domingo, 25 de março de 2012

Pete Seeger - Which side are you on?


No final de uma semana marcada por uma Greve Geral, um momento que, podendo não ser definitivo, é sempre definidor de muitas coisas... e ainda em pleno atascanço informativo no Congresso dos sócios maioritários do Conselho de Administração da Troika, há uma pergunta que fica no ar: de que lado estamos?
É uma pergunta sempre interpeladora... e mesmo quando já achamos saber a resposta há muito tempo, devemos insistir em fazê-la a nós próprios, a cada momento.
O Pete Seeger, mais do que fazer a pergunta, decidiu cantá-la. Já o faz desde os anos cinquenta/sessenta do século passado, na forma desta cantiga direta e simples, escrita em 1921 pela activista e autora/intérprete de canções Florence Reece, companheira de um sindicalista ligado às lutas dos mineiros de carvão.
A cantiga já foi cantada milhares de vezes e gravada umas boas centenas, sendo que alguns dos intérpretes fizeram ligeiras alterações à letra, como se pode ler aqui, ou aqui... ou mesmo muito mais profundas, adaptando a letra à realidade de hoje, como é o caso de Ani DiFranco (com Melissa Ferrick), que se pode ver e ouvir aqui.
De que lado estás?
Bom domingo
“Which side are you on?” – Pete Seeger
(Florence Reece / Tradicional)



sábado, 24 de março de 2012

Polícia portuguesa – Doentes bipolares?


Coimbra – “Crise académica de 1962”

Não quero dar para o peditório das relações (ou falta delas) da CGTP com os vários “movimentos” que têm aparecido em manifestações, de há uns tempos para cá. Entre o óbvio discurso anti-sindical, anti-CGTP e anti-partidos de alguns desses “movimentos” e, do outro lado, alguma resistência ao desconhecido e anárquico, por parte da Intersindical... muito caminho terá que ser feito. Temos tempo. A História não vai acabar para a semana que vem!
Uma vez que, sobre a Greve Geral e o seu significado, não faltarão comentários, nem “bocas”, nem análises sérias... aquilo que me interessa destacar dos “incidentes” verificados na “manif” (verdadeira música para os ouvidos da comunicação social) é a acção da polícia.
Para abrir devo dizer que preferia, sem sombra de dúvidas, a velha polícia de choque dos tempos de Salazar e Caetano. Gente bruta como cornos... mas “transparente”. Sobre o que poderia vir dali nunca havia dúvidas: repressão e porrada. Eram absolutamente “confiáveis”!
Esta polícia de hoje é mais perigosa... porque é falsa. Porque é doentiamente bipolar. Os seus elementos tão depressa estão na rua a agredir trabalhadores à porta de uma empresa, ou estudantes à porta da sua escola, que ousem reivindicar melhores condições e direitos, ou protestar contra este estado de coisas... como podem aparecer na televisão, utilizando, eles próprios, um discurso sindical, reivindicativo, e assumindo-se aí como trabalhadores explorados e injustiçados. Isto até à hora de se enfiarem numa carrinha para irem espancar mais um piquete de greve, ou, como foi o caso deste dia 22 de Março, jornalistas que tentem registar imagens da sua brutalidade. Nenhuma provocação justifica aquele tipo de agressão generalizada.
Razão pela qual, como já um dia escrevi, enquanto não vir as associações (ditas sindicais) da polícia, demarcarem-se claramente destes actos, nenhuma dessas associações, pretensões, reivindicações, ou o que quer que seja... terá da minha parte uma única palavra de apoio, um único gesto de solidariedade.
Com uma excepção: os cães-polícias. Esses não sabem o que fazem!

sexta-feira, 23 de março de 2012

João Machado (1921-2012)


“Ceifadores” – João Werner

Hoje, em Montemor-o-Novo, vai a sepultar um homem bom. O nosso amigo João Machado, franzina figura de eterno sorriso e de uma afabilidade e delicadeza tocantes, foi militante do seu partido por quase setenta anos. Era um operário agrícola.

As suas convicções fizeram-no passar cerca de dez anos na prisão, mas divididos por cinco diferentes ocasiões... o que quer dizer que o João Machado regressou, repetida e corajosamente, às actividades e à militância pelas quais ia sendo preso e torturado.

Bastaria conhecer a sua filha para saber que o exemplo de vida do João Machado deu bons frutos. Mesmo assim, em muitas ocasiões em que me cruzei com os seus olhos serenos, não pude deixar, pensando no seu exemplo, na sua história de vida e no enorme fiasco em que se tornou este país... de sentir vergonha pela parte que me toca nesse fiasco.

Um “futuro” com cara de passado...


