quarta-feira, 8 de junho de 2011

Comissão de gestão de danos... até que venham dias melhores


O facto de o secretário-geral demissionário do PS se ter despedido dos seus companheiros de aventuras com um comovente «Adoro-vos!», não altera a realidade. E a realidade é que esses companheiros estão com um problema sério nos braços.
Afastada a hipótese de António Costa pegar no estandarte que Sócrates deixou cair, dando a “atendível” justificação da fidelidade ao seu projeto na Câmara de Lisboa... e assim se livrando do pesadelo de ir passar os próximos meses, ou talvez anos, à frente de um PS a tentar fazer oposição a si próprio, quer dizer, às consequências das suas políticas miseráveis dos últimos anos e ao verdadeiro “programa de governo” que deixou em herança ao PSD, ficam em cima da mesa (ou do muro) as possíveis candidaturas de António José Seguro e de Francisco Assis.
Não me atrevo a fazer sugestões... até porque considero as duas soluções igualmente interessantes.
Com António José Seguro, teremos a oportunidade de, todos os dias, ficar a saber mais um pouco sobre a sempre fascinante “teoria do vácuo”.
Com Francisco Assis (que já se posiciona na corrida), teremos a oportunidade de assistir à reedição, com vários anos de intervalo, dessa espécie de “socialismo de direita” que ficou ligado à (lamentável) figura de Tony Blair, mas numa versão portuguesa... e muito mais despenteada.
Nenhuma das hipóteses beliscará no que quer que seja o prévio acordo de submissão com a “troika”.


A montanha pariu mais um “rating”




Já todos estamos (ou deveríamos estar) cientes de que esta farsa dos “ratings” é um esquema de ladrões, montado pelos donos dos grandes bancos mundiais e especuladores financeiros, para roubar tudo aquilo que seja possível roubar aos cidadãos de todo o mundo... até que não haja mais para roubar.
Já se viu que, cumprindo ordens desses ladrões especuladores, que vivem dos juros que cobram aos bancos de menor dimensão e aos países em dificuldades, estas agências de “ratings” não hesitam em lançar na miséria e na fome tantos milhões de seres humanos, quantos forem necessários para satisfazer o apetite dos seus “clientes”.
Assim, vão sucessivamente baixando o “rating” do país... o que a seguir faz com que seja “necessário” baixar o “rating” das maiores empresas e instituições bancárias desse país, por causa das maiores dificuldades... do país, sendo que, semanas mais tarde, é óbvio que a maior fragilidade das empresas os “obriga” a desvalorizar novamente o “rating” do país... 
Neste carrossel de saque desavergonhado há apenas uma coisa que sobe: os juros que os países e as empresas têm que pagar para se poderem financiar nos “mercados”. E, claro, como temos visto ultimamente, nunca deixa de haver dinheiro para emprestar, sendo mesmo obscena a encenação da sempre apregoada “grande dificuldade” que o país terá para se financiar na próxima vez que for aos "mercados"... logo seguida de leilões de dívida pública em que a procura de compra dessa dívida por parte dos “emprestadores” excede em muito as necessidades de empréstimo... tal é o lucro destas operações.
Toda esta (grande) introdução serviu apenas para nos fazer chegar à estória de hoje. A Moody’s, uma das tais agências que não se tem calado com a necessidade de impor medidas de austeridade na nossa economia, recorrendo à sucessiva depreciação dos “ratings” da República Portuguesa como forma de chantagem para obrigar à adoção dessas medidas, mesmo sabendo que são medidas e políticas que levam à recessão... veio agora baixar o "rating" da Portugal Telecom. Porque, justificam, a recessão e as previsíveis dificuldades económicas crescentes dos clientes da PT, representarão uma quebra no negócio da empresa, que por isso passará a valer menos...
Mais uma vez, isto vem demonstrar que fazer as vontades às “troikas” não é forma de as combater. O grande capital não abrandará o ritmo do roubo, por mais que esteja a tomar o lugar no governo um primeiro-ministro que jure ser ainda mais lacaio e mais fiel no cumprimento das suas ordens do que o seu antecessor. Por mais que prometa “ir ainda mais longe” do que lhe é exigido. 

