segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

De portas abertas


Depois do post anterior, que não pretendeu ser mais do que um simples abraço às amigas e amigos que se empenharam nesta campanha e também àqueles que, mesmo não se empenhando por aí além, foram, mesmo assim, votar em Francisco Lopes, tenho vontade de dizer mais umas coisas sobre estas eleições. Não para encerrar o assunto, mas, pelo contrário e se possível, para o abrir.
Num cenário de tão grande descrença nas instituições, no futuro e na própria democracia, que leva mais de metade dos eleitores a ficar em casa; num cenário em que o medíocre que faz de Presidente da República é reeleito com cerca de vinte e cinco por cento dos eleitores inscritos, perdendo meio milhão de votos em relação à sua própria primeira eleição – o que nunca tinha acontecido; num cenário em que o respeito dos eleitores pela política e pelos políticos os leva, por um lado, a não votar – como já apontei – e aqueles que votaram, fazerem-no, ou em Fernando Nobre, cuja única “ideia programática” foi exatamente o ataque aos partidos e aos políticos... ou, no limite, naquela “coisa” da Madeira, que teve um número de votos na sua terra (onde em vários Concelhos ficou mesmo em primeiro lugar, Funchal incluído) que é bem demonstrativo daquilo que mais de trinta anos de “Jardinismo” apalhaçado e demente podem fazer a um povo e à democracia; finalmente, num cenário em que a humilhação de Alegre, sozinho e triste na hora da derrota, humilhação promovida pela canalhice vingativa de Soares e a insanável contradição do apoio do PS, do BE e do MRPP, somada à impopularidade do Governo, era mais do que previsível, chega então a hora de dizer aquilo que penso do resultado do meu candidato, Francisco Lopes.
Penso que foi curto e injusto. Porque o empenho e a qualidade de Francisco Lopes mereciam mais. Porque o programa da sua candidatura e as ideias que levou a todo o país, mereciam mais. Porque aqueles que o apoiaram, dando o melhor de si, mereciam mais. Porque a democracia e a ideia de futuro que defendemos merecia e exigia mais, muito mais! Porque o facto de ser a única candidatura que se apresentou de consciência e mãos limpas, sem compromissos com a política de direita que nos trouxe a este abismo, mereciam muito mais, muitíssimo mais!
Mesmo assim, perante todos os cenários que acabo de descrever, é notável que esta candidatura de Francisco Lopes tenha segurado o seu eleitorado, na sua quase totalidade, mostrando que para além daqueles muitos que ficaram em casa, exaustos pelas dificuldades e pelo desencanto, mas que ainda será possível trazer novamente para a luta, muitos e muitos milhares tiveram a dignidade de vir às urnas, contra tudo e todos, afirmar a sua determinação e coragem para enfrentar o que aí vem... de cabeça levantada.

Segundo as próprias palavras do candidato comunista, «Cada voto pesará na acção para abrir um caminho novo para Portugal».
Daí que, como disse ao princípio, esta reflexão não seja, de forma alguma, para encerrar o assunto, mas para o abrir. Se possível todos os dias e de portas e janelas escancaradas. Para que fluam as ideias, para que o ar puro alimente e areje as discussões e, sobretudo, para que entre muita gente... e fique. Naquela que é sua casa!

15 comentários:

Mar Arável disse...

A vida não são só

urnas

Anónimo disse...

Alpiarça, grande terra comunista, deu um exemplo meritório com uma vitória esmagadora de Francisco Lopes.

JOSÈ GAGO disse...

Sem dúvida Samuel,que o nosso candidato merecia muito mais! Mas se te recordas eu já tinha alertado para a necessidade de uma
reflexão profunda da sanidade mental dos portuguêses no caso de acontecer aquilo que, efectivamente,aconteceu...
E,eu já fiz essa reflecção:
Diagnóstico; ESTÁ TUDO DOIDO!
Ou quem sabe...? Ainda pior do que isso... Saudações

JOSÈ GAGO

Fernando Samuel disse...

Muito bom - para começar...

Um abraço.

Eduardo Miguel Pereira disse...

Excelente, Samuel !
E eu cá estarei, para dar e receber essa aragem fresca das ideias certas para a nossa esquerda, para o nosso país.

LAM disse...

