terça-feira, 6 de março de 2012

Cardeal Patriarca – Vocação para a asneira


Serei tudo o que quiserem
por inveja ou negação:
festarola, oportunismo
fogueira de exibição.
Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
alegria, um contrato
poema de mão em mão.
Serei tudo o que disserem...

... isto e muito, muitíssimo mais, poderia dizer de si próprio o casamento, se fosse dado a parafrasear Ary dos Santos (assassinando-lhe os versos).
E perguntam vocês: estás tolo? Estou! Pelo menos é o que me apetece quando leio notícias como esta, em que uma grande instituição como é a Igreja Católica, fala com a profundidade das conversas “psicológicas” das lojinhas de aplicação de unhas de gel.
Convenhamos que tirando as mais do que conhecidas e numerosas excepções, os padres nunca sabem muito bem do que falam nestas alturas, ficando sempre com um certo ar de eunucos que, como se sabe, conhecem todos os pormenores de como a “coisa” deve ser feita, mas...
Toda esta neura vem do facto de, independentemente do que cada um pensa do casamento, desde os mais pragmáticos, aos mais apaixonados e poéticos... eu ter “apanhado” com a definição mais pedestre do dito casamento, definição que, estou certo, o autor achou linda... mas que pese embora o facto de se tratar do cardeal patriarca de Lisboa, é estúpida como os pés que a arrastam... para além de vir infectada com os habituais umbiguismo e pesporrência do Vaticano.
Não senhor cardeal! O casamento não é «uma vocação para a santidade»!

segunda-feira, 5 de março de 2012

“O Álvaro”... e o mistério da economia


Vinha com o estatuto de “grande neoliberal viajado”, temperado nas cátedras canadianas... mas ninguém na equipa de Passos Coelho devia saber muito sobre ele, para além das patacoadas fanáticas que ia vertendo para um blog. Contrataram-no.
Agora, de cada vez que ele afivela aquele ar parvalhão e abre a boca para dizer inconveniências, ou coisas simplesmente incongruentes, toda aquela gente deve sentir arrepios na espinha. À falta de coragem para o pôr com dono... vão-lhe retirando funções. Uma a uma. Dentro de algum tempo, terá um gabinete quase vazio: uma cadeira, uma secretária, um “i-pad”, um “i-phone”... e uma assessora à beira de um ataque de histeria, afundada em resmas de revistas cor de rosa e toooodo o tempo livre do mundo.
Pobre Álvaro! Se ao menos tivesse a dignidade de pegar em si e pôr-se a andar...

domingo, 4 de março de 2012

Sol baixinho... (só pra seguir uma teima)


(Ilha de Santa Maria - Açores - fotografada por Ana Loura)

Tive a sorte de ter contacto com a grande música tradicional portuguesa, ainda muito jovem. Um “serviço” que nunca poderá ser verdadeiramente “pago” ao Adriano, ao Zeca e a todos aqueles que se deram à tarefa revolucionária de não nos deixar perder o fio à meada da História, do contacto entre a sua música e aquela que fazia o povo.
Muitas vezes há quem pergunte de onde poderá ter saído o carácter por vezes tão profundo de alguma da nossa música tradicional. Como em tudo o que tem que ver com as gentes, devemos procurar as respostas na terra. Procurar entre essas mesmas gentes, nas suas fadigas, alegrias, crenças, medos, amores. Devemos procurar ao nível da terra... e mais abaixo: entre as raízes.
Se há lugar no país em que essas raízes são uma mistura de persistência de séculos com encantamento diário... é nos Açores.
Tudo isto... por não saber muito bem o que dizer deste (viciante) “Sol baixinho”, recolhido por Artur Santos em 1858, em Santa Maria. O tema foi, então, acompanhado a preceito pelas “violas de arame” de Augusto Cabral e João Soares... e cantado de forma totalmente inexplicável por Virgínia de Andrade Cabral.
Bom domingo!
“Sol baixinho” – Virgínia de Andrade Cabral
(Popular - Ilha de Santa Maria - Açores)



sábado, 3 de março de 2012

SCUT e Álvaro Santos Pereira... o descarado


Uma queixa apresentada por Aveiro a Bruxelas, contra a cobrança de portagens nas antigas SCUT, originou uma tomada de posição por parte das instâncias europeias. Rapidamente foram divulgadas duas interpretações da tomada de posição de Bruxelas:
1ª (A dos queixosos) – Bruxelas considera as portagens ilegais e pode até processar o Estado português.
2ª (A do ministro) – O inenarrável Álvaro Santos Pereira diz, insolente, que a proibição é apenas para os descontos que o governo concede a alguns residentes...
Primeira reflexão: Isto lembra por demais as técnicas de contagens de participantes em manifestações ou greves.
Segunda reflexão: Alguém, um dia destes, vai mesmo ter que perder a paciência a sério com este ministro e este governo... a ver se isto toma tino!

sexta-feira, 2 de março de 2012

Manter a cenoura à vista...


