quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Luiz Goes (1933-2012) – É preciso acreditar


 “Tu que crês num mundo maior e melhor
Grita bem alto que o céu está aqui
Tu que vês irmão, só irmãos em redor
Crê que esse mundo começa por ti

Canta, canta como uma ave ou um rio
Dá o teu braço aos que querem sonhar
Quem trouxer mãos livres ou um assobio
Nem é preciso que saiba cantar”
(Excerto de “Cantiga para quem sonha” – Leonel Neves/João Gomes)

Partiu o Luiz Goes. Deixou-nos a memória das suas cantigas coimbrãs e da sua emocionante e emocionada voz clara.
Na última vez em que cantámos juntos, numa homenagem ao José Niza, em Santarém (com o José Niza presente), apesar dos setenta e tantos anos, ainda terminava a sua “Cantiga para quem sonha” com um final corajoso e irrepreensível, uma oitava acima do normal, para “inveja” dos colegas.
Conheceu-me junto ao Zeca, ainda nos meus vinte anos e não sei o que captou da relação dele comigo, que o fez continuar sempre a tratar-me como se eu fosse eternamente aquele miúdo que precisava de ser acarinhado, provavelmente, por ousar cantar “aquelas coisas deles”.
Cantava que “É preciso acreditar que a canção de quem trabalha é um bem pra se guardar”. Pelo menos alguns de nós acreditámos... e acreditamos!
Até sempre, Luiz!


“Cantiga para quem sonha” – Luiz Goes
(Leonel Neves/João Gomes)



“É preciso acreditar” – Luiz Goes
(Leonel Neves/Luiz Goes)

 


terça-feira, 18 de setembro de 2012

Eleições nos EUA – Uma ponta de inveja


Prossegue a corrida para a "Casa Branca", com Obama a provar ser um homem com bastante sorte no que respeita à qualidade humana e política dos seus adversários directos.
Na verdade, e ao que parece com resultados gravosos para a sua campanha, a dupla “republicana” composta pelo candidato a Presidente, o ultra-conservador Mitt Romney e o candidato a vice-Presidente, o neofascista Paul Ryan, vai acumulando erros e gaffes com a inexorável cadência de uma nora a perder água por todos os alcatruzes.
Enquanto Paul Ryan se multiplica em frases abjectas de vária ordem, acrescestando-lhes ainda por cima um rosário de mentiras que vão da sacanice de atribuir a Obama, por exemplo, o fecho de uma fábrica de automóveis que, afinal, foi encerrada... por Bush, até ao indigente ridículo de mentir extensamente sobre um resultado de uma maratona em que correu... Mitt Romney, para não ficar atrás, deixou-se, mais uma vez, apanhar numa situação altamente comprometedora.
Desta vez, decidiu insultar de tudo e mais alguma coisa os apoiantes de Obama. Gente «que não paga impostos, que acha que tem direito a assistência médica, comida, casa e tudo o mais». Embalado pelo aroma inebriante do dinheiro da assistência composta por milionários, numa jantarada para doadores para financiar a corrida presidencial, acabou mesmo dizendo que a sua campanha «não é dirigida aos mais necessitados», rematando peremptório: «o meu trabalho não é preocupar-me com essa gente».
Romney acrescenta ainda mais alguns comentários de carácter étnico e racista... mas, na verdade, não é isso o que mais me “toca” nesta notícia. Falando francamente, fico mesmo com alguma inveja dos eleitores dos EUA.
Ah!... Se ao menos os canalhas que nos governam tivessem escorregado duas ou três vezes em momentos de “sinceridade” como estes... ainda que involuntários... mas não!!!  Se alguma coisa se pode admirar ao bando de delinquentes que está no Governo de Portugal, é a absoluta concentração com que mentiram descaradamente aos portugueses para garantir a eleição!

