segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Sementes do fascismo





De certa forma ajudado pela contribuição de uma das reflexões do “anónimo do Séc.XXI”, não posso deixar de reflectir eu também nos resultados de séculos de poder quase absoluto do dinheiro sobre a vida das pessoas e da formatação das suas mentalidades.

No caso português, por exemplo, quarenta e oito anos de fascismo, seguidos de mais de trinta anos de governos de alguns falsos socialistas e sociais-democratas empenhados em atacar, destruir e fechar quase todas a portas que Abril abriu, resultam na situação de lamaçal político, social e ético em que vivemos.

Produziu um exército de falsos “enganados”, que vão votando sempre nos mesmos, ou que já nem votam sequer, pois habituaram-se ao “eu quero é o meu”, ao “eles são todos iguais”, ao “a minha política é o trabalho”, sendo que, se de algum benefício gozam, é sempre às custas das lutas travadas pelos outros... quase sempre companheiros de trabalho que desrespeitam diariamente, quando não desprezam mesmo.

Produz patéticas manifestações, como a deste fim de semana, juntando protestantes, evangélicos, católicos, militantes de extrema direita e outros que ainda sabiam menos do que estes porque é que ali estavam, todos muito preocupados com a “vida”, a “família” e “deus” (presumo que também com a “pátria), enquanto iam deixando escapar uma ou outra tirada mais carregada de ódio. Este tipo de manifestações, supostamente “movidas a religião”, têm pelo menos um aspecto positivo que é lembrarem-me o quanto esteve certo o miúdo de 14 anos que eu era, ao bater ruidosamente com a porta de uma destas “congregações”... para nunca mais.

De qualquer maneira, a semente de fascismo que mais me impressionou por estes dias, foi a que se instalou e germinou no cérebro de uma quase ex-operária da Delphi da Guarda. Falando para a televisão, à porta da empresa, praticamente certa de figurar na lista de centenas de trabalhadores que vão ser despedidos, produziu, mais palavra menos palavra, esta frase absolutamente obscena:

«Isto aqui já está de rastos. Já não há serviço para fazer. Eles levam tudo para os países onde a mão de obra é mais barata... mas temos que compreender... eu se fosse patroa também fazia o mesmo!»

Desanimar? Não… mas magoa!

13 comentários:

Maria disse...

Também ouvi. E achei que não tinha ouvido bem. É apenas a santa ignorância a funcionar, digo eu...

Abreijos

anamar disse...

È tão recorrente este desabafo, Samuel...
Triste...
Abreijo

oasis dossonhos disse...

Porra! Se magoa! E é por isso mesmo que os tipos são reeleitos e mandam nisto. No fundo, uma parte da populaça adorava ter o chicote na mão. É a barbárie.
Mas resistir aos poderosos e aos pobres de espírito que gostavam de ser patrões é o nosso fado.
A LUTA CONTINUA!

Abraço

Daniel disse...

Samuel, mas essa é a triste realidade. Procura nos teus conhecimentos pessoas que já foram pobres e vieram a enriquecer, e vê como tratam aqueles a quem já foram semelhantes.

Membro do Povo disse...

O que fazia essa senhora à porta da Delphi? Lutava pelos seus direitos, os mesmos direitos que afirmou desrespeitar numa situação alternativa?
Era mesmo uma situação destas que os dominantes sobre os média estavam há espera de mostrar ao país: um trabalhador que concorda com o próprio despedimento em prol do lucro do patronato.

Graciete Rietsch disse...

Infelizmente o fascismo vive ainda bem entranhado na cabeça de certas( muitas) pessoas. Depois há os fascistas que por cá continuam a silenciosamente ou mesmo às claras a levar a que se digam frases como essas da boca das próprias vítimas. Triste e lamentável.
Um beijo.

duarte disse...

ganancia...
tudo fruto de uma sociedade onde o materialismo e consequente egoísmo se sobrepõe a qualquer ideal de justiça e equidade social.
abraço do vale.

Antuã disse...

Enfim, os outros lutam para que estes inconscientes ainda tenham alguns direitos.

Algarviu disse...

Parece que o Daniel Oliveira anda falho de inspiração. Hoje tem um post que decalca o que aqui foi feito no passado dia a 20 e onde se refere o azar de termos Socrates como primeiro ministro.

Graciete Rietsch disse...

Só mais uma achega. Considero fantástica a imagem.
Beijos.

José Rodrigues disse...

De Lenine em 1913: "Os homens foram em política vítimas ingénuas do engano dos outros e do próprio,e continuarão a sê-lo enquanto não aprenderem a descobrir,por trás de todas as frases,declarações e promessas morais,religiosas,políticas e sociais,os INTERESSES de uma ou outra CLASSE".
XVIII-Congresso do PCP: "Avante por um PCP mais forte"
Fácil? Nunca o foi!

Fernando Samuel disse...

Magoa... e mostra bem a dimensão e a dificuldade das tarefas que temos à nossa frente.

Um abraço.

samuel disse...

Per tutti:
Como bem resume o Fernando Samuel, grande, grande trabalho que há pela frente!


Abraço colectivo.