sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Pobre e triste "milagre"!



Segundo o Jornal Nacional da TVI, o Jornal da Madeira, a Agência Ecclesia e claro, o padre local, o sr. Giselo Andrade, uma espécie de “testemunha” do sucedido, a bonita capela que até aqui existira na Freguesia do Monte foi completamente destruída pela catástrofe que se abateu sobre a Madeira. Disse o padre, «As casas situadas abaixo do largo tragicamente desapareceram. O largo das Babosas ficou irreconhecível. Todos contemplavam incrédulos para este cenário dramático que profundamente destroçava o coração», acrescentando que «miraculosamente, no meio do lamaçal» foi encontrada intacta a imagem da Senhora da Conceição.

Temos portanto um milagre: “nosso senhor”, num prodígio de concentração no meio de um caos total, conseguiu salvar uma boneca que supostamente é uma imagem da sua mãe! Se foi isto o “milagre”, foi um bocado mesquinho... mas temo que não, senhor padre!

Um verdadeiro “milagre”, seria ter-se estragado a “boneca” e terem-se salvo as centenas de casas, caminhos, terrenos de cultura, animais, lojas e, principalmente, as dezenas de vítimas mortais do desastre.

Um verdadeiro “milagre” seria que no meio da tragédia não aparecesse ninguém a vender milagres e o “seu peixe”, aproveitando um momento de ainda maior fragilidade da espiritualidade simples do povo... mesmo que faça passar isso como um sinal de «esperança e consolação».

A consolação há-de vir com tempo... como sempre vem... e da esperança (activa) de que no futuro algo se faça para que uma qualquer intempérie, tão inevitável quanto esta, não tenha resultados tão devastadores, em parte amplificados pela incúria e ganância de uns poucos.

20 comentários:

Maria disse...

Na 'mouche'!!!
Às tantas a capela vai ser reconstruída antes das vítimas terem as suas casas...

Abreijos.

Swt disse...

Oh! Meu caro Samuel! Isto está magistral!

Dylan disse...

De facto, ainda há pessoas que vão nesta beatice...

anamar disse...

Até o senhor comendador Berardo estava impressionado com o assunto... e não é lá muito católico...
Belo texto, Samuel!
Abreijo

Antuã disse...

Esta é, ao lado do futebol, uma grande alienação. Se Jesus por cá passasse chicoteava essa gente que fala em seu nome.

Camolas disse...

É impressão minha , ou sempre que ocorre uma catástrofe natural surge sempre a notícia de uma "santinha" que sobreviveu incólume??

smvasconcelos disse...

Exacto! Se houvesse milagre seria esse: a não existência de vítimas !
beijos,

Méon, disse...

Subscrevo!

O grande problema, contudo, é este: como é que o povo continua a aceitar estas parvoices sacerdotais?
Ainda há pouco vi na TV uma procissão com "a veneranda imagem da senhora de Fátima que veio visitar a Madeira, o que já não fazia há muitos anos", no dizer dos fiéis. E lá iam eles, coitados, a cantar o avé!...

Lembro-me sempre das palavras de Samuel Becket quando, perante o seu ateísmo, lhe perguntaram se não tinha medo de um dia ter de prestar contas a Deus:

« Se me encontrar perante Deus, eu é que lhe vou pedir contas por este mundo que criou!»

Rui da Bica disse...

O "ópio" dos pobres !...
... restará porventura algum consolo espiritual para aquela pobre gente que tudo perdeu e que eu respeito !
Pensarão e ainda bem, que possa sobrar alguma "parte do milagre" para eles também ?
Já o sr Giselo,... (o comentário não dá espaço que chegue)...
.

analima disse...

Este caso é, de facto, exemplar daquilo a que se agarram as pessoas em situações deste género. Resolvi comentar apenas porque acho que escreveu exactamente o que pensei quando ouvi esta notícia que, aliás, tem continuado a estar presente nos telejornais todos os dias. Já terá chegado ao Vaticano?

Graciete Rietsch disse...

"Porque o Povo que é cristão também luta ao nosso lado" ARY DOS SANTOS.
Como é possível acreditar em milagres quando se está perante uma catástrofe daquela dimensão?

Um beijo.

Cloreto de Sódio disse...

O povo continua mesmo na mesma. E há quem se aproveite e incentive manhosamente dessa parolice. É por estas e por outras...

Irlando disse...

A estupidificação continua.

amigona avó e a neta princesa disse...

As tuas sábias palavras são isso mesmo: sábias!
Obrigada Samuel, ler-te é uma delícia...
Abreijos

Fernando Samuel disse...

Em cheio!

Um abraço.

GR disse...

Mais um magnífico texto.
Sem ferires susceptibilidades colocas o dedo na ferida que é grande.
Como gostava de ter sido eu a encontrar a dita…

Bjs,

GR

Isabel disse...

Mais um post cheio de lucidez.
Para mim que estou a viver esta tragédia, ouvindo os relatos dramáticos na 1ª pessoa e a ver os cenários de dor, destruição e morte, esta noticia (se de notícia se trata!) e a repercussão imbecil que teve dada pelos órgãos de comunicação social, encheu-me de uma revolta ainda maior. Que Deus injusto seria este que deixa crianças inocentes morrer e salva uma figura de barro?!Milagre a sério era por fim a este regime que desrespeita o sofrimento dos que tudo perderam e aposta na mais pura das alienações escondendo a verdade e defendendo os interesses obscuros do dinheiro e do poder pelo poder. Por favor, registem bem: esta tragédia cavou ainda mais fundo o fosso que já dividia os madeirenses. Se a pobreza e o risco de exclusão social nos inquietavam, agora temos ainda mais obstáculos derrubar e cada vez é mais urgente um outro modelo de sociedade e de regime político. Não nos deixem cair no esquecimento.

cantinhodacasa disse...

Olá. Vim aqui através do blog da SWT e gostei do que li.
Vi qualquer coisa num dos jornais. Mas os Madeirenses podem contar connosco.
Espero que a solidariedade de todos nós chegue às suas mãos.
Maria

samuel disse...

Per tutti:
Compreenderão que não me estenda em comentários e novos textos sobre a Madeira e a situação que se vive.
A tragédia que se abateu sobre as pessoas, o melindre da religiosidade que envolve sempre estes casos e a sua exploração, somadas ao carácter abjecto do poder que ali é exercido, tornam o terreno um verdadeiro “campo de minas”... e tentações para aproveitamentos.

Abraço colectivo.

Pata Negra disse...

Tb conheço um tipo que encontrou um das Caldas intacto! Milagre, até o c se salvou!
Um santo abraço