domingo, 12 de junho de 2011

Chico Buarque – Cuidado...


Hoje proponho a engenhosa construção de melodias de Francis Hime e a filigrana de palavras de Chico Buarque. Deixar-nos-emos guiar pela voz deste, num passeio pela interminável e fecunda diversidade da Natureza, aqui simbolizada pela fantasia dos nomes do “passaredo” da fauna brasileira.
Deixemo-nos encantar pelos seus cantos únicos e cores inexplicáveis. Fiquemos do lado daqueles que os amam e defendem, contra a antiga ameaça do “homem que vem aí”... e que, num gesto, pode destruir tudo o que é belo e vivo. Cuidado!
Bom domingo!
Passaredo
(Francis Hime/Chico Buarque)

Ei, pintassilgo 

Oi, pintaroxo 

Melro, uirapuru 

Ai, chega-e-vira 

Engole-vento 

Saíra, inhambu 

Foge, asa-branca 

Vai, patativa 

Tordo, tuju, tuim 

Xô, tié-sangue 

Xô, tié-fogo 

Xô, rouxinol, sem-fim 

Some, coleiro 

Anda, trigueiro 

Te esconde, colibri 

Voa, macuco 

Voa, viúva 
Utiariti 

Bico calado 

Toma cuidado 

Que o homem vem aí 

O homem vem aí 

O homem vem aí 



Ei, quero-quero 

Oi, tico-tico 

Anum, pardal, chapim 

Xô, cotovia 

Xô, ave-fria 

Xô pescador-martim 

Some, rolinha 

Anda, andorinha 

Te esconde, bem-te-vi 

Voa, bicudo 

Voa, sanhaço 

Vai, juriti 

Bico calado 

Muito cuidado 

Que o homem vem aí 

O homem vem aí 

O homem vem aí

“Passaredo” – Chico Buarque
(Chico Buarque/Francis Hime)



sábado, 11 de junho de 2011

Uma das hipóteses há de estar certa... mas qual?


Segundo leio, cerca de um terço da bancada parlamentar do PS nesta “nova” fase da luta política e partidária, é composta por ex-ministros e secretários de estado do governo de José Sócrates... o que, sabendo da importância do “chefe” nas escolhas de candidatos, me leva a três possíveis conclusões:
1. Sócrates estava convencido de que iria ganhar as eleições... e queria fazer uma remodelação arrasadora no seu governo.
2. Sócrates estava convencido de que iria ganhar as eleições... e voltaria a chamar a maioria destes seus “ex” para o novo governo, logo, uma grande parte destas candidaturas aos lugares de deputado eram uma aldrabice.
3. Sócrates estava convencido de que iria perder as eleições... e esta foi a melhor forma que encontrou para “garantir” ao seu sucessor uma “profunda renovação” do partido, sem sobressaltos e fortemente “apoiada” pelo Grupo Parlamentar.
...ou então foi apenas para que vários deles não ficassem no desemprego, pelo menos até que passe o tempo suficiente para que possam, sem grande “alarme social”, tomar os seus lugares nos conselhos de administração das muitas empresas com as quais foram trabalhando ao longo da sua governação (e cujos interesses, nalguns casos, serviram com inexcedível lealdade)... como é costume.

Dia de Portugal – Pró ano há mais...



À hora a que escrevo este texto, para que ele depois entre pelo seu próprio pé e automaticamente às 00:01 horas, já percebi qual o género de noite que vou ter: mais uma noite em claro! Resultado de um dia tremendo, anestesiante, nauseante... daqueles em que só se está relativamente bem, de olhos fechados, dormitando, sem ver nem ouvir nada.
O resto foi passado entre alguns encontros imediatos com televisões ligadas... e lá estava sempre mais um pedaço de discurso soporífero "cavacal", apelando hipocritamento para o regresso dos portugueses à terra, terra que ele, mais que ninguém, ajudou a despovoar, mais uma ou outra curiosidade sobre a anestesiante vida privada de Sócrates, mais medalhas... sempre mais medalhas, a “discrição” de Portas e Passos quanto às suas negociações, jornalismo esterilizado... e, claro, a náusea, o asco mesmo, da imagem e do som da voz de António Barreto, invocando o nome de Portugal, das Comunidades e de Camões em vão, clamando que é urgente "adequar" a Constituição a estes novos tempos, pois «é demasiadamente programática, anacrónica e, sobretudo, barroca!»

