quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Federico Garcia Lorca (1898-1936)


No ano passado, exactamente neste dia 19 de Agosto, escrevi aqui um post sobre Lorca. Este ano não me lembraria de o fazer, não fosse o post d' “O cheiro da Ilha”, onde a Maria publica exactamente o mesmo poema de Lorca de que se serviu há um ano para comentar o que escrevi.
É um excelente pretexto para repetir, palavra por palavra, imagem por imagem, o que publiquei então, mudando apenas o vídeo final, desta vez “Chove en Santiago”, igualmente de Lorca, musicado pelos Luar na Lubre e cantado pela voz de veludo da que era até há pouco tempo a sua cantora.

Retrato do jovem Lorca, no documento de entrada na Universidade, em que se pode ver a sua juvenil assinatura, que a vida e um intenso contacto com as artes viriam a transformar nesta:
“Adivinha da guitarra”

Na redonda 
encruzilhada,

6 donzelas
bailam.

3 de carne
e
3 de prata.

Os sonhos de ontem procuram-nas

porém têm-nas abraçadas

um Polifemo de ouro.

Ai!, guitarra!
(Federico Garcia Lorca)

Lorca é a grande poesia, a voz que vem do mais fundo de uma Espanha culta e a transbordar de História, é o grande teatro representado em milhares de palcos por todo o mundo. Já faz parte dessa entidade vibrante e inexplicável que dá vida às danças e ao “cante” a que os espanhóis chamam “duende”.
Em 19 de Agosto de 1936, Lorca era um jovem adulto com 38 anos de idade. Já se tinha afirmado como grande poeta, grande dramaturgo, praticante de música, pintor e desenhador compulsivo. Era um amante da liberdade, do seu povo, da sua cultura e um defensor do socialismo, tudo coisas ofensivas para os fascistas espanhóis.



Em 19 de Agosto, em Granada, um dos membros da matilha de Francisco Franco, com a lucidez assassina que guia as feras, declarou “Ele é mais perigoso com a caneta do que muitos com o revólver!” e deu ordens para a sua execução, sem qualquer acusação ou julgamento, com um tiro na nuca.
A onda de revolta contra esse crime abjecto, que percorreu o mundo nessa altura e a presença constante que a obra poética e teatral de Lorca mantêm no mundo da cultura até aos dias de hoje, mostram que efectivamente, o assassino “tinha razão”...

"Ay qué terribles cinco de la tarde!
Eran las cinco en todos los relojes!
Eran las cinco en sombra de la tarde!"
(Lorca - Excerto de “La cogida y la muerte”)

"Chove en Santiago" - Luar na Lubre
(Federico Garcia Lorca / Luar na Lubre)

9 comentários:

Maria disse...

Lá tenho eu que ir ver o teu post de há um ano...
Estes neurónios já não são o que eram...
:)
Escolhi o Verde porque me lembrei muito do concerto do Patxi este ano no Tivoli... e há 2 anos no Coliseu.

abreijos

Maria disse...

Acho que não tenho ainda os neurónios completamente acordados...
Mas o importante mesmo é lembrarmos Garcia Lorca.

abreijos

Carlos Machado Acabado disse...

Não se importam que eu meta aqui uma "colherada"?
Para lembrar um outro grande Poeta espanhol que, por razões várias, tem vivido sempre mais ou menos, de um modo ou de outro, na sombra (invejável sombra essa, aliás, mas sombra, ainda assim!...) do grande Federico: António Machado.
Machado cantado por Serrat.
Vale a pena, ham?...
É outro modo de ser espanhol, o de Machado: menos verbalmente 'cintilante', sob diversos aspectos, com certeza mas, de igual modo, arrebatador e esplendoroso, nos seus melhores momentos---e são inúmeros.
Prodigiosamente amargo.
Aliás, o próprio Machado fala, a dado passo, ele próprio de "duas Espanhas".
Não aquelas que ele e Lorca, de alguma forma, deram uma voz e um rosto mas "duas Espanhas" em todo o caso.
E Machado sabia que uma de elas havia de "helar el corazón" a alguém.
Felizmente, neste caso, não se trata de "gelar o coração" seja a quem for (pelo contrário: trata-se de arrebatá-lo e "incendiá-lo"!) nem é (longe disso!) inevitável escolher, não já "entre Espanhas" mas entre Poetas: são ambos (como Aleixandre ou Espriu, por exemplo, o foram também) grandes Arquitectos da Palavra que é essencial conhecer sem discriminar ou catalogar.

Amando-os pelo que são.

Cordiais saudações!

Daniel disse...

Num dia de 1939, um poeta sublime, que foi pastor de cabras em Orihuela, tentou passar a fronteira portuguesa, fugindo da perseguição franquista. A "zelosa" polícia portuguesa devolveu-o a Espanha. Viria a morrer tuberculoso na prisão, em 1942, mudada que lhe fora a pena capital (ele foi um dos quase duzentos mil contra quem Franco assinou uma sentença de morte)em 30 anos de cadeia.
Lorca é Lorca, um dos mais excelsos poetas de sempre. Machado, que morreu mais de desgosto que de doença ao passar a fronteira para a França, ombreia com ele. Mas Miguel Hernández merece igualmente a nossa imensa admiração e uma espécie de remorso colectivo. Deixo aqui uma pequena amostra (dirige-se à mulher) do seu sentir poético:
Escríbeme a la lucha, siénteme en la trinchera:
aquí con el fusil tu nombre evoco y fijo,
y defiendo tu vientre de pobre que me espera,
y defiendo tu hijo.

Graciete Rietsch Monteiro Fernandes disse...

Adorei este video. Lindíssimo.Também gosto muito do que tenho lido neste blog. Um grande abraço.

Fernando Samuel disse...

Uma homenagem à altura do POETA.

Um abraço.

Manuel Norberto Baptista Forte disse...

Um grande poeta espanhol nascido no Séc.XIX, cuja obra hoje é de referência, quer cantada, quer dita.

samuel disse...

Maria:
Ai estas nossas cabeças!... ☺ ☺ ☺

Carlos Machado Acabado:
O António Machado já andou por aqui. Ainda há-de voltar a andar, tal como o Miguel Hernández...
Os discos que o Serrat lhes dedicou, costumava ouvi-los numa espécie de “sessões contínuas”, pelos meus vinte e tais.

Daniel:
Muito bom!

“Menos tu vientre
todo es confuso.

Menos tu vientre
todo es futuro
fugaz, pasado,
baldío y turbio.”

Graciete Rietsch Monteiro Fernandes:
Ainda bem... obrigado!

Fernando Samuel:
Não me importaria... não me importaria... ☺

Manuel Norberto Baptista Forte:
Um grande, sem dúvida!


Abreijos generalizados!

Carlos Machado Acabado disse...

Que volte, pois, o Machado!
Cá o espero, ansioso, como sempre!...
Como ao Lorca, ao Aleixandre, ao Espriu, ao Miguel Hernandez, ao Alberti, a todos eles: uma certa Espanha que pensava e não apenas com o sangue que ia sendo derramando em volta: que pensava com o seu próprio sangue mas com critério, selectivamente, isto é, derramando-o apenas nos momentos certos...