O dicionário particular de Paulo Portas, aquele recanto do cérebro em que ele atribui significado às palavras que usa, é uma espécie de lugar “encantado”, um jardim fantástico onde essas palavras crescem “livres” como flores, agitando-se e inclinando-se ao sabor da brisa do momento e do sopro das conveniências.
Entre muitas outras palavras que ganham novo significado no peculiar dicionário particular de Paulo Portas, já vimos “linhas vermelhas intransponíveis” que, afinal, são perfeitamente transparentes e ultrapassáveis. Já vimos atitudes “irrevogáveis” serem revogadas ao fim de uma horas.
Temos agora uma nova entrada no dicionário: “razões técnicas”. Pela recusa do ministro em explicar o que aquilo quer, realmente, dizer... pode ser tudo. Desde “Zanguei-me com o piloto do avião num coquetel da embaixada”, até ao corriqueiro “Cá por coisas!”. Esperemos pela actualização do dicionário.
Entretanto, a sessão de esclarecimentos de Portas serviu, pelo menos, para ficarmos a conhecer a sua técnica para resolver alguns problemas, quando afirma não ter perguntado quem vinha no avião, para não «importar o problema Snowden».
É uma técnica antiga e muito apreciada em Portugal: “se não se falar dele... o problema não existe”.
É uma técnica poderosa! É recorrendo a esta técnica que altos funcionários corruptos chegam ao fim das carreiras com estatuto de pessoas de bem. Que padres, professores, médicos, juízes, polícias, etc., etc., etc., passam a vida a apalpar (para dizer o mínimo) conhecidos e próximos de todos os sexos e idades... sem nunca “serem”, oficialmente, aquilo que são. Que aquelas senhoras respeitavelmente casadas que sempre gostaram de “conhecer biblicamente” as texturas e dimensões das estudantes colegas das filhas... chegam à terceira idade gozando sempre do estatuto de senhoras respeitavelmente casadas. É assim que políticos ladrões, que não teriam (se lhes fosse perguntado) como justificar as grandes casas, carros, propriedades no campo ou na praia e outros bens que possuem no fim das suas carreiras... passam à História como estadistas.
Pelo menos uma palavra não mudou de significado no dicionário de Portas: “dissimulado”. O homem disse que continuar no governo seria uma dissimulação... e ele aí está! Dissimulado!