quinta-feira, 28 de maio de 2009

António Gedeão - Porque sim...



Raramente se terá escrito um texto tão claro, tão simples e tão certeiro, contra essa aberração que é o racismo. É António Gedeão no seu melhor, trazendo a grande poesia para as coisas aparentemente vulgares do dia a dia.

Para além da leitura, podem ouvir uma das versões cantadas destes versos. Escolhi a que é, talvez, menos conhecida, na voz cristalina do Duarte Mendes, meu companheiro na aventura do disco colectivo de 1973, “Fala do Homem Nascido”, inteiramente dedicado à poesia de Gedeão musicada por José Niza, de que esta canção faz parte.

Bom fim de tarde!


Lágrima de preta
(António Gedeão)

Encontrei uma preta
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado

Olhei-a de um lado
do outro e de frente
tinha um ar de gota
muito transparente

Mandei vir os ácidos
as bases e os sais
as drogas usadas
em casos que tais

Ensaiei a frio
experimentei ao lume
de todas as vezes
deu-me o que é costume

Nem sinais de negro
nem vestígios de ódio
água (quase tudo)
e cloreto de sódio.


12 comentários:

Fernando Samuel disse...

Obrigado pelo belo fim de tarde.

Um abraço.

Justine disse...

Era mesmo isto que eu precisava hoje, amigo, nem tu imaginas! Obrigada:))

Maria disse...

Apenas o melhor disco que se fez neste país antes do 25 de Abril. Na minha modesta opinião, é evidente.
Obrigada por tanto, hoje.

Abreijo

Swt disse...

Muito bom!

Cris disse...

Sam
Essa foi na veia.
Um abraço forte.

Ana Camarra disse...

Uma pequena maravilha e consigo ouvir-te a cantar...

beijos

gabriela disse...

Sempre belo, muito belo!
Obrigado

GR disse...

Lindo!
Há muito não ouvia esta canção.
A letra sempre actual.

GR

Anónimo disse...

Ouvi o Samuel a cantar este lin do poema, há dias em Palmela, parabens amigo

anamar disse...

Para mim, foi um bom fim de noite...
Obrigada Samuel!
Abreijo

Ana Martins disse...

Que coisa tão bonita! Há muito que não a ouvia!
Que bom despertar!

samuel disse...

Abreijos colectivos!