quarta-feira, 8 de julho de 2009

Michael Jackson - Do talento puro e da arte, até à "indigência" e alienação



A incapacidade do capitalismo para controlar os delinquentes que ele próprio cria, uns arvorados em neoliberais, outros apenas bandidos, provocou, como todos sabemos, mais uma crise no sistema. Desta vez a coisa foi assustadora para a classe dominante. Independentemente de muitos deles não terem parado de ganhar dinheiro a rodos, o espectáculo de bancos a falir, ou a serem “nacionalizados”, ainda que por pouco tempo, deixa-os num estado de nervos caótico.

De qualquer maneira, o pior de tudo, foi começarem a ouvir por todo o lado gente até aí muito sossegada, que inesperadamente começou a ventilar a hipótese de o sistema estar falido, de as teses daquele barbudo Marx terem sido prematuramente declaradas como mortas, de ser preciso mudar de sistema económico, de ser, talvez, interessante, voltar a ouvir com uma nova atenção as propostas dos partidos que, por todo o mundo, já o diziam bem antes de chegar a crise...

Foi o pânico! Houve que lançar mão de tudo. Fazer com que as pessoas não se sintam seguras em nenhum emprego. Fazer com que fiquem agradecidas por o terem. Fazer com que haja sempre uma fila interminável de candidatos a meia dúzia de postos de trabalho, constituída por gente disposta a tudo para os conseguir. Deixar avolumar o sentimento de insegurança até ao ponto de, para além de agradecidos aos patrões, os cidadãos começarem a sentir-se mais seguros rodeados de polícia e dispostos a abdicar de liberdades e direitos. Culpar os pobres pela sua situação. Culpar os imigrantes, os árabes, os pretos, os sindicalistas, os comunas... tudo, menos a sacrossanta economia de mercado.

Na dúvida e para aliviar o stress social que todas estas medidas provocam, é preciso apostar forte na alienação. De forma milionária. Atirando milhões e milhões para cima de miúdos, com o pretexto de serem “desportistas”. Inundando as televisões com toneladas de novelas e programas de entretenimento cujo nível vai baixando de mês a mês. Investindo na música “indigente” que a toda a hora tem representantes nos vários canais dessas mesmas televisões. Enterrando os livros bons que se vão escrevendo, sob pilhas de lixo “light”, escrito por vedetas disto e daquilo, ou mesmo simples figurantes do “jet-set”. Atascando os escaparates em revistas “cor de rosa”, onde podemos saber dos arrufos, dos amores, das tricas, dos boatos e da localização ao milímetro do local “inconfessável” em que a jovem actriz ou cantora pimba espetou, para a posteridade, o seu mais recente e ousado piercing.

A sorte ajudando, artistas com a dimensão dramática de um Michael Jackson, sucumbem não se sabe bem como e porquê, permitindo ao sistema que controla a nível global os meios de comunicação, montar este show comercial obsceno à volta da vida e morte dessa patética vítima do próprio sistema, marioneta trágica nas mãos do capitalismo.

Todo o asco que me provoca esta campanha mundial de alienação, misturada com a infame exploração comercial do artista morto, quase me faz esquecer que houve um tempo em que gostei de Michael Jackson.

16 comentários:

Anónimo disse...

O meu 1º comentário aqui,embora já o tenha feito nouto blog:A normalidade e a genialidade, são incompatíveis; combatem-se,destroem-se.
E concordo com o seu texto.Principalmente o final.

foi para mim um prazer reencontrá-lo:há tanto tempo que não o ouvia,Samuel.
Voltei 30 anos atrás. Foi bom.
Tina

Maria disse...

Excelente post!
Degradante ouvir falar de M.J. durante quase 15 dias, adicionando o show de ontem em Madrid. Haja paciência!

Abreijos

Susete Evaristo disse...

Não consigo por mais que queira compreender os americanos. Aliás não consigo por mais que queira compreender o histerismo provocado tanto nas actuações como neste caso na morte de cantores.
Podem dizer que serei velha demais para perceber estes movimentos, mas já fui nova do tempo dos Beatles, dos Rolling Stones, Elvis Presley, Beache Boys etc. e muito sinceramente já nesse tempo eu não compreendia a gritaria os desmaios ou o puxar de cabelos.