A única forma de sair deste ciclo infernal não é tentar “acalmar os mercados”, mas sim fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para lhes partir os dentes!

terça-feira, 7 de junho de 2011

Pós-reflexão (2) – Política em “dégradé”


Para mim, um grande aplauso – por exemplo, num espetáculo – é dizer quase só para mim “Boa!”... e ficar ali, batendo palmas apenas para não “fazer feio”, mas, por dentro, transbordando de satisfação pela visão da felicidade do artista. Se for eu o objeto do aplauso... então ainda é “pior”, tudo se resumindo a um arrepio de pele. Para mim, uma grande festa é memorizar o brilho de cada uma das caras felizes à minha volta... e fazer disso combustível para o caminho.
Seja como for, para saber tudo isso é preciso conhecer-me bem... o que pode induzir as outras pessoas (quase todas) a pensar que o meu «motivo de satisfação» com que celebrei o resultado eleitoral dos meus amigos da CDU, não é de facto uma celebração e uma festa... como se eu não entendesse em que condições esses resultados foram conseguidos.
Na verdade, no meio de uma campanha que classificava quase como “traição” toda e qualquer atitude que não fosse a de total subserviência ao acordo com a “troika”; que dava como inevitável a aceitação desse acordo; que classificava como “inúteis” todos os votos que não fossem no sentido da “maioria” exigida pelos mercados, tudo isto como condimentos extras para a antiga receita anticomunista, servida por uma comunicação social hostil, censória, sabotadora, vendida, mentirosa... no meio de tudo isto, dizia, é notável que a CDU mantenha a sua influência, a sua votação e aumente a sua representação parlamentar em um deputado. Isso é motivo de festa, sim!, por mais que a minha cara e os meus modos aparentem outra coisa.
Daí que seja delirante assistir ao esforço que alguns envidam para terraplanar a chamada “derrota da esquerda”. Em colunas de opinião e alguns blogues a coisa já toma proporções de alucinação. Um “blogueiro” (a quem não farei o favor de dar visibilidade) diz mesmo que «perante esta derrota da esquerda, se os dirigentes do BE e do PCP tivessem um mínimo de coerência... deviam fazer o mesmo que Sócrates». Como se Sócrates fosse parte da esquerda! Como se a derrocada indescritível da indefinição ziguezagueante de Louçã e do BE tivesse qualquer relação com o rumo definido e a consolidação (e reforço!) da CDU. Como se num colectivo - quando verdadeiramente o é - as vitórias, ou as derrotas, pudessem ser averbadas individualmente a este militante, àquela dirigente, ou aqueloutro apoiante.
Quanto ao resto... a paciência é revolucionaria e o adversário permanece exatamente o mesmo: a mesmíssima política de direita. Se o espectro político parece ter mudado de cor, como a imagem aí em cima ilustra, isso não passa de um efeito especial, da aplicação de um “filtro” diferente, de uma manipulação de imagem... ou, se quiserem, de uma simples ilusão de ética, perdão... ilusão de ótica.

Angela Merkel - Regressando à vida real...


Esta mulher é a melhor cara que a Alemanha consegue para se fazer representar. Ter como representante uma figura como Angela Merkel é só por si o retrato do estado a que aquele país chegou. A mulher (e o seu partido) andam de candeias às avessas com o eleitorado, deitando mão a tudo o que lhes possa dar algum “conforto”... nem que tenham que recorrer aos pepinos.
Atendendo ao tipo de eleitorado que a apoia, a direita mais reacionária e que, em boa parte, ainda vive as fantasias alucinadas e nazi-fascistas da “raça superior”, uma cartada que produz sempre algum efeito é o apelo ao mais rasteiro racismo e à xenofobia. Nesta aposta no “ódio aos estrangeiros”, já nem se contentam em odiar os imigrantes que por lá são obrigados a viver e trabalhar. Agora apontam o seu ódio aos estrangeiros, mesmo que eles estejam nos seus países... e sobretudo se forem “do sul”. Para aquele tipo de alemão, os países “do sul” são lugares que servem apenas para se apanhar algum sol durante as férias ou a reforma... e que deviam ser habitados apenas por gente que lhes confecionasse as refeições, fizesse as camas dos hotéis e lhes fosse levar bebidas frescas às esplanadas (e alguns miúdos aos quartos).
Daí esta necessidade doentia de marrarem nos trabalhadores dos países do sul. “São gente que trabalha pouco, são gente que tem feriados a mais, são gente que tem férias a mais, são gente que se reforma mais cedo.”
Já se tinha visto que tudo isso é mentira; fossem os feriados, fossem as férias, fosse a idade da reforma. Agora, para reforçar a ideia, chega mais um estudo que mostra a diferença (entre outras coisas) do volume de horas de trabalho anuais dos trabalhadores alemães e dos tais europeus “do sul”. Resultado: os alemães trabalham visivelmente menos que todos esses “mandriões”.
Os vários números são claros, mas deixo aqui apenas a diferença das horas de trabalho médio anual de um alemão, 1390 horas, e um trabalhador português, 1719 horas.
Numa coisa, pensando bem, tem a "frau" Merkel razão. Na verdade, um trabalhador português passa cerca de 1390 horas (como os alemães) a trabalhar para ganhar a sua vida, com a dificuldade que se conhece. As restantes mais de trezentas, até perfazer as 1719, passam-nas a trabalhar diretamente para os alemães e para os seus bancos.
E temos, desgraçadamente, governantes que gostam disso! Governantes que tudo fizeram para que assim seja, que tudo farão para que assim continue!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Luís Amado - Ainda o funeral vai no adro...