Certamente a contrastar com o cérebro de Barreto, esse, do mais puro rococó.
Vão valer-me algumas séries de televisão que tenho gravadas... um ou outro DVD... e a certeza de que só haverá outro dia como este, daqui por um ano. Quando amanhecer, já não será “Dia de Portugal”... e a venda a retalho do país continuará a seguir o seu curso... cumprindo à risca o plano arquitectado por todos estes trastes.
E agora, para abrilhantar a sessão...
Valsinha das medalhas
(Carlos Tê e Rui Veloso/Rui Veloso)

Já chegou o dez de Junho, o dia da minha raça

Tocam cornetas na rua, brilham medalhas na praça

Rolam já as merendas, na toalha da parada

Para depois das comendas, e Ordens de Torre e Espada

Na tribuna do galarim, entre veludo e cetim

Toca a banda da marinha, e o povo canta a valsinha



Encosta o teu peito ao meu, sente a comoção e chora

Ergue o olhar para o céu, que a gente não se vai embora

Quem és tu donde vens, conta-nos lá os teus feitos

Que eu nunca vi pátria assim, pequena e com tantos peitos



Já chegou o dez de Junho, há cerimónia na praça

Há colchas nos varandins, é a Guarda d'Honra que passa

Desfilam entre grinaldas, velhos heróis d'alfinete

Trazem debaixo das fraldas, mais Índias de gabinete

Na tribuna do galarim, entre veludo e cetim

Toca a banda da marinha, e o povo canta a valsinha.

Valsinha das medalhas – Rui Veloso
(Carlos Tê e Rui Veloso/Rui Veloso)


sexta-feira, 10 de junho de 2011

Quanto custa um voto?




Para quem não tenha tido a oportunidade de passar os olhos pelo jornal “Económico”, aqui fica o link para uma pequena mas interessante notícia (a estarem certo os números), sobre a relação entre o dinheiro gasto por cada um dos partidos nesta última campanha eleitoral e os votos obtidos... o que revelaria o “preço” de cada voto.
Será apenas mais um “fait-divers”; provavelmente, o facto de a CDU ter a melhor relação despesa/número de votos, não tem importância; poderá haver explicações diferenciadas para cada caso... mas, até por isso, acaba por ser mais um contributo para desmontar o ignorante (e cansativo) mito do «eles são todos iguais».

