segunda-feira, 6 de julho de 2009

Maria João Pires - Grande pianista brasileira



Nos idos de 1934, quando o fascismo português ainda estava convencido de que podia aparecer favorecido nas “fotografias” europeias, fazia o que podia para se afirmar, recorrendo à mais diversa propaganda. Nesse ano, calhou a vez ao velho (e nessa altura, lindíssimo) Palácio de Cristal do Porto e aos seus jardins, de acolherem a “Exposição Colonial”.

Entre as várias mentiras que sempre “justificaram” o colonialismo, nessa exposição vendia-se a ideia de que Portugal era um país enorme. Para sustentar essa ideia peregrina, pegou-se nuns desenhos de todas as colónias portuguesas, escarrapacharam-se os ditos em cima de um desenho da Europa, fazendo de conta, primeiro, de que aquilo era um mapa, segundo, de que aquele “Portugal” cobria a tal Europa, praticamente até às fronteiras da Rússia. Para elaborar esse tão “científico mapa” foi requisitada a colaboração de Henrique Galvão (esse mesmo!) que só bem mais tarde começaria a abrir os olhos...

Para a classe dominante, que ao longo da nossa História se tem travestido de várias tendências e convicções, é importante que o “Zé” esteja sempre convencido de que somos “os maiores” em qualquer coisa. Tudo serve, desde pizzas gigantes, para o Guinness, gloriosos milagres e santos a rodo, para todos, até aos pontapés na bola, para nada.

Há efectivamente coisas com as quais Portugal se poderia afirmar, mas estão longe de ser estas. Aqui e ali ouve-se falar de mais um cientista, aqui e ali dá-se conta de mais um grande escritor, artista plástico, músico... mas não! Com esses, Portugal não se agiganta, apenas aproveitando para se gabar durante uns dias, de algum prémio eventualmente recebido "lá fora" por algum deles, a quem o país pouco ou nada liga e cujas obras (mesmo depois dos prémios) continuam quase confidenciais. Esses e essas sim, cobrem a Europa e o mundo com a luminosidade do seu talento, mas por conta própria e muitas, tantas vezes, fazendo as malas para nunca mais voltar.

Todos sabemos dos criadores que se foram, no passado. Todos sabemos dos que se vão. Todos sabemos da sangria de cérebros, que partem em busca duma “pátria” que os acolha e acarinhe, tanto como em busca do sucesso.

Esta notícia sobre a pianista Maria João Pires é mais uma. É uma decisão tão pessoal que não me é possível comentá-la... apenas posso senti-la.

Se esta notícia sobre a pianista Maria João Pires se confirmar, ficaremos quantos passos mais longe de sermos realmente um grande país?

Adenda: Discretamente (como é seu hábito), um leitor chamou-me (e bem) a atenção para o facto de eu poder, com a frase sobre Galvão, “que só mais tarde começaria a abrir os olhos”, dar inadvertidamente a entender que o conhecido capitão abandonou as suas teses sobre o colonialismo, quando isso não é assim. Na verdade, o seu “desencanto” foi com a figura de Salazar... e pouco mais.

11 comentários:

josé machado disse...

Boas Samuel,
antes de tudo quero dizer-te que aprecio bastante a música de intervenção. Assisti ao teu concerto no 25 de Abril no Porto com os meus camaradas de Paranhos, onde por sinal todos te adoram.
Agora em relação ao teu post, vivemos num país submetido a um regime político capitalista em proliferação , um regime inerte no que diz respeito à cultura, onde é necessário ter muita coragem para se viver da arte. O espírito comunitário é cada vez mais alianado da rotina real, na qual se subrepõe a necessidade de sobreviver, através do enriquecimento de oligarquias mandatárias. Esta clivagem entre a sociedade e a cultura, como se tratassem de coisas completamente díspares, retratam bem o desenvolvimento do país.
Neste país apenas conta o empreenderoísmo de elite, sustentado pelo sofrimento do povo, a cultura é um impecilho, uma perigosa fonte de informação que poderia revelar as origens de quem nos governa.

Maria disse...

Belgais, outra vez.
E a falta de apoio à Cultura.
Maria João Pires já tinha "ameaçado" ir viver para lá, agora esta decisão - só me pode deixar triste.

:(

duarte disse...

isto é o que dá sermos governados por gente de merda.Antes saneavam os grandes criativos, os grandes professores. Agora ostraçisam-nos.O resultado é o pretendido.Conhecia o projecto de Maria João Pires, mas desconhecia que tivera de o abandonar...país lindo de esterquisse engalanado!!!
Ainda hoje o meu camarada que me ajudou a espalhar cartazes da FESTA! teve de ouvir bocas foleiras, a sorte foi não as ter ouvido eu...já me conhecem...
ando mortinho por distribuir uns tabefes.
desculpa a má disposição, mas já mete nojo.
abraço deste vale onde o sol brilha mas as mentes apodrecem bolorentas...E daqui não saio, daqui ninguem me tira!!!

Antuã disse...

este é o espelho dum governo execrável. não sei de que peça de Mozart é que o agente técnico Sócrates gosta nem sei se ele sabe quem é Mozart. Mentir despudoradamente ele sabe.

