quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Prostituição e política – Uma questão de “timing”


(Um dos vários frescos encontrados em paredes de bordeis, na cidade de Pompeia, destruída no ano 79 DC)

No início da década de setenta do século passado, a jovem de 22 anos e cidadã brasileira Gabriela Leite decidiu tornar-se prostituta. À época, ajudava a mãe (separada) e as irmãs, com um trabalho que tentava conciliar com a frequência de um curso universitário. Quando decidiu, desta maneira radical, mudar de vida, não o fez por desespero, segundo afirma, antes pela atracção da “liberdade” e da vida boémia.

Cedo descobriu que no universo da prostituição praticamente mais ninguém andava pela “liberdade e boémia”, mas sim por desespero, vidas destruídas, ausência de saídas, miséria. Cedo tomou consciência de que entrara num mundo de violência, perseguição policial, discriminação social e doença... física e espiritual.

Fez o que é raro. Decidiu tomar o destino nas mãos e mudar o que estivesse ao seu alcance. Desde a “revolta das prostitutas” de São Paulo, em 1976, contra a violência, perseguição e exploração policiais, nunca mais parou, até hoje. Pelo meio, nestes mais de trinta anos, fica a mudança de vida, o casamento, a criação de associações de defesa de mulheres em risco, de luta contra a SIDA, etc., etc. O mais recente passo na sua luta consiste em candidatar-se a um lugar de deputada.

Durante os últimos dias, esta notícia apareceu em alguns jornais. Mesmo naqueles em que se tentou não “opinar” sobre o caso, ou publicar a notícia na secção de “casos insólitos”, em muitas perpassa uma brisa gelada de moralismo, uma espécie de “ora não querem lá ver esta?!”, a subentendida farpa que se pode adivinhar no título que a maioria dos jornais adoptou, «Prostituta candidata a deputada».

Pela minha parte, para o bem e para o mal e talvez por negação da (miserável e fanática) educação que tentaram impor-me, não possuo um pingo de moralismo quanto às vidas privadas e passados seja de quem for, logo, nada tenho contra uma mulher que, trinta anos depois de ter sido prostituta acha que para seguir a sua luta em defesa das mulheres que têm essa profissão, deve concorrer a um lugar de deputada.

Já o mesmo não posso dizer de outros, que tão bem conhecemos, que tendo chegado ao lugar de deputados com passados em que (pelo menos que se soubesse) não havia nada a apontar, foi exactamente a partir daí que começaram a vender-se, a prostitui-se... desavergonhadamente, repetidamente, diariamente.

Isso sim, é um asco!

8 comentários:

do Zambujal disse...

Se esse moralismo relativamente àsprostitutas se entendesse aos filhos das ditas ficavam parlamentos e os govermos muito vazios...
Bom "post", amigo

Um abraço

Maria disse...

Para não mencionar outros verbos...

Abreijo.

Anónimo disse...

Mas, esses, não são prostitutas!
- São, isso sim, as nossas "PUTAS"!!!
Rui Silva

Antuã disse...

O que não falta para aí é filhos da puta bem instalados em cargos políticos e económicos.

Fernando Samuel disse...

Para esses, timing is money...

Um abraço.

Nelson Ricardo disse...

Quem defenda qualquer sector do povo da rapina do Capital tem que enfrentar toda a série de ignomínias por parte destes.

Um Abraço.

Graciete Rietsch disse...

Concordei quase totalmente com o post. Apenas acho que a prostituição não deve ou não pode ser considerada uma profissão. O que é mesmo importante é lutar para que nunca mais qualquer ser, mulher ou homem, tenha que recorrer a processos desses para sobreviver. E parece-me que essa candidata a deputada, que viveu esse horror, está empenhada em fazer, o que só é de louvar.

Um abraço.

Membro do Povo disse...

Aposto que esses jornais que passam esta história como um insólito ridículo estão na mão de filhos da puta da mesma estripe dos que governam Portugal.