Em Abril de 1965, o semanário “La vie ouvrière” da grande central sindical francesa, a “CGT”, fazia a sua capa com um António, trabalhador “portugais” que, lá dentro, explicava as razões de ter ido para França. Provavelmente seria vizinho destas “Marias”, deste “Souza” com os “ss” ao contrário na sua caixa de correio de um qualquer “bidonville” dos arredores de Paris, ou deste outro “Manuel” que todas as manhãs deixava a marca dos seus passos na lama funda da rua do bairro da lata, a caminho das obras de Saint Denis, ou de Nanterre, ou de Champigny...
Como incentivo, tinham apenas a necessidade extrema. Como consolo, apenas a fé (a maioria). Como objetivo, o sonho de voltar à sua terra. Como ajuda solidária, para além de alguns portugueses que clandestinamente faziam trabalho político junto da comunidade, tinham esta gente estranha, francesa, organizada em sindicatos e que falava de política, de direitos, de reivindicações, de luta de classes... tudo isso às claras, na rua ou no trabalho, coisa que devia provocar a maior estupefacção, senão mesmo medo, aos portugueses e portuguesas, bem lembrados de como “elas mordiam” a quem assim ousasse pensar, quanto mais falar abertamente, nas oficinas e campos que tinham deixado para trás no Portugal cinzento, amordaçado e fascista desses tempos.
Todos fugiram da fome e da guerra. Alguns, mais da guerra.
Esta velha necessidade de partir em busca de pão, que muitos gostam de pintar em tons de “gosto pela aventura”, vem de muito longe. Desde o povoamento das ilhas atlânticas, à colonização das costas africanas e uns pequenos pontos nos mapas das Índias e da Ásia, até à verdadeira debandada para o Brasil, antes e muito depois da sua independência. Fomos desenhando um mapa da fome lusitana na África do Sul e Venezuela, nos EUA... e, finalmente, em finais dos anos 50 do séc. XX, “descobrimos” a Europa.
Aí estava o novo “El dorado” enlameado das intermináveis obras de construção civil, sobretudo na França e na Alemanha, países acabados de sair de uma guerra que os tinha oposto, mas cheios de dinheiro nas mãos e urgência em construir novas cidades, de preferência com mão de obra numerosa e barata.
Hoje, a fome volta a bater à porta de milhares de portugueses, mesmo os mais escolarizados. Estamos a repetir os números fabulosos da emigração dos anos 60 do século passado.
Antes que algum de vocês fique com a impressão de que eu estou a tentar mostrar saber alguma coisa sobre a história da emigração portuguesa, digo já que não. Toda esta sequência de imagens me veio à cabeça, ao ver que a “cavacal” figura que faz de nosso Presidente, não se tem calado com “os nossos emigrantes”, desde que começou a fazer o caminho preparatório para este 10 de Junho... ou “dia da raça”, como lhe chamou há uns tempos.
Mesmo sabendo que alguns portugueses emigrados, trabalhando muito, conquistaram o direito a uma vida confortável, que outros, descobrindo a “arte” da exploração do seu semelhante, enriqueceram... ou que outros, fazendo sabe-se lá bem o quê, ficaram podres de ricos, como Joe Berardo... mesmo sabendo disso, como dizia, não consigo deixar de ver este “filme negro” em que a esmagadora maioria dos portugueses forçados à emigração foi maltratada, abusada e desprezada pelo seu país.
Já há muitos anos que milhares e milhares de portugueses emigrados o fazem com as suas remessas, de que o país tem largamente beneficiado. Fazem-no para ajudar as suas terras de origem, para ajudar as suas famílias... e porque são patriotas, capazes de um patriotismo que os “Cavacos” deste mundo não têm dimensão humana para entender.
Provavelmente, Cavaco Silva também está bem ciente de como Portugal tem tratado os seus cidadãos que obriga a emigrar... e este seu discurso é, afinal, um exercício de que eu não o suspeitava capaz: ironia.
* Com um agradecimento ao Manuel Freire por esta cantiga, uma das muito raras em que é autor também das palavras: “Ei-los que partem”.