António Capucho – Os cavalheiros bem falantes


As crises muito graves, como aquela que atravessamos, têm sempre vários lados e aspectos... todos tenebrosos. Uns são evidentes e entram pela nossa casa dentro com botas cardadas. Outros, avançam com pezinhos de lã... mas não são menos sinistros.
É o caso da súbita “fervura” contestatária de António Capucho que, tenta (ingloriamente) esconder o ressabiamento que tem em relação à direcção do seu partido, com a terna pose bem falante, de emérito cavalheiro e irrepreensível democrata. Mas será assim?
Ouvindo o que têm para propor tanto ele como mais uns tantos dos súbitos contestatários... diria que não. Diria mesmo que é muito cedo para desatar a simpatizar com esta gente e cometer a asneira de pensar que alguma coisa os impeliu a ficarem mais próximos de nós. Senão vejamos:
1. Capucho, ostentando o seu mal disfarçado ódio pessoal a Passos Coelho, defende que o PSD deve participar numa solução governativa... mas sem o actual primeiro-ministro.
2. Defende a formação de um governo que seria qualquer coisa entre o “governo de iniciativa presidencial” e “de salvação nacional”, soluções que estão (quase) sempre na antecâmara da negação da democracia.
3. Defende que esse “governo” que iria reparar os estragos de muitos anos de governação do PS, do PSD e do CDS deve ser formado... por elementos do PS, do PSD e do CDS, aquilo que este tipo de “pluralistas” gosta de chamar “arco governativo” e que tão boas provas tem dado.
4. O facto de, calmamente, deixar de fora das soluções do país o PEV, BE e PCP, para falar apenas das forças actualmente com assento parlamentar, forças essas que, pelo menos da última vez que vi, estavam no Parlamento com os votos legítimos de muitos e muitos milhares de portugueses, mostra bem onde se risca a linha “afascistada” que desde o chamado Estado Novo nunca se apagou, linha que delimita a fronteira da “democracia” deles.
5. Para reforçar a nossa confiança no seu “apego à democracia”, Capucho dá a entender que esse (no seu entender) “incontestável” governo, ficaria em funções por tempo indeterminado, já que defende que só haveria lugar a novas eleições, terminado o processo de intervenção e “assistência” da “troika” em Portugal, o que, dadas as condições complexas em que nos encontramos (juntamente com tantos milhões de seres humanos pela Europa fora e pelo mundo), quer dizer ninguém saberia quantos anos levaríamos até poder voltar a ter eleições legislativas livres.
Não! Decididamente, não tenho pachorra para esta estirpe de cavalheiros bem falantes!!!


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Conselho de Estado


Enquanto se marca uma vigília para junto da Presidência da República e se alimentam expectativas (provavelmente exageradas) quanto aos resultados da próxima reunião deste grupo de cidadãos... cidadãos que, na sua maioria, já tiveram oportunidade para fazer alguma coisa de extraordinário pelo país, mas não fizeram... a passerelle por onde desfilam os notáveis do PSD (como Manuela Ferreira Leite ou como Capucho) e do CDS (como Bagão Félix, ou o vice-presidente José Manuel Rodrigues) que “condenam” Passos Coelho e o seu governo, já parece a Segunda Circular em hora de ponta.
Lamento não poder ajudar... mas a verdade é que não faço a menor ideia de como vai decorrer a reunião do chamado Conselho de Estado. Uma coisa, sei:
Vai ter altos... e baixos!

Paulo Portas – O farsolas...


Paulo Portas insiste no mais que improvável milagre de que as pessoas se esqueçam do antigo “jornalista” acanalhado do “Independente” e na chusma de personagens que, entretanto, tem vindo a encarnar, a acabar na estória dos submarinos e no roubo de milhares de documentos do Estado. Insiste, como dizia, em esperar o milagre de bastar agrafar um ar “sério”, para que se pense que é sério, ou que baste apontar para si próprio exclamando “ó pra mim, com tanto sentido de Estado!”, para que passemos a pensar que ele o tem.
Esta farsa da discordância, posta em cena e a render durante os últimos dias, é apenas mais uma das suas incontáveis “performances” artísticas.
Passe a evidente canalhice calculista por detrás de toda a situação, ficamos a saber, finalmente, qual é o contributo de Portas e dos seus mais directos sequazes, para o “sacrifício” colectivo pedido “a todos”: viabilizar, apenas pelo mais elevado “desprendimento e fervor patriótico”, medidas governamentais que, segundo dizem, lhes “cortam o bondoso coração”. A não serem recompensados na Terra, terão já garantido um lugar no céu.
Gostei de saber que em tempos tão conturbados, podemos contar com um estadista com tal aprumo e tão fina estampa.
Já não gostei, confesso que não gostei mesmo, de ouvir dizer a mais do que um dirigente político (ou comentador, já não sei...) que estas divergências na coligação deveriam ser resolvidas...  “dentro de portas”.
Chamem-me esquisito, chamem-me o que quiserem... mas a coisa dita assim e atendendo aos protagonistas envolvidos, ainda por cima num país tão dado a trocadilhos... soa mal, que diabo! Mas isto sou eu e o meu feitio...

domingo, 16 de setembro de 2012

Richard Galliano – Recomeçar, recriar... sempre!


