irresistível e reiterada queda para a parolice.
É a parolice de, mesmo sabendo que não vai poder falar com ninguém, ainda assim enviar jornalistas “em direto” para a porta do palácio disto ou daquilo, da Procuradoria das não sei quantas, do escritório do senhor fulano de tal... onde os ou as jornalista ficam a recitar a mesmíssima notícia que já tinha sido lida no estúdio.
É a parolice de noticiar desastres de viação e outros acontecimentos ainda menores, ocorridos em países que só falariam de Portugal para dar conta do seu “falecimento” nacional.
É a parolice (mais irritante a cada ano que passa) de se “surpreenderem” com as primeiras neves... e ala para a Serra da Estrela cobrir o acontecimento; ficarem estupefactos com a chuva, banzados com o calor (horas de emissão nas praias “atenção aos protetores solares”, às maminhas ao léu e à problemática da “Bola de Berlim”); ficarem de boca aberta com os incêndios (sobretudo aqueles que têm o descaramento de deflagrar fora da pré-determinada “época de incêndios”... e ala para lá, estorvar os bombeiros e procurar afanosamente alguma vítima que chore muito pela sua casa e pelas cinco ovelhas... sem saber que ninguém a ajudará e apenas está a ser sacrificada no altar das audiências televisivas.
O poder está nas mãos de uma geração de políticos formatados por esta mediocridade parola.
Daí que não seja surpreendente vê-los tão surpresos com os “desvios colossais”, os buracos nas contas, as “pesadas heranças”. Daí que não surpreenda a sua surpresa com os pesados "prejuízos" dos transportes públicos, hospitais públicos, ou escolas públicas... tudo coisas que, como qualquer pessoa sabe, dão chorudos lucros em qualquer país do mundo.
Daí que seja natural eu imaginar o seu ar de surpresa, quando perceberem que depois do aumento brutal do IVA em quase tudo aquilo que os portugueses consomem... vão cobrar menos IVA, por não haver consumo. Que depois de estrangularem as micro, pequenas e médias empresas, com aumentos de impostos e o encarecimento de muitos dos meios de produção... vão cobrar menos IRC, porque não há produção, não há lucros, não há comércio. Que depois de fazerem “acertos cirúrgicos” no IRS, a fim de aumentar a colecta, o aumento galopante do desemprego e os cortes dos salários afundá-la-ão.
Daí eu achar que estes governantes, mesmo carregados de cursos vistosos, tomam medidas políticas e económicas que são uma dramática amálgama de canalhice, subserviência ao capital financeiro apátrida, desprezo pelo povo, incompetência e muita, mas mesmo muita e espessa estupidez!
Daí que não deva ser surpresa para ninguém o cada vez maior número de portugueses que lutam para que chegue, definitivamente, “o dia das surpresas”.
* Com um “olá” para o Saramago e o Manuel Freire e, vá lá... para o Beethoven.