Textos reveladores de um ódio vesgo e descontrolado, contra os trabalhadores que insistem em não “alinhar” pela cartilha neoliberal, ainda que disfarçados de rasgos de humor, deram o tom do dia que passou, em vários blogues de direita... os quais não farei o favor de publicitar.
“afinal havia muita gente que precisa mesmo de trabalhar para ganhar a vida”
“afinal há muitos portugueses com trabalho... em vez de emprego”
Foram algumas das tiradas que se somaram aos costumeiros insultos, mentiras, calúnias várias... em muitos casos, vindas de “jornalistas” e dos seus jornais. Noutros casos, vindas de deputados, em plena Assembleia da República.
Mesmo isto, por muito apetecível que seja para toda essa gente atacar a CGTP, teve que romper a muralha de “informações” sobre a bola, o atentado de França...
Ouvindo as baboseiras intermináveis que, nestas ocasiões, tantos portugueses vão despejar para os programas de antena aberta e para os comentários nos jornais, somadas à descoberta de uns professores que se passaram e decidiram pôr os alunos a olhar fixamente para lâmpadas, ou à "fúria" de um cidadão (seguido, em termos verdadeiramente patéticos, pelo seu clube) que achou por bem concentrar a sua capacidade de militância e indignação, protestando para o Ministério da Educação por causa da inclusão do “Benfica” na letra de uma cantigueca qualquer, cantada na escola da filha... o que o torna num belo exemplo da alienação e desvio do essencial, em que somos especialistas... não posso deixar de pensar no futuro e no trabalhão que há pela frente.
Não posso deixar de pensar que esse futuro, embora vá chegando até nós, inexoravelmente, à cadência de sessenta segundos por minuto... chega muito mais com cara de passado, do que do futuro com que tantos sonharam e sonham. Pelo qual tantos lutaram e lutam.
Quanto regresso ao passado será preciso para, pelo menos mais alguns, abrirem os olhos?

quinta-feira, 22 de março de 2012

Greve Geral - Muitos milhares de razões...









Não me Peçam Razões...

Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

quarta-feira, 21 de março de 2012

Saúde Pública - O cheiro já não se pode ignorar...


Não fosse a dedicação, persistência e firmeza de convicções de milhares de profissionais da saúde, que estão certos da razão que lhes assiste ao defenderem que a vida das pessoas não pode estar à mercê da ganância e dos lucros de meia dúzia... e o Serviço Nacional de Saúde, por estes dias já pareceria um corpo gigante em decomposição, como uma baleia que tivesse dado à costa há meses.
Mesmo assim, não é possível ignorar o cheiro nauseabundo que é já indisfarçável. Um cheiro de morte. De morte inútil e antecipada de muitos portugueses. Sim! Não vale a pena armarem-se em virgens ofendidas, pois é da morte antecipada de muitos portugueses que se está a falar. E falará ainda mais.
Do lado de fora do “monstro”, os milhões de pobres. Tão pobres, que quase um milhão já pediu a isenção de pagamento de taxas moderadoras. Tão pobres, que mesmo havendo muitos que não têm acesso a essa “caridosa” isenção, tal como os outros, acabam por evitar as consultas, escolher os medicamentos que conseguem pagar, não aviando as receitas por inteiro. Sem dinheiro para os transportes cada vez para mais longe e mais caros.
Do lado de dentro, hospitais sobrelotados, por tudo e também pelo afluxo de milhares de doentes adicionais que viram fechados os seus Centros de Saúde habituais. Camas nos corredores, camas no refeitório, horas e horas (ou dias) sem acesso a qualquer médico, riscos acrescidos de infecções hospitalares, enfermeiros que vão saindo do sistema e não são substituídos, cortes de milhões e milhões nas verbas disponíveis, entrada no sistema de materiais de qualidade medíocre. Como se tudo isto não bastasse, a (criminosa) tentação de reutilizar materiais que não são, de todo, reutilizáveis, como por exemplo, “pacemakers” e produtos da área da diálise, ou dos transplantes.
Voando por cima de tudo isto, em largos círculos, toda a “indústria” privada da saúde, elaborando planos e fazendo contas, para descobrir qual destas desgraças será a mais rentável e privatizável numa próxima oportunidade.
Que comentários fazer perante uma situação destas?!
É a diferença entre ter à frente dos destinos do país gente de bem... ou um bando de canalhas.

terça-feira, 20 de março de 2012

Estaleiros de Viana – Mais um roubo à vista




O Estado português, há muito está a braços com um problema insolúvel. Um poço sem fundo onde caem milhões de euros dos contribuintes. Um caso sem remédio, a que não podem valer nem encomendas, nem promessas. Pelo menos é este o discurso oficial que pinta os Estaleiros Navais de Viana do Castelo como um pesadelo de que os contribuintes portuguese se devem livrar a todo o custo, pese embora a inabalável motivação dos trabalhadores daquela grande empresa.
Agora, Aguiar Branco, essa espécie de senhor saído de um folheto da “Remax”... e que por estes dias faz de ministro da Defesa, vem dizer que os Estaleiros vão ser “reprivatizados” na totalidade. Garante ainda que há muitos interessados, nacionais e estrangeiros.
Vai uma aposta, que depois da negociata feita, desata a chover encomendas e lucros fantásticos? Vai uma aposta, que o Estado ainda vai ter que entrar com algum, como faz no BPN, para os beneméritos capitalistas fazerem o grande sacrifício de nos ficar com aquilo? Vai uma aposta, que o miserável sapo se vai transformar num príncipe, assim que receber o beijo do capital privado?
Razão tem quem chama a isto um «crime contra a economia nacional»! Razão tenho eu... que junto a isso uma extensa lista de adjectivos tão “substantivos”, que acho melhor nem os escrever aqui. Vocês sabem!