terça-feira, 23 de junho de 2009

Michelito - A morte a metro






Existem temas em que gostaria de ter a capacidade de me manter equidistante das várias partes. Aproveitando, mais uma vez, para esclarecer que estar “equidistante” não é estar “longe do cavalo”, acrescento que o fenómeno das touradas é um desses temas. Gostaria de poder acreditar que os animais não sofrem miseravelmente e que mais alguma coisa, para além do gosto de ver sangue, leva pessoas aparentemente pacíficas a ir às as praças. Infelizmente, não consigo!

Mesmo assim, faço os possíveis para que a actividade tauromáquica me seja totalmente indiferente. Estórias como a deste miúdo franco-mexicano, Michelito (11 anos), vêm, de vez em quando, estragar-me esse possível distanciamento.

Conseguir proibir o miúdo de tourear em Portugal é tão compreensível como discutível, as ameaças feitas aos dirigentes da ANIMAL são “típicas” de uma certa maneira de estar na vida... já a intenção de um dos adultos que exploram o miúdo, neste caso, o seu empresário, de mover um processo à Comissão de Protecção de Crianças e Jovens, por esta, no seu melhor entendimento das suas obrigações, ter tentado defender o menor Michelito, parece-me passar um pouco as marcas.

O mundo das touradas é muito complexo, envolve muito dinheiro e, por outro lado sentimentos tão ligados aos instintos básicos, que é do mais elementar bom senso tentar entender os seus protagonistas, antes de lhes colar rótulos apressados.

Mesmo assim, gostaria que alguns daqueles sempre prontos a sacar de um papelinho com os nomes dos grandes pintores e grandes escritores que foram ou são conhecidos aficionados da “festa brava”, sendo que alguns até já sabem recitá-los de cor e outros, embora menos, conhecem-nos bem desde o “berço”, gostaria, como ia dizendo, que me dissessem que raio de arte e beleza é que conseguem vislumbrar no facto de um miúdo de 11 anos matar 6 touros num só dia, com o único objectivo de passar a figurar com esse “feito” inútil e gratuito, no “Guiness Book of Records”, essa espécie de imenso paraíso da imbecilidade.

12 comentários:

Pisca disse...

O gostar ou não de touradas é algo que não discuto com ninguém, eu gosto e pronto, poderia escrever uma série de coisas mas não estou para isso.

Não concordo é com o facto de existir a exploração dos pequenos génios, não me vou restringir às touradas, alargo-me muito mais, a todos os que são "formatados" para serem génios, pequenos futebolistas, pianistas, violinistas, cantores, toureiros, matemáticos e por aí fora.

Todos os que por desvario dos progenitores são acorrentados a uma arte para a qual têm algum talento, mas onde os responsáveis (serão ?) acham que exibindo o rebento podem recolher assim os mais diversos frutos, noutros casos dar azo à sua frustação.

Sobre a Animal, por favor se há algo que me provoca urticária é o ar desvairadamente acusador e inquisidor de um tal Moutinho, para quem qualquer mosca em que se toque, mesmo que tenha caído na sopa, se torna um crime de "lesa-majestade", o Obama que se cuide.

Cada coisa tem o seu lugar e para mim grave é quando queremos impor a nossa moral, como a unica moral possível.

Maria disse...

Eu hoje abstenho-me. Porque gosto de toiros e de touradas...

Abreijos

Anónimo disse...

Eu também gosto de toiros cavalos burros, vacas éguas e burras e etc. e tal..!

Todavia, procuro entender.
E entendo que se pode tourear, cavalgar e emburrar e etc e tal,sem ferir, sem fazer sangue, sem por em causa a moral enfeitada ao longo dos milénios...

Tem onze anos este mini-toureiro como outros que aparecem nos ecrans da televisão tratados como pessoas de teatro, da bola e etc. e tal.

Começo, só agora, e com setenta e tal anos,a perceber da caricatura que uma criança de 11 anos parece preencher em certos canais de tv a jogar ao dinheiro,passando por apresentador.

Além desses apresentadores, cavaleiros, toureiros e actores juvenis, Há-os também jogadores de bola.

Estes últimos, ou todos eles, atém tem escola onde apanham os primeiros passos da ginga-joga onde por vontade dos pais e "amigos" poderão vir a ser profissionais..!

Até as selecções desportivas, principalmente, as do futebol conseguém fazer passar a portuguesidade a outros esteios, como se a Portuguesa seja de se dar e vender.
Desculpa meti esta por que acho uma sensaboria do capital.