A presença de Luís Amado no PS tem tudo para parecer um erro de casting. Apesar da deriva de direita (mais uma) que o partido sofreu às mãos da camarilha (bela palavra!) de José Sócrates, Amado estaria muito mais bem integrado no “meio ambiente” se militasse no PSD, ou mesmo no CDS.
Mesmo assim, é extraordinária a forma como ainda há poucas horas participava na campanha do PS, tecendo elogios a Sócrates, para agora, quando o “cadáver político” do primeiro-ministro ainda em exercício nem sequer arrefeceu... já vir dizer que o país precisa é de «um choque liberal», em linha com o que se está fazer na Europa e pela mão de governos de direita. Estará realmente à espera de algum lugar... algures...?
Seja como for... é apenas mais uma pincelada na aguarela que retrata a estirpe de ratos que está a ser expulsa do poder para ser substituída por outra estirpe alegadamente “renovada”, numa espécie de interminável e “alternante” corrida... o que me lembra uma célebre frase de uma figura antiga de Hollywood: «O problema nas corridas de ratos é que o que chega em primeiro lugar... continua a ser rato!»

Pós-reflexão


Aqui numa conversa entre mim e eu próprio, diria que não tenho motivos para festejos. A hecatombe do PS pouco me alegra (mesmo sendo mais que merecida); a copiosa derrota do BE foi cavada por eles próprios e está longe de ser coisa que me anime; o facto de quase metade dos eleitores não se dar ao incómodo de querer saber (nalguns lugares, bem mais de metade!), é profundamente desanimador; a consolidação dos meus amigos da CDU (à hora a que escrevo parece-me que até com algum reforço), sendo obviamente motivo de satisfação, não é, como já disse, razão para grandes festejos.
Então, sendo assim, porque dianho é que estou com este meio sorriso que persiste em desenhar uma ténue linha ascendente de um dos lados da boca?
Primeiro, porque desta vez é que é! Sócrates sai de cena e é legítima a esperança de que a mentira passe, gradualmente, a ser exatamente e apenas isso, mentira... e não "pontuação" nos discursos oficiais do primeiro-ministro.
Segundo, porque estes figurões que chegam... e nalguns casos, voltam ao poder, dirão ao que vêm, governarão à direita... mas sem dizerem que são de esquerda; aplicarão as medidas recessivas e imporão os sacrifícios aos trabalhadores, enquanto enchem os bolsos dos amigos... mas sem se proclamarem defensores do estado social; tentarão destruir a nossa Constituição de Abril, tentarão desregulamentar e precarizar ainda mais o trabalho, liberalizar os despedimentos, privatizar tudo o que o capital cobice, atacar a saúde e o ensino públicos... mas, para meu grande alívio, farão tudo, tudo isto, exatamente como o governo de José Sócrates já fazia... mas sem se dizerem socialistas!
Uma coisa podem ter por certa: contarão com a firme oposição daqueles que sempre estiveram (e estarão) na disposição de a fazer. Onde quer que estejam. Na Assembleia e fora dela.
...mas isto sou eu a falar com os meus botões.

domingo, 5 de junho de 2011

Os eunucos - Não matam os tiranos pedem mais



Já que sei como o fazer... poderia ter optado pela montagem de um vídeo carregado de “pistas” e ligações visuais, num desfile de dezenas de imagens da nossa atualidade política, capazes de ilustrar cada frase e cada ideia desta velha canção do Zeca... mas não!

Prefiro que vocês a ouçam e ilustrem com imagens da vossa própria cabeça a terrível atualidade desta canção já com quarenta e um anos, fazendo de “banda sonora” deste dia que, diga o que disser a meteorologia (e apesar de algumas boas “abertas”), será um dia cinzento.

Melhores dias virão!

Os eunucos
(José Afonso)

Os eunucos devoram-se a si mesmos
Não mudam de uniforme, são venais
E quando os mais são feitos em torresmos
Defendem os tiranos contra os pais

Em tudo são verdugos mais ou menos
No jardim dos haréns os principais
E quando os mais são feitos em torresmos
Não matam os tiranos pedem mais

Suportam toda a dor na calmaria
Da olímpica visão dos samurais
Havia um dono a mais na satrapia
Mas foi lançado à cova dos chacais

Em vénias malabares à luz do dia
Lambuzam da saliva os maiorais
E quando os mais são feitos em fatias
Não matam os tiranos pedem mais.

“Os eunucos” – José Afonso
(José Afonso)