Manuel Norberto Baptista Forte disse...

Infelizmente é hoje actual dizer-se que Portugal não tem política alguma de fundo e passível de actualização conforme o correr do tempo em sectores base da sociedade.
Penso que muitos saberão que um Governo de uma República que não pugne para que os seus cidadãos usufruam de uma política Cultural, de Saúde, de Educação, de Habitação, de verdadeiro Emprego, uma política justa mas sobretudo eficaz de Finanças, uma política de Segurança Interna e Justiça, é um eterno País adiado.
Caríssimos Amigos, chegados a 2009, 34 anos pós o golpe contra revolcionário de 25/11/1975, P.S., P. P. D./P. S. D., C. D. S./P. P., que têm "gulosamente" estado na esfera do Poder ou partilhado o Poder, NADA FIZERAM NESTAS MATÉRIAS.

Susete Evaristo disse...

Bom, meus amigos, eu não posso aceitar esta atitude de Mª João Pires, embora concorde com ela quando diz estar farta dos coiçes do governo.
No entanto se todos os que temos razões para dizer o mesmo e não seremos tão poucos, mas dizia eu o que seria de Portugal se todos abandonassem o pais ou deixassem de ter nacionalidade portuguesa?
Não ficar e lutar mau grado todos os coices que por ai vierem é mais digno que voltar as costas.
Mais pode escolher-se a Nacionalidade que se quer ter não pode é escolher-se o local onde efectivamente se nasceu.

Maria João Marques disse...

«A pianista Maria João Pires vai renunciar à nacionalidade portuguesa, tornando-se aos 65 anos cidadã brasileira. A notícia é avançada pela Antena 2 da RDP, que adianta que a pianista se fartou “dos coices e pontapés que tem recebido do Governo português”.»

Lê-se este pedacinho da notícia que dá conta da decisão de Maria João Pires renunciar à nacionalidade portuguesa e fica-se com os nervos em franja. Mas que coices recebeu MJP do Estado português? Teve inspecções indevidas da ASAE (ou sua antecessora IGAE), da IGT? Levantaram problemas com os alimentos fornecidos numa eventual cantina de Belgais? Os sindicatos andaram a agitar os trabalhadores? Houve atrasos maiores em qualquer licença que a nossa burocracia exige (camarária, do ministério da Educação, whatever) que não se verificaram nos casos dos restantes meros mortais sem dons internacionalmente reconhecidos? Ou, simplesmente, o Estado não lhe forneceu todo o dinheiro dos contribuintes que MJP, por alguma razão, sentia que lhe era devido para os seus projectos? Se a razão é esta última, boa viagem para o Brasil, fique por lá, que em Portugal já há sanguessugas suficientes – e na área da ‘cultura’, ai quantas há – e menos uma sempre torna o país um bocadinho menos irrespirável.

samuel disse...

José Machado:
Parabéns, por terem aguentado aquela noite gelada!
Quanto ao comentário, é por aí... há que dar a volta também a este texto da cultura!

Maria:
Exactamente! Triste... o que não é nada a mesma coisa que concordar com a atitude.

Duarte:
Com uma mistura certa de raiva, esperança e generosidade... “isto vai!”

Antuã:
E já não é pequena arte!

Susete Evaristo:
O que mostra que para mudar as políticas é preciso alterar a correlação de forças...

Maria João Marques:
Pois... os artistas, sobretudo os grandes, como Maria João Pires, tornam sempre os países “irrespiráveis”! E pensar que há quem queira culpar disso mesmo os políticos que se têm revezado no poder nas últimas décadas... a somar aos 48 anos de “iluminado” fascismo!...


Saludos generalizados!

Anónimo disse...

Que diria o poeta ao saber desta fuga para a frente?
Então a cultura é assim que se trata?
O governo não distribui equitativamente o erário de todo o povo, o Estado?
A senhora sai fora por que não recebeu o apoio subsidiário que tanto abomino?
Bem, só me resta uma saída, vou viver para a Ilha?!

Tanto português, milhoes e milhões deles na França, Alemanha, inglterra e antes nos Brazis e Argentinas..Que é isto senhora culta de música?

Este governo, o outro governo e os governos antes destes, tirando o Governo de Vasco Gonçalves, fizeram alguma coisa pela cultura? Ainda assim os portugueses não criaram somente uma Maria João Pires, criaram muitos mais...mais e mais!
Abraço do "Catraio"

Lúcia disse...

Bom - um bocado atrasada, mas não posso deixar de ir um pouco contra a corrente, aqui. Adoro a Mª João Pires. Lamento imenso que o Estado (e isto não tem a ver com governos) não apoie VERDADEIRAMENTE a cultura. Mas isso acontece um pouco noutras áreas (saúde, justiça, edducação, etc). Renunciar à nacionalidade é mais do que um grito. E por aqui me fico. precisamente porque é uma decisão que não deixa de ser pessoal. Mas o país não deve ser confundido com outros restos. Bom, digamos que o caso não é assim tão simples e dava pano para mangas!

Beijos

A propósito, samuel, excelente texto!

Pata Negra disse...

Nem tudo é mau, agora o Miguel Tavares diz que também quer ir...