domingo, 14 de junho de 2009

Para uma melhor compreensão



Ontem, dia 13, fez quatro anos que Álvaro Cunhal nos deixou fisicamente. Hoje, dia 14, Ernesto “Che” Guevara completaria 81 anos de vida.

Qualquer um deles, anos depois do seu desaparecimento, continua a ameaçar “contagiar” (cada vez mais) jovens, aqui como em todo o mundo, com algumas das suas ideias, sonhos, convicções, mas sobretudo com o notável exemplo de entrega que foram as suas vidas.

Em todas estas datas correm rios de tinta em textos que ressumam ódio. Comentadores que quase todos os dias do ano tentam parecer exemplos de uma “direita civilizada e inteligente” (e, infelizmente, também muitos outros...), perdem totalmente a compostura e transformam-se em verdadeiros hooligans.

Temos que os compreender. Para qualquer dos mandantes deste sistema capitalista mais ou menos selvagem, mais ou menos incompetente, que vão governando o mundo, tal como para os seus fiéis criados, a simples ideia de ver um jovem estudante ou trabalhador ser “infectado” pela vontade de fazer alguma coisa na vida, pequena ou grandiosa que seja, movido não por interesses egoístas, mas pela convicção de que essa coisa está certa, deixa-os aterrorizados. A simples ideia da construção de uma sociedade em que se valorize mais a qualidade de vida e a solidariedade do que o sucesso a qualquer preço e a competição, deixa-os num estado de pânico indisfarçável. Um mundo amante da liberdade para todos, proporcionada pela justiça social, em vez da liberdade para alguns, proporcionada pelo lucro... tira-lhes completamente o sono.

Daí o ruído rouco das goelas, o pelo eriçado, o brilho das presas, o ódio cego nos olhos.

Como disse, temos que os compreender... para melhor lhes darmos luta!

22 comentários:

ComRevDe disse...

Grande post.

A vidas do Camarada Álvaro Cunhal e de Ernesto Che Guevara foram um exemplo de vontade revolucionária, de não se conformar com as injustiças e lutar por uma vida melhor para todos. O que já ganhei por experiência própria é que um comunista que exponha as suas ideias a alguém que não partilha da nossa ideologia, essa pessoa fica como que...incomodada, porque encontra em nós alguém diferente, um objectivo de vida que passa para além do «o que eu quero é o meu».

É esse espírito de Cunhal e de Che Guevara que carregamos para melhor lutar hoje e amanhã

salvoconduto disse...

Quando a Europa resvala para a direita mais se faz sentir a falta de pessoas como essas.

Abraço.

Maria disse...

Exactamente!

Abreijos

Sal disse...

Depois de conhecermos a vida e o exemplo de AC é impossível aceitar quem à nossa volta anda distraído,ou quem baixa os braços, indiferente, ou simplesmente se diz demasiado cansado ou ocupado para vir connosco para a luta.
Não aceito.

Vamos lá!

bjs

anamar disse...

Dia comovente o da partida de Cunhal!E, o estar distante , aumentou mais a minha emoção!
Obrigada pela lembrança!
Abracinho

Hilário disse...

Cunhal está presente e estará sempre no nosso meio.
A luta continua!
Abraço

Nunes disse...

Uma mensagem perfeita. Também, concordo com ComRevDe. Este espírito tem semelhança com o exemplo dos irmãos Gracchus da républica romana; com a consciência e coragem revolucionária de homens como Robespierre e Saint-Just na revolução francesa; este espírito também se encontra presente em nomes como Patrice Lumumba e Salvador Allende.
O espírito permanece vivo entre os que lutam, portanto, a meu ver, Álvaro e Che não morreram. Estão vivos e a mensagem que passaram ao Samuel foi precisamente: "...temos de os compreender... para melhor lhe darmos luta!"

P.S. Conforme prometido, deixo-te noutro post, as linhas escritas por Che Guevara, do Diário da Bolívia, que consegui retirar de uma 1.ª edição publicada em Havana em 1968, neste dia 14 de Junho. Gosto da parte em que diz: "estoy «entero»"

Nunes disse...