A Standard and Poor’s, seguindo certamente uma política de manutenção da cenoura a uma distância "aceitável" do burro, vem dizer mais umas coisas sobre Portugal. Desta vez, pretensamente simpáticas.
Diz que Portugal tem capacidade para cumprir, que o que estraga tudo é o excesso de austeridade e a falta de crescimento económico blá, blá, blá...  Ah... e, claro, que é diferente da Grécia.
Sobre a questão da Grécia estão carregados de razão. A começar em coisas realmente importantes, como a temperatura da água do mar... e continuando com frivolidades, como a História... as diferenças são aos magotes.
Agora o resto, vindo de uma das agências que têm, repetida e deliberadamente construído o clima constante de crise, anunciando desgraças que depois se esforça for fazer cumprir com as suas notações negativas sobre tudo o que se mexa em Portugal... é um mistério. Provavelmente, só explicável pela tal política de manter a cenoura a uma distância "aceitável" do burro... não vá ele perder o interesse, parar, desatar aos coices, sabe-se lá...

Mas pronto... o que é que eu sei sobre agências de notação?!

quinta-feira, 1 de março de 2012

E depois? Não é o que fazem todos?


E condena muito bem!
O que é admirável nesta notícia é a predisposição das autoridades para, escoradas numa alegada legalidade, acharem normal e aceitável que médicos, desde que a trabalhar no sector privado, se deixem subornar pelos laboratórios farmacêuticos, no sentido de darem preferência a este ou aquele medicamento, em detrimento de outros de igual qualidade, quando passarem as receitas.
Infelizmente, estas “autoridades” são apenas o reflexo da triste “flexibilidade” que a sociedade portuguesa tem para com a corrupção.
“Ai aceitou dinheiro? Fez muito bem! Não é o que fazem todos? Eu se pudesse, fazia o mesmo!”
“Deixou-se subornar a troco de umas férias e de uns presentes? Quero lá saber! Enquanto me tratar como deve ser...”
E, desgraçadamente, este tipo de desculpabilização, por vezes quase admiração pelos corruptos, vai subindo, subindo, subindo... até chegar às figuras do Estado, que acham normal enriquecer à custa do que fizeram (ou não fizeram) enquanto foram ministros, secretários de estado, autarcas...

A Elis teria gostado...


A minha namorada chegou a casa, há uns dias, assaz divertida com uma coisa “muito original” que tinha ouvido ao passar pelas gigantescas obras da escola secundária aqui do bairro.
Não querem lá ver que ainda existem piropos originais... pensei eu... mas não! Era coisa muito mais original do que isso. Ao passar pelas obras, ouviu um grupo de operários, muito provavelmente, brasileiros, cantando em coro.
É aqui que entra a originalidade. Quando seria espectável, quase natural, que os homens estivessem massajando o ego nacional, trauteando o avassalador (e insuportável... mas isso é o meu mau feitio) êxito musical do seu compatriota Michel Teló, “ai se eu tchi pego, ai, ai, se eu tchi pego”, então não é... que não?! Por qualquer conjugação instantânea dos astros, os nossos amigos, todos “cobertos” de tinta, cimento, dificuldades e saudades de casa, cantavam em coro “sou caipira pirapora nossa Senhora de Aparecida, ilumina a mina escura e funda, o trem da minha vida”... o refrão da grande cantiga “Romaria”, imortalizada pela Elis Regina.
É isto um estudo sócio-musical credível? Não. É, sequer, um estudo? Não. Isto revela uma qualquer tendência? Não.
...mas convenhamos que é interessante pensar que, por qualquer força do acaso, durante um pequeníssimo espaço na vastidão da linha do tempo, aqueles operários em construção cantaram e sentiram uma música infinitamente melhor do que a que canta e ouve, todos os dias, a todas as horas, a esmagadora maioria dos adolescentes que frequentam a escola que eles estão a (re)construir.
A Elis teria gostado...