Ei-los que partem, novos e velhos, buscar a sorte noutras paragens... *


Em Abril de 1965, o semanário “La vie ouvrière” da grande central sindical francesa, a “CGT”, fazia a sua capa com um António, trabalhador “portugais” que, lá dentro, explicava as razões de ter ido para França. Provavelmente seria vizinho destas “Marias”, deste “Souza” com os “ss” ao contrário na sua caixa de correio de um qualquer “bidonville” dos arredores de Paris, ou deste outro “Manuel” que todas as manhãs deixava a marca dos seus passos na lama funda da rua do bairro da lata, a caminho das obras de Saint Denis, ou de Nanterre, ou de Champigny...
Como incentivo, tinham apenas a necessidade extrema. Como consolo, apenas a fé (a maioria). Como objetivo, o sonho de voltar à sua terra. Como ajuda solidária, para além de alguns portugueses que clandestinamente faziam trabalho político junto da comunidade, tinham esta gente estranha, francesa, organizada em sindicatos e que falava de política, de direitos, de reivindicações, de luta de classes... tudo isso às claras, na rua ou no trabalho, coisa que devia provocar a maior estupefacção, senão mesmo medo, aos portugueses e portuguesas, bem lembrados de como “elas mordiam” a quem assim ousasse pensar, quanto mais falar abertamente, nas oficinas e campos que tinham deixado para trás no Portugal cinzento, amordaçado e fascista desses tempos.
Todos fugiram da fome e da guerra. Alguns, mais da guerra.
Esta velha necessidade de partir em busca de pão, que muitos gostam de pintar em tons de “gosto pela aventura”, vem de muito longe. Desde o povoamento das ilhas atlânticas, à colonização das costas africanas e uns pequenos pontos nos mapas das Índias e da Ásia, até à verdadeira debandada para o Brasil, antes e muito depois da sua independência. Fomos desenhando um mapa da fome lusitana na África do Sul e Venezuela, nos EUA... e, finalmente, em finais dos anos 50 do séc. XX, “descobrimos” a Europa.
Aí estava o novo “El dorado” enlameado das intermináveis obras de construção civil, sobretudo na França e na Alemanha, países acabados de sair de uma guerra que os tinha oposto, mas cheios de dinheiro nas mãos e urgência em construir novas cidades, de preferência com mão de obra numerosa e barata.
Hoje, a fome volta a bater à porta de milhares de portugueses, mesmo os mais escolarizados. Estamos a repetir os números fabulosos da emigração dos anos 60 do século passado.
Antes que algum de vocês fique com a impressão de que eu estou a tentar mostrar saber alguma coisa sobre a história da emigração portuguesa, digo já que não. Toda esta sequência de imagens me veio à cabeça, ao ver que a “cavacal” figura que faz de nosso Presidente, não se tem calado com “os nossos emigrantes”, desde que começou a fazer o caminho preparatório para este 10 de Junho... ou “dia da raça”, como lhe chamou há uns tempos.
Mesmo sabendo que alguns portugueses emigrados, trabalhando muito, conquistaram o direito a uma vida confortável, que outros, descobrindo a “arte” da exploração do seu semelhante, enriqueceram... ou que outros, fazendo sabe-se lá bem o quê, ficaram podres de ricos, como Joe Berardo... mesmo sabendo disso, como dizia, não consigo deixar de ver este “filme negro” em que a esmagadora maioria dos portugueses forçados à emigração foi maltratada, abusada e desprezada pelo seu país.
Por isso me soa tão estranha esta ladainha de Cavaco para com os emigrantes em geral e que, segundo ele, «devem ajudar Portugal nesta hora de dificuldades», ainda por cima, recorrendo à tristemente célebre frase «Todos não somos demais...».
Já há muitos anos que milhares e milhares de portugueses emigrados o fazem com as suas remessas, de que o país tem largamente beneficiado. Fazem-no para ajudar as suas terras de origem, para ajudar as suas famílias... e porque são patriotas, capazes de um patriotismo que os “Cavacos” deste mundo não têm dimensão humana para entender.
Provavelmente, Cavaco Silva também está bem ciente de como Portugal tem tratado os seus cidadãos que obriga a emigrar... e este seu discurso é, afinal, um exercício de que eu não o suspeitava capaz: ironia.

* Com um agradecimento ao Manuel Freire por esta cantiga, uma das muito raras em que é autor também das palavras: “Ei-los que partem”.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Passos Coelho – Para acabar de vez com a cultura *