“Pasamos el día en la aguada fría, al lado del fuego, esperando noticias de Miguel y Urbano que eran los chaqueadotes. El plazo para moverse era hasta las 15 horas, pero Urbano llegó pasada esa hora a avisar que se había llegado a un arroyo y que se veían piquetes, por lo que creía que podría llegar al Río Grande. Nos quedamos en el lugar , comiéndonos el último potaje, no queda más que una ración de maní y 3 de mote.
He llegado a los 39 y se acerca inexorablemente una edad que da que pensar sobre mi futuro guerrillero; por ahora estoy «entero».
h-840.”

Ernesto Guevara de la Serna, Diario de Bolivia

Pata Negra disse...

Não vão conseguir desfazer-se deles facilmente. Uma palavra deles vale mais que uma biografia de um qualquer pacheco.
Um abraço de boa memória e de boas referências

SMV disse...

O Álvaro foi e será a sempre uma inspiração maior para mim. Cativou-me desde cedo e ainda hoje, volvidos uns anos, reitera-se em mim a convicção de que a luta e o caminho que se faz ao encontro de ideais que enalteçam e dignifiquem a condição humana, é a "opção" certa, na verdade é a única escolha possível.
Em mim, sei que ele nunca partirá.Nem tantos outros que deram a sua vida para que este fosse um mundo melhor.
SMV

Fernando Samuel disse...

O Álvaro,lembrei-o ontem, com um poema de Papiniano Carlos.
Para o Che, escolhi Miguel Barnet e Eugénio de Andrade.

Um abraço.

Jeremias disse...

O tempo não pára, mas o legado de Álvaro Cunhal não tem tempo foi um grande pensador do futuro, a luta continua!

Anónimo disse...

Para além de Álvaro Cunhal, em 13 de Junho de 2005, naquela semana deixaram-nos também:


Vasco Gonçalves em 11 de Junho de 2005

“Militar de Abril e primeiro-ministro de vários governos provisórios, o General Vasco Gonçalves foi fiel intérprete dos ideais de liberdade, de justiça social, de solidariedade, de fraternidade - dos ideais de Abril”


Eugénio de Andrade em 13 de Junho de 2005

“Poeta fundamental da expressão literária do Portugal contemporâneo, Eugénio de Andrade foi também uma inteligência crítica e interventora, um cidadão empenhado e atento à realidade do seu povo e do seu tempo, ao mundo e à paz, ao Portugal de Abril e à liberdade”


Corino de Andrade em 16 de Junho de 2005

“Intelectual e homem de ciência, Corino de Andrade assumiu-se coerentemente como um democrata consequente na resistência ao fascismo ao lado de intelectuais do Porto como Abel Salazar, Ruy Luís Gomes, Armando Castro, Virgínia Moura e Lobão Vital, intervindo em vários e importantes momentos da luta da oposição democrática em Portugal”

Miguel Jeri disse...

Corino de Andrade foi o fundador, juntamente com Nuno Grande, da minha faculdade. Reconhecido tanto pela sua faceta humanista como pela sua grande competência científica.

http://sigarra.up.pt/icbas/web_base.gera_pagina?p_pagina=2438

Um abraço

SENSEI disse...

Dia 10 de Junho, pelas 11:00 horas, visitava eu a prisão de Peniche, aberta a quem quiser ver.
Senti no ar, a dor e o sofrimento que aquelas paredes, ainda que repintadas e recuperadas, têm dentro delas. Senti durante toda a visita um aperto no peito, um nó na garganta, uma vontade imensa de chorar. Normalmente não me é fácil chorar, contenho com alguma facilidade a tristeza que me vai no coração, mas senti o peso daquelas paredes, o que elas têm para "gritar", o que elas sabem que todos desconhecemos, o que viram e assistiram, o que se passou dentro delas, ali mesmo, ali nos mesmos lugares que eu agora livremente pisava e estava a calcorrear.
As cartas escritas em micro folhas com micro letras.
As esculturas em sabão, pão, seixos, o tempo que ali não contava, porque era sempre o mesmo, era como que viver num corpo morto, preso, preso por apenas querer uma sociedade justa e livre para todos.
Vi a cela de Álvaro Cunhal, do António Dias Lourenço, vi os desenhos do Álvaro e de todos os camaradas que comungavam ideologicamente, assim e como consequência do mesmo purgatório.

