quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Sim, amigos, o ambiente que se vive é de chumbo! Todavia...




Sim, amigos, o ambiente que se vive é de chumbo! Todavia, ainda é possível sair à rua e ver abertas de sol... promessas de um tempo melhor que aí vem.
Aconteceu-nos ontem. Saímos à rua no preciso momento em que o António Gervásio depositava na nossa caixa de correio um “Avante!”. É uma das suas ocupações: percorrer energicamente a cidade, a pé, distribuindo informação, propaganda... e estes excedentes do jornal, que sobraram da semana anterior.
O António Gervásio, para quem não souber, é um Homem, um camponês de quase oitenta e cinco anos... mas que continua a achar que a malta nova lhe trava o passo nas muitas iniciativas de rua e porta-a-porta em que faz questão de participar.
Teve uma vida cheia. Uma vida que dava um grande filme sobre a História do Alentejo. Aos dezoito anos de idade entrou para o PCP. Há sessenta anos, percorria ele esta terra grande, de cima abaixo e para todo o lado, fazendo milhares de quilómetros em bicicleta, clandestinamente, reunindo, mobilizando, esclarecendo, lutando com os seus companheiros camponeses, dia a dia, pela dignidade, pelo pão, pela liberdade, pela Reforma Agrária que haveria de chegar um dia...
Antes de Abril sofreu a morte de Catarina Eufémia... mas esteve na vitória que foi a conquista da jornada de trabalho de oito horas. Foi repetidamente preso e torturado... mas participou no momento luminoso da fuga da prisão de Caxias, no automóvel de Salazar, oferecido por Hitler.
Depois de Abril, viveu todos os minutos da mais bonita conquista da Revolução, a Reforma Agrária por que tinha lutado toda a vida. Assistiu ao milagre da produção, da terra partilhada, do pleno emprego...
Até a contra-revolução se abater sobre o Alentejo, ancorada em leis espúrias e decisões criminosas de Barreto e Mário Soares, ofensiva que, para liquidar a Reforma Agrária, viria a servir-se de todos os meios. Até do assassínio de trabalhadores.

Hoje continua, esclarecida e lucidamente a afirmar sem desânimo, que a Reforma Agrária é necessária.
Desculpem-me esta inusitada “aula” de História... mas este post, que aparentemente não servirá para nada, pode muito bem ser lido por algum jovem que, mesmo não deixando de ser quem é, ganhe a vontade de ser também, pelo menos um pouco como o António Gervásio.
Como disse, o ambiente que se vive é de chumbo! Todavia...

15 comentários:

vovó disse...

um Homem Maior, pelo qual eu sinto imensa ternura, enorme respeito e grande consideração!... contrastando com tantos(as) outros(as) que têm sempre na ponta da língua a "luta"... e afins...

João Pedro Caniço disse...

Uma excelente história, um grande exemplo para os tempos que correm.

Ana Martins disse...

Olarés!

É engraçado, ainda há pouco me tinha lembrado que este homem é outra pessoa bonita que podia bem ir parar à Eira :)
Assim ainda te roubo o post

Beijinhos

salvoconduto disse...

Pode ser que até eu que não sou jovem ganhe também essa vontade.

Tens razão quanto ao chumbo, todavia...

Maria disse...

Um post comovente sobre um Homem que continua na primeira linha da Luta!
Revi nas tuas palavras o encontro que tivemos com ele aí na terra, aquando do lançamento do livro sobre a Reforma Agrária, há uns dois anos. Que encontro bonito...

Obrigada, Samuel.
Abreijo.

Eduardo Miguel Pereira disse...

Manda lá um grande abraço a esse "enorme" camarada, que muito gostava de conhecer.

do Zambujal disse...

Boa, Samuel. Muito bom. Só não gosto da palavra inusutada antes de aula (para quê as aspas?). Quando contamos Gente Maior, as suas vidas são a aula, e a a aula nunca é inusitada. Não te emendo ou corrijo. Apenas te aplaudo.

Grande abraço deste jovem (" "), que leu o que escreveste e que, sem deixar de ser o que é, renovou a sempre presente vontade de ser também, pelo menos um pouco como o António Gervásio

Luis Filipe Gomes disse...

Magnífico e precioso!

Graciete Rietsch disse...

Todavia... ainda temos quem nos alimente, pela sua vida de luta contínua, a certeza de que não se pode desistir.

Um beijo.

Antuã disse...

E assim se faz História.

Luis Neves disse...

Parabéns Samuel; A esperança será sempre esta; encontrarmos pessoas que nos dão inspiração e que nos permitem ter exemplos de vida.
Hoje é mais um dia que vou partilhar o teu Post no meu Facebook. É uma honra partilhar a vida do António Gervásio na minha página.
Luis Neves

Olinda disse...

A história do PCP tem tantos Antónios Gervásios,tantas referencias de valores humanos,que
nos faz ter a certeza de estar no partido certo.Aquele abraço ao António Gervásio e para ti também por o teres trazido aqui.

Anónimo disse...

Um exemplo a seguir.

Obrigado camarada António Gervásio, pelo que fizeste e pelo que continuas a fazer.

Anónimo disse...

São camaradas como este que permitem não pararmos.
Vicky

Jeremias disse...

Belo post, Amigo Samuel, é de exemplos desses que precisamos. Apesar dos tempos serem o que são por culpa do povo que vota, precisamos de ânimo e o Gervásio, com todo o seu historial de luta não baixa os braços. Ouvem-se comentários de para quê fazer greve... e aqui está uma resposta. Quem nada faz nada alcança!