Daniel disse...

Se o rapaz tivesse sido um pouco mais equilibardo, teria pelo menos percebido que é verdade, que "black is beautiful".

Manuel Norberto Baptista Forte disse...

Também eu estou plenamente de acordo com a totalidade do texto do post. Muito bem escrito.
Ouvir falar de M. J. e/ou de C. R. persistentemente, começa a ser um atentado à sanidade mental, dos que ainda vão pensando por si ou reflectem acções e factos em espirito de grupo. Eu mudo logo de canal, porque não admito alimentar nem que seja por segundos, produtos da sociedade de consumo.
Degradante a submissão tanto da RTP1, como dos canais privados portugueses,a este tipo de "informação" ...

mar-ia disse...

Este post tem com o anterior uma relação de estranha proximidade, não só pela excelente análise que dele faz o Samuel, mas porventura por uma estranha coincidência. Enquanto um se enterrava na mais verdadeira palidez, ou outro, volteava-se sorridente no circo mediático dum aplauso vazio, que faz das pessoas "coisas".
Conseguirá ser feliz o Ronaldo por detrás daquele sorriso luminoso?

duarte disse...

do miclas só gostei duma faixa: billy jean.do cr admiro a genialidade. o resto...é tudo insanidade e muuuuuito dinheiro.
abraço do vale

vermelho disse...

Lapidar Samuel, lapidar este post. E mais não digo... Posso editá-lo na minha casa?
Abraço.

samuel disse...

Tina:
Só por isso já valeu a pena ☺

Maria:
Começa a faltar.

Susete Evaristo:
Olha... mais uma para o grupo...

Daniel:
Nem isso lhe foi permitido.

Manuel Norberto:
As televisões estão a cumprir a sua “missão”...

Mar-ia:
O Ronaldo, infelizmente, entrou na linha de produção dos sonhos fantásticos, que mais cedo ou mais tarde se tornam descartáveis.

Duarte:
Muito mais tarde, será lembrado pela música... alguma boa.

Vermelho:
Claro que sim! Obrigado!


Abraços generalizados!

Lúcia disse...

Um texto - tiro-lhe o chapéu!
E o pior é que desconfio de que cada vez haverá mais caminhos para a aleinação. Seja M Jackson, Ronaldos ou...

Beijos

Ibel disse...

Excelente refexão, Samuel!

Fernando Samuel disse...

Magnífico texto!

Um abraço.

Anónimo disse...

Oh, Samuel!

Essa da "necessidade de mudança do sistema económico" eu nunca ouvi da boca dos que, sossegadinhos, iam mamando, mamando, mamando, porque para essa gente, Marx continua a não passar de um barbudo inconveniente.

Do que eles falavam, isso sim, era de uns retoques no capitalismo, de um certo aperfeiçoamento no sistema que cria as desigualdades que todos conhecemos, certamente retoques e aperfeiçoamentos que impeçam a justiça de os fazer sentar no banco os réus e de os mandar para a choça durante século e meio, ou mais…

Sobre o tal Jackson - com já disse no “Cloreto de Sódio” – para quê continuar a gastar cera com tal defunto?

@braços e DIAS TRANQUILOS!

O Puma disse...

Não aprecio quem muda de pele

menos ainda o sistema

que o sustenta

samuel disse...

Lúcia:
Enquanto for resultando, eles não hesitarão...

Ibel:
Obrigado!

Fernando Samuel:
Um abraço!

Dias Tranquilos:
Devo ter-me entusiasmado... ☺ ☺
Na realidade, só alguns falaram em mudança a sério... o resto é História.

O Puma:
O pior é quando até o sistema muda de pele... e engana mais alguns milhões!


Abreijos!

N.Guerreiro disse...

ola Samuel.

Mais 1 excelente post.

Eu tenho para mim que todo este circo mediatico em torno do M.J e do Cristiano tem outra missão.

Ora reparem lá,enquanto a Midea Se entretinha a dar "espectaculo" ao povo,o que é que o Papa "nazi" assinava por trás....
E Enquanto O Cristiano dava toques na Bola,o que verdadeiramente se passava na Cimeira do Egipto.

Degradante........

A LUTA SAIRÁ A RUA