Não tenho palavras para exprimir o que ia sentindo em cada olhar que dedicava a cada documento, a cada cela, a cada trabalho manual, a cada explicação dada por quem lá esteve e viveu tal inferno.
Mescla de fúria, revolta, tristeza, ódio, amor, ia tocando aquelas paredes, entrei no palratório, falei, a minha voz ecoou, como que ampliada, não havia qualquer privacidade com os ente queridos que os visitavam, contam que a comida era podre, essencialmente composta por gorduras e sebo, numa mescla nojenta, sem qualquer sabor de agrado, apenas entre o vómito e a fome, reinava cada refeição, era preciso subsistir, continuar a lutar, não ceder.
Saí, já não aguentava mais, se alguém tivesse o mau gosto de comentar algo sem senso, acredito que agiria sem estar em mim, tal era a revolta.
Mas acredito que os nossos jovens, todos eles deveriam por lá passar e ver, ver aquilo que muitos dizem ter sido o 25 de Abril um mal para Portugal.
"Para que a memória não se desvaneça, o futuro precisa conhecer a verdade"

Ouss

Estafermococus disse...

Muito bom. E sim, a luta continua.

Ana Camarra disse...

Samuel

Sabes o que os torna tão especiais?!
Foi essa razão do seu lado, a razão de que não pode um ser humano oprimir outros, que o bem estar de alguns não pode assentar na eterna miséria dos seus iguais.
Por isso deram a vida, sem deixar de ama-la, talvez porque amavam tanto.

Beijos Grandes
(Eu sei que sabes!)

pintassilgo disse...

Estes são os Nomes...

Lúcia disse...

Sabes? Ouço kais quem distinga esta gente do que quem os 'infernize'.
Diferentes, mas 2 figuras giagantes!

Li agora os posts que tens para trás (ando sempre atrasada, utlimamente)
Praia para te adocicar o feitio e fazer bem às maleitas? Consolação, em Peniche. Aquilo é só rocha. Mas é onde nos querem deitar. Assim, como assim, vais por opção!

E parabéns: atrasados, atrasadíssimos, pelos 1000. Apesar de não picar o ponto todos os dias, este cantiguero é uma referência importangtíssima para mim. E lembro-me de ti, Samuel, das tuas cantigas, era eu miuda (tenho 37 agora) a cantar na TV, qdº havia 2 canais, tinhas barba forte e cabelo por todo o lado!
Agora vejo-te por aqui com muito, muito gosto!
~
Beijos e continuação - todos ganhamos:)

José Luis Simões disse...

Contrastes. Dias antes 9 de Junho realizou-se uma Tertúlia no Casino da Figueira cujo orador foi essa figura do fascismo que se dá pelo nome de Adriano Moreira, moderada por Fatima Campos de Lima
Na assitência a Filha de Caetano e uns não sei quantos almirantes e generais saneadoas pelo 25 de Abril. Camaradas só para quem viu 125 minutos a evocar Salazar o fascismo e seus lacaios.
Isto aconteceu no Casino da Figueira uma empresa que despede arbitrariamente trabalhadores que façam frente à administração.

GR disse...

Foi uma semana de um mesmo mês que ninguém esquece.
Um golpe, logo após outro e mais outro.
As lágrimas deram lugar a uma dor silenciosa e estranha.
Para o golpe cicatrizar, lutamos.
Para a dor parar, lutamos!
Foi assim que nos ensinaram o caminho, foi assim o exemplo que AC e VG nos deixaram.
A Luta continua!

GR

samuel disse...

Grande abraço!