Contudo, é caso para pensarmos...

Abraço do "Catraio"

Sílvia MV disse...

Raramente sou radical, mas admito, fervo(!) quando me deparo com qualquer tipo de injustiça, seja para com os Homens seja para com os animais. Trabalho de perto com animais há anos, formei-me na área, e garanto que o stress e sofrimento são condições inerentes quer ao ser humano quer aos animais! Não me vou alongar em muito mais, pois não consigo a equidistância, ao tema, do Samuel... de qualquer modo imaginem como seria estarmos numa arena sob uma perseguição absurda de cavalos e cavaleiros a tentar esgueirar-se numa luta pela sobrevivência! Ou estarmos atados por cordas e ter uma multidão a provocar-nos, a incitar-nos a ira, a escarnecer de nós...
bjs,
Sílvia MV

Ana Martins disse...

Pode ser uma limitação cultural minha, mas não gosto e não percebo como se gostas de touradas.
Mas acho que é só porque não gosto de violência gratuita.
Para dizer a verdade também não gosto da Animal...
Enfim...

cetautomatix disse...

Sempre me fará estremecer por dentro saber que há pessoas estimáveis, de quem se gosta muito, que gostam de touradas. Espero que elas tenham consciência disso e me dêem o devido desconto.
Já agora, também não aprecio caricaturas quando elas não se destinam a demonstrar, assumidamente, o ridículo: o Vitalino Canas, a Animal, o Luis Filipe Menezes, o Manuel Goucha, sei lá.

gabriela disse...

Estou de acordo com o teu texto.
Sou contra a exploração infantil seja em que modelo e está tudo dito!

São sempre Horas De Dizer que disse...

Os toureiros e forcados Portugueses são todos mariconsos. Senão, porque serram os cornos ao toiro?
Em España é que é.

Daniel disse...

Em Portugal só se pode começar a trabalhar aos dezasseis anos. E, agora, vai ser obrigatório estudar (?) até aos dezoito. E aprender uma profissão, quando começa? E há a velha questão de saber se a arte é trabalho ou não. Mas matar toiros com seis anos?... Ou matar seis toiros num dia, com onze anos?...
Samuel, eu não chamaria ao Guiness Book um paraíso de imbecilidades, mas um inferno da inteligência.

Lúcia disse...

'...sentimen tos tão ligados aos instintos básicos...'. Houve muito que deixaram de ser 'tradicionais' porque as mentes evoluiram. Nas touradas, é o que se vê. Qtº ao miúdo... enfim... uma tristeza!

Fernando Samuel disse...

Subscrevo integralmente o teu texto.

Um abraço.

samuel disse...

Pisca:
Claro que ter opinião sobre as coisas, mesmo que veemente, não implica a imposição de nada a ninguém, muito menos “moralidades”...
E sim, espectáculos patéticos como, por vezes, organizações de defesa disto e daquilo dão em público, estão longe de ajudar as causas que afirmam defender.

Maria:
Olé... mas mesmo não gostando de tourada, sendo que há várias graduações nos níveis desse não gostar, relativos aos vários elementos do espectáculo, o post era mais sobre o cachopo...

Catraio:
Era exactamente esse o objectivo do reparo... pensarmos.

Sílvia MV:
Sou equidistante quanto aos adeptos ou não adeptos... apenas por feitio pessoal. Quanto ao sofrimento dos animais, tenho sentimentos bastante fortes... apenas um pouco “apaziguados” quando sou informado de que, em alguma praça de touros por aí, mais um touro “ganhou” a luta, mesmo partindo para ela em tão grande desvantagem.

Cetautomatix:
É por aí... ☺ ☺

Gabriela:
E é importante ser!

São sempre Horas...:
Tanto não direi... mas que os deve haver, deve, já que a estatística não perdoa! ☺
Quanto ao serrar das pontas dos bichanos, sabendo-se da tendência destes para acertar as cornadas quase sempre nos mesmos “sítios”, não admira o receio...

Daniel:
Trabalho é trabalho... mesmo assim haverá nuances entre tocar violino, participar num anúncio da Cerelac, passar horas por dia a fazer telenovelas... ou fazer aquilo que este miúdo faz.
Inferno da inteligência... gosto muito! ☺

Lúcia:
Quando começam a apelar para a tradição é que está o caldo entornado. Se vivêssemos segundo todas as “belas tradições” dos nossos antepassados...

Fernando Samuel:
Ora aqui está um comentário “descansativo”! ☺ ☺


Abreijos colectivos!