quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Capango minha amiga e camarada



Capango era uma jovem mãe trabalhadora angolana. De uma aldeia perdida no sul de Angola, Mpupa, nas margens do Cuito. Como se não bastasse o trabalho duro na lavra, a guerra marcava o dia a dia de Capango.

Manuel Branco era um também jovem enfermeiro do exército colonial. Era um poeta. Gastava tantos medicamentos com os seus camaradas de armas como com os misteriosos e inesgotáveis “primos” de Capango e dos outros habitantes da aldeia... que constantemente se magoavam... e que ninguém via.

Abril já se insinuava pé ante pé nas cabeças e nos corações dos jovens oficiais portugueses, mas faltava ainda algum tempo para amadurecer.

O Manuel Branco – já disse que era um poeta? – que não vejo há tempo demais, escreveu um poema dedicado a esta sua “inimiga” e, no fundo, a toda a gente da aldeia. Gente doce e mansa! Eu sei, pois vi-os a quase todos, anos mais tarde, numa visita arrepiante. Quase todos. Faltou ela! Estava a trabalhar longe, na lavra... mas estava viva e soubemos que era feliz com a sua lavra, a sua filharada, o seu homem.

Quando agora tropecei nesta fotografia de outra “Capango” lembrei-me da música que fiz e gravei, para o poema que o poeta Manuel Branco fez para a sua Capango de há quase quarenta anos. A canção já tem mais de trinta... mas agora aprendeu a fazer-se ouvir nesta coisa maluca da internet.

Desculpem o descaramento, mas hoje canto eu.



Capango
(Manuel Branco/Samuel)

Capango minha amiga e companheira
Na margem do cuito à margem da vida
Esperando tanto, parecia a vida inteira
Na margem do cuito, à margem da vida

A tua terra era o fim do mundo
O teu quimbo ocupado pelo medo
E eu a dizer-te é muito grande o mundo
E a vida vai começar um dia cedo.

Capango minha amiga e camarada
Na margem do cuito, à margem da vida
Esperando tanto lutaste desarmada
Na margem do cuito, já perto da vida

Mas a luta do Povo chegou longe
Ao capim de revolta incendiado
E um poeta junto do seu Povo
Escreve a história do sangue revoltado

E o capim agora cresce milho
E o arado é a arma do futuro
A tua terra é tua e do teu filho
É o sulco que abres no chão duro.

Capango minha amiga e camarada
Na margem do cuito já perto da vida
Lutando tanto finalmente armada
À margem do cuito já chegou a vida.

15 comentários:

Maria disse...

Também não vejo o Manuel Branco há tempo demais...
E esta cantiga é linda!
Obrigada, Samuel, pelas memórias boas que me trouxeste.

Abreijo

salvoconduto disse...

Conheci outras Capango, um pouco mais longe do que o Cuíto. Só tenho pena de não as saber recordar desta forma. Talvez um dia conte por aqui a história do meu amigo Joaquim que se tornou guerrilheiro da Frelimo e das razões que o levaram a tal.

Abraço.

continuando assim... disse...

Fantástica !!!

a música é tua pelo que percebi ...:)

um beijo e parabéns !

teresa

amigona avó e a neta princesa disse...

Hoje um abraço...só...

Fernando Samuel disse...

Belo texto!
Abençoado «descaramento»!...

Um abraço.

Rui da Bica disse...

Bonita foto! Linda a letra do Manuel Branco, bela a música do Samuel.
Depreendo que cantada pelo Samuel (?). Se sim, parabéns ! Gostei mesmo.
Um Abraço e um Grande 2010 !
.

Isamar disse...

Um post enternecedor pleno de amizade e saudade.
Que estes amigos todos tenham trabalho, paz e pão.

Bem-hajas, Cantigueiro!

Um próspero Ano Novo

Abreijos

isabel disse...

Parabéns!Além dos dotes de escrita, tens dotes de "cantigueiro", sem esquecer a bela mensagem que passas.
Um Bom 2010!

lino disse...

Lindos: poema, música e voz.
Abraço

Irlando disse...

Não precisas pedir desculpa.Canta sempre que te apetecer.Acredita,existem muitas estórias como as de Capango que vão ficar por contar.

poesianopopular disse...

Bem que podias brindar a malta, com mais uns descaramentos destes, eu por mim gostava!
Abraço grande.

Pisca disse...

Capango ou Kapango, de seu nome Joaquim, foi um quadro do MPLA assassinado com requintes de malvadez, pelos amigos de alguns fulanos daqui do burgo, nos idos de 1975
Dá o seu nome a uma importante artéria de Luanda e ao Aeroporto da Cidade do Kuito, ou Cuito como quiserem

Zero à Esquerda disse...

Pois está desculpado.

Pois é, "eles nem sabem nem sonham!"

Forte abraço e que se lixe o ano velho.. Excepção para o tal "punhado de coisas boas".

Daniel disse...

Por que será que os bons sentimentos inspiram belíssimos poemas, e os belíssimso poemas inspiram belíssima música?...
Mistérios da Arte em estado puro.
Daniel

samuel disse...

Per tutti:
Obrigado a todos pelas apreciações...


Abreijos gerais!