(Imagem do jornal “A Bola”)
Um dos encantos das crianças é a ausência de filtros nas suas conversas e brincadeiras, ainda virgens que estão da tirania das convenções e normas de conduta. Na idade adulta essa ausência de filtros raramente tem graça e apenas é justificada nalguns milhares de cidadãos... mas todos com excelentes explicações do foro clínico. Não é o caso de Mário Soares! Esse está a perder toda a capacidade de filtrar aquilo que diz, como resultado da degradação irremediável do filtro principal de todo o sistema, que no caso dele, sempre funcionou de forma deficiente: a vergonha.
Como complemento ao longo rol de “semvergonhice” com que nos tem brindado ao longo da longa vida, há dias vimos Soares numa peça televisiva, na companhia do seu dileto amigo Frank Carlucci, os dois entrevistados por um Mário Crespo baboso e rindo alarvemente de satisfação por estar a entrevistar ao mesmo tempo o fundador do PS e o seu parceiro da CIA, cúmplice e financiador da traição ao 25 de Abril.
Questionado sobre os seus encontros semanais com Carlucci durante o “verão quente”, na Embaixada dos EUA, Soares carregou mesmo nas tintas, dizendo que a coisa chegou a ser «várias vezes por semana», acrescentando, como uma nota ilustrativa do carácter muito “dado”, aberto e popular do agente da CIA, o facto de este, nessa época, «até jogar ao ténis com o Otelo» (com que finalidade seria?!)
Agora, há apenas dois dias, inaugurou a rubrica “QI”, uma colaboração entre o jornal “i” e o canal de televisão por cabo “Q”. Foi entrevistado pelo diretor do canal (e das Produções Fictícias), Nuno Artur Silva e pela diretora do jornal, Ana Sá Lopes. Podem ler a entrevista aqui, embora esteja muito resumida, em relação à versão falada da televisão.
Num dia mais pachorrento teria ouvido a entrevista na íntegra; não sendo o caso, fui ouvindo excertos, entre “zappings”. As “pérolas” foram várias... mas destaco apenas três, citando mais ou menos de memória:
Discorria Soares sobre que, o mal da Europa e de Portugal é terem chegado ao poder aqueles que se inscreveram nas “juventudes” partidárias e vieram para a política para enriquecer e não pelo sentido de serviço público.
- E o senhor, ao longo da sua carreira, sobretudo quando estava no poder, era capaz de, apenas numa conversa, distinguir uns dos outros?
- Sabe, o que acontece é que no meu tempo não havia disto... os grandes políticos, no meu tempo, eram todos honestos...
(Espantosa, esta facilidade com que Soares esqueceu tanta, tanta gente, como por exemplo o seu grande amigo do PS italiano, Bettino Craxi, ou os seus amigos e companheiros de Macau, ou...)
- Sabe... a História da nossa democracia divide-se em vários momentos. Houve a “Revolução dos Cravos”, de que continuo um grande adepto (confesso que “adepto”, nunca tinha ouvido) e depois veio logo aquele período muito conturbado... sabe... se o secretário geral do PCP fosse o Santiago Carrillo (do PC espanhol), em vez do Álvaro Cunhal... não tinha havido todo aquele “problema”...
(Acredito bem que não! Acho mesmo que hoje nem sequer existiria o próprio PCP, que toda a gente sabe que é um grande “problema”)
- O senhor, apesar de agnóstico, ficou conhecido por, nessa época, ter feito vários acordos com a Igreja Católica...
- Acordos não! Eu conspirei ativamente com a Igreja e com o D. António Ribeiro, o Cardeal-Patriarca de Lisboa. Se o D. António não tivesse dado instruções aos sacerdotes para dizerem nas missas que era conveniente os cristãos comparecerem na nossa manifestação da Fonte Luminosa, nunca teria sido possível juntar uma multidão tão impressionante, que fez cair... ou melhor, inverter o rumo dos acontecimentos no nosso país...
E agora digo eu: Fantástico, não é? Como vimos no princípio deste texto, as crianças e os doidos têm as “desculpas” que já conhecemos; qual será a desculpa deste figurão?