As delegações do PSD e do CDS continuam reunidas para cozinhar o seu Conselho de Administração dos negócios da “troika”. Diz a notícia que estão a trabalhar «a todo o gás»... presumo que num local onde possam ter, pelo menos, uma janela aberta...  mas adiante.
Uma das minhas espectativas quanto à composição desta Administração, prende-se com a dúvida quanto à Cultura. Será que se vai manter um Ministério da Cultura, ou Portugal vai regredir várias décadas, ficando-se por uma secretaria (zinha) de estado diretamente dependente do primeiro-ministro?
Independentemente da curiosidade de ver como é que a Cultura de um país resiste novamente à condição de menoridade que é voltar a ocupar apenas os “tempos livres” do senhor presidente do conselho, sempre que não esteja a tratar de coisas “realmente importantes”... e mesmo atendendo à internacionalmente reconhecida envergadura intelectual e cultural de Pedro Passos Coelho, nem tudo será mau. A saber:
Poderemos bem passar a ter os vídeos da família Passos Coelho, desejando-nos “Uma Páscoa feliz!”... realizados pelos melhores cineastas nacionais. Poderemos assistir às cantorias do primeiro-ministro - que temo venham a ser tão ou mais frequentes que as "saudosas" corridas de Sócrates – passarem a ser acompanhadas pela Orquestra Metropolitana de Lisboa. Poderemos vir a assistir a discursos e mensagens ao país, abrilhantados por elementos da Companhia Nacional de Bailado, “evoluindo” elegantemente atrás de Sua Excelência...
Digam lá que não poderá ser muito bonito!?
* Com um pedido de desculpas ao Woody Allen, que não merece de todo a afronta de estar neste post.

Cavaco... e o constitucionalista confuso




O cidadão Aníbal Cavaco Silva, que faz de nosso Presidente da República, tem tanta pressa de ver arrumada esta coisa da formação do governo... que decidiu, digamos assim, atropelar a Constituição da República, ao dinamitar as normas de consulta prévia aos partidos antes de mostrar ostensiva e publicamente que já considera Passos Coelho como primeiro-ministro.
Como não tenho um pingo de formação para discutir aspetos tão particulares da nossa Constituição, tenho que ouvir e pesar aquilo que argumentam as pessoas que sabem.
O cidadão Aníbal Cavaco Silva, que faz de nosso Presidente da República, decidiu “esticar-se” no seu apelo ao voto, ameaçando os eleitores e eleitoras de que se não votassem perderiam o direito a protestar sobre fosse o que fosse que o próximo governo venha a fazer. Passariam, digamos assim, a serem cidadãos de segunda.
Aqui o caso já fia mais fino! Não reconheço ao "Visconde da Coelha" nenhuma espécie de autoridade, nem moral nem política, para decidir sobre os direitos dos portugueses. Primeiro, porque o cidadão Aníbal não contribuiu com o que quer que fosse para a conquista desses direitos pelo povo português. Segundo, porque o Presidente não tem, efetivamente, essa competência.
Foi apenas isto que disse Jerónimo de Sousa (embora de forma mais elevada do que eu, como é seu timbre) nas declarações que fez à saída de uma reunião partidária, e que ouvi num noticiário da Antena 1, às dez da noite, durante uma viagem de regresso a casa, declarações que podem também ouvir AQUI.


Acontece que a Antena 1, ou para não deixar Jerónimo sem resposta, ou para começar desde já a mostrar serviço aos novos “patrões”, decidiu ir a correr arranjar uma declaração do constitucionalista Jorge Miranda, que rebatesse as afirmações do secretário-geral do PCP. Presumo que tenham acordado o homem de supetão, já que a teoria que ele defendeu foi uma algaraviada tão confusa, tão entaramelada, tão sem sentido... que deixou toda a gente que vinha no carro (pronto... éramos só dois... mas éramos toda a gente) a rir à gargalhada. Para nosso grande espanto, a grande salgalhada do Dr. Miranda não impediu os jornalistas de serviço de proclamar: «O constitucionalista, Dr. Jorge Miranda, garante que o Presidente da República não violou a Constituição!»
Agora, horas depois do acontecimento jornalístico, devem ter tido tanta vergonha daquela peça produzida pelo “grande constitucionalista”, que, e ao contrário das declarações de Jerónimo de Sousa, que lá continuam disponíveis na internet, como já puderam ouvir, a resposta de Jorge Miranda escafedeu-se para parte incerta.
Para fazerem uma ideia sobre a clareza e profundidade da “exposição” do constitucionalista... fica aqui um célebre vídeo que, vá lá... é praticamente do mesmo calibre, sendo que este “adepto confuso” ainda consegue dizer qualquer coisa... e tem graça.