Eu sei que algumas vezes, diria mesmo, vezes demais, pode parecer que o acordeão foi inventado com o firme propósito de servir de instrumento, sim, mas muito mais de tortura do que musical. Em muitas ocasiões não existe mesmo outra explicação possível para o som aterrador que sai daquilo, tal como para o sorriso alvar com que os proprietários das “armas” nos presenteiam enquanto dão ao fole como se não houvesse amanhã.
Embora entenda e esteja solidário com todos aqueles que desenvolveram uma mais do que justificada alergia ao dito instrumento, lá vou fazendo tudo aquilo que posso para defender as (felizmente tantas) excepções. Lembrando a delicadeza de algumas valses musette parisienses, da irreverência de um bandoneón argentino evocando o rigor de um tango tradicional, ou a revolução de um Piazzolla, a alegria e frescura das concertinas minhotas tocando ao desafio, sem se venderem à música pimba, etc., etc., etc.
Quando sinto que se me estão a esgotar os argumentos para defender o acordeão, reajo como qualquer crente. Abrigo-me num único refúgio. Refúgio certo, poderoso e seguro: RichardGalliano.
Este acordeonista francês é um músico e criador vertiginoso. Parece não ter limites... como se pode ver e ouvir nesta sua “Waltz for Nicky”, acompanhado por uma espécie de extraterrestre e guitarrista que dá pelo nome de Bireli Lagrène. Para além de virtuoso do acordeão é um excelente compositor e arranjador, arte que é mais do que evidente quando nos dá a ouvir os arranjos que escreve, por exemplo, para o seu belíssimo grupo de cordas, composto por músicos de eleição (destaque para o fabuloso violinista Sébastien Surel), como poderão constatar.
No vídeo de hoje, para além de tudo o que já disse, Richard Galleano mostra-nos que a criação de uma grande peça musical nunca acaba. Reacontece de cada vez que os verdadeiros músicos começam a tocá-la, juntando à interpretação a sua cultura, a sua pulsação, as suas opiniões e gostos musicais... a sua vida.
É o que se passa em mais uma recriação de uma peça musical, “Oblivion”, de Astor Piazzolla, ouvida aqui há muito pouco tempo, tocada em violoncelo pela argentina Sol Gabetta... peça musical que se transfigura e renasce depois de passada pelas mãos geniais de Galliano e dos seus músicos.
Bom domingo!
“Oblivion” – Richard Galliano
(Astor Piazzolla)




sábado, 15 de setembro de 2012

Conselho de Estado – Acordai! *


O Presidente da República decidiu convocar o Conselho de Estado, essa espécie de “albergue espanhol” que consegue juntar à mesma mesa o seríssimo general Ramalho Eanes e o ridículo Alberto João Jardim, o delinquente que está à frente do Governo e António José Seguro, o “senhor do bolo” Balsemão e Mário Soares... mais uma longa lista que é de se lhe tirar o chapéu.
Um dos Conselheiros de Estado (vá lá... não se riam!), Luís Filipe Menezes, deseja que o Conselho de Estado «seja marcado pelo bom senso e serenidade»... o que não deixando de ser um desejo bonito, é, porventura, excessivamente ambicioso.
Primeiro, porque é uma enorme ousadia juntar na mesma frase as palavras “bom senso e serenidade”, seguidas dos nomes de alguns dos “Conselheiros”.
Segundo, porque dado o facto de Cavaco Silva ter convidado Vítor Gaspar para estar presente e falar... se o Conselho de Estado conseguir manter-se acordado, já será um feito assinalável!
*  Com um grande pedido de desculpas ao Zé Gomes Ferreira, ao Lopes Graça... e a todos os amantes das “heróicas”.