Samuel, para além de todas as vicissitudes que fazem de cada campanha diferente da que a precedeu, o importante era que a esquerda (toda a esquerda), ao invés de ficar a contemplar os ganhos e as perdas, suas e dos adversários, soubesse tirar lições do que correu mal e do que, pela sua parte, possa corrigir no sentido de SOMAR a sua força à força de todos. Oxalá que esses ensinamentos nos possam dar um futuro diferente.

abraço.

p.s. não há letra mais pequenita pra escrever os posts ou é mesmo pra gozar com os "cotas"...?
;)

Graciete Rietsch disse...

Realmente o resultado obtido pelo nosso candidato foi muito curto para o que ele merecia. Mas é mais um passo na caminhada para o futuro por que lutamos.

Um beijo.

Anónimo disse...

é sempre bom reflectir.
abraço do vale

Méon, disse...

Percebo a sua ideia, e reconheço-me céptico.

No fundo, esperamos sempre mais daqueles que admiramos. E se eu admiro a coragem e a persistência dos que lutam, não percebo porque não são capazes de estudar o fracasso político e se refugiam nas vitórias morais ( merecemos ganhar... continuamos a sonhar... um dia o povo vai acordar...).

Constinuo à espera de estudos sociológicos feitos na área da esquerda que expliquem estas realidades, que dêem armas de combate eficaz contra o tsunami consumista, que abram horizontes.
E não é isso que vejo. Os comunistas estão politicamente isolados. Sabendo-se que sozinhos não vão a lado nenhum, como se viu nestas eleições mais uma vez ( e andam nisto desde 1975) não vejo qualquer perspectiva de abertura ao diálogo com outras forças políticas.
Nem sequer com os antigos camaradas da "renovação comunista"...

Como sair disto?

Anónimo disse...

Meus amigos, Portugal já tem uma experiência de muitos séculos a viver chefiado por gente preocupante, e resistiu sempre. E este não manda nada, felizmente. Mas, para símbolo da Nação, merecíamos melhor, lá isso é verdade. Mas cada um escolhe, normalmente, quem mais se parece consigo mesmo.
Abraços.
Daniel

Maria disse...

E é justamente nas horas mais complicadas e situações mais difíceis que me sinto melhor na casa dos meus amigos e camaradas. Sabendo que estando, estou acompanhada.

Abreijos.

Anónimo disse...

As cadelas apressadas têm os filhos cegos.

Antuã

GR disse...

Análise e esclarecimento, são necessários.
A Luta é o Caminho!

Bjs,

GR

Rodrigues disse...

Abrir o debate sobre estas eleições, que mais uma vez os manipoladores de opinião a nova censura que todos os dias sem o lapis azul, mas pela nova forma de ignorar pelas imagens e escrita aqueles que todos os dias lutam por um Portugal a Produzir Português e com os defensores por Politicas Patriotas!! é um bom tema para os artistas,cantores e outros intelectuais ajudarem por diversas formas a passarem estas mensagens, um grande abraço Samuel!

António Vaz disse...

Caro “cantigueiro”, de volta à carga... e alerto-o para o único comentário válido em todos os que aqui lhe quiseram prestar atenção: o do Méon, às 23:32.
Não há partido de vanguarda quando ele representa apenas, no máximo (Autárquicas/2005), 11% dos eleitores – “orgulhosamente sós” não vão a lado algum... mesmo que “virgens”... e depois de aceitarem o processo burgês das eleições – deixaram de ser “virgens”. Evidentementemente podem continuar a evocar serem “virgens e imaculados” mas isso tem muito mais a ver com a “utopia do povo” do que com uma posição revolucionária.
Como V. sabe, eu preferia MA a CS... não porque preferisse MA ao seu candidato mas porque o “caminho se faz caminhando” – enquanto a esquerda não perceber isso, caminhamos para a derrota final e acredite que a sua “vanguarda” será a primeira candidata. Os discursos de que “impediu CS de ter uma maioria mais expressiva” enganam apenas os que lhe querem fazer “eco...eco... eco”.
Eu não sei se gosta de CDs ou se ainda ouve o velho vinil, se tem plasma e até tem um carro, mas foi com isso que eles deram a volta à coisa – hoje até o João Baião gosta do Alentejo.
Comprimentos