terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Com a melhor das intenções



Aqueles que se dedicam a discutir o espírito democrático ou a capacidade de dialogo do Primeiro Ministro José Sócrates, por comparação com quase todas as outras figuras públicas, laboram num erro de dimensões bíblicas. É como discutir a arte de melhor cantar, tendo como termos de comparação Frank Sinatra e Zé Cabra, ou da melhor arte da representação, discutida entre Eunice Muñoz e Rita Pereira.

Sócrates deve ter umas tantas células predispostas para o diálogo e para o debate franco de ideias... mas estão certamente bem escondidas, bem lá no fundo de si, atrás de uns músculos que raramente se mexem. Como se não bastasse um exemplar, o Senhor Presidente do Conselho fez-se rodear de colaboradores que replicam quase na perfeição as suas inefáveis qualidades.

Claro que como todas as personalidades vazias de real talento, toda esta gente necessita como do ar que respira, da constante e ruidosa publicitação dos seus passos. Para isso têm que estar diariamente nas primeiras páginas dos jornais e nas aberturas dos telejornais, vendendo a sua banha da cobra.

Aqui é que a porca torce o rabo! Para gente com passados tão mirabolantes, seja academicamente, seja politicamente, etc., etc. (infelizmente), até chegar às porcarias dos dinheiros e outras nojices aparentadas, uma grande proximidade com os jornais pode ser um perigoso pau de dois bicos. A mesma revista que numa semana os cobre de “glamour” e respeitabilidade, na semana seguinte está a contar a estória do andar de luxo do Parque das Nações posto no nome de uma tia aposentada e com Alzheimer desde 1980, da rocambolesca explicação para o novo Audi A8, alegadamente pago com um ordenado que só chegaria para um VW Golf, caixas de robalos a dar com um pau... e de repente estamos atascados em notícias esquizofrénicas em que se misturam desordenadamente actos solenes com sucateiros de Ovar, leis da República com diplomas universitários “nublados”, defesa do ambiente com “freeportes” e abates de sobreiros a pedido, Economia Nacional com agiotagem e roubo, escutas telefónicas com "espionagem pulhítica" (obrigado Carlos Acabado!), etc., etc., etc... ad nausea.

Sendo assim, mesmo sem ninguém me ter pedido nada, ofereço a Sua Excelência o Presidente do Conselho (e aos seus colaboradores, familiares e amigos mais chegados) um modesto contributo para a criação de uma “divisa” que poderá começar a usar nas suas relações oficiais e privadas com a comunicação social em geral e (alguns) jornalistas em particular:

“Faz o que eu digo... não digas o que eu faço!”

9 comentários:

Maria disse...

Que raio de comparações mais azedas fizeste... mas certeiras!
Se chega aos ouvidos do(s) homem(ns) o que escreves ainda és insultado como o 'escriba-mor' da oposição...

Abreijos

Fernando Samuel disse...

Ora aí está um precioso contributo...
Um abraço.

cetautomatix disse...

A acrimónia é muito útil, às vezes, para exprimir de forma exacta o que se pretende. O acre do teu post é exacto e o cinismo da divisa final deixa uma sensação de teres atingido o alvo bem no meio. Como partilhas connosco, permites que o sintamos também. Obrigado por isso.

gabriela disse...

Fantástico!!!
:))

filipe disse...

Uma "divisa" muito certeira!
Se Frei Tomás ainda por cá andasse, decerto saudaria o trocadilho e, sem dúvida, também o adoptaria para si...
Abraço - e grato pela visita/saudação.

Hilário disse...

Que bela ajuda estás a dar a esses senhores.
Boa malha.

Um Abraço

Rui da Bica disse...

“Faz o que eu digo... não digas o que eu faço!” ...e se dizes "malhas"!

,,,sempre a política do "gato escondido com o rabo de fora", tantos são os "rabos" á vista e sem explicação plausível.
.

samuel disse...

Per tutti:
Pensando bem... eles já praticam o essencial desta divisa.


Saludos colectivos!

Isaak Newtton disse...

Meu Caro,

Achei absolutamente deliciosa, esta máxima em jeito de trocadilho «Faz o que eu digo...não digas o que faço!» e a clareza com que denúncia as pontas que alguém ousou puxar, que a justiça insiste em relevar, que "eles" não se preocupam em esconder, que o povo teimosamente vai voltar a esquecer, que todos os outros políticos acabarão a defender, que outros jornalistas voltarão a acusar, que outros cantores de letras também irão criticar, que outros corajosos, as pontas voltarão a puxar, que irremediavelmente a justiça voltará a ignorar, que "eles" voltarão a sacudir para o ar e ao mesmo tempo estarão a assobiar, esperando que teimosamente o povo volte a votar e a esquecer. Pois nessa altura, aqueles que envergonhadamente tiveram que os defender, terão alguém com coragem a puxar as suas pontas, que a justiça voltará a relevar, afinal de contas! Que "estes" também não se preocuparão em esconder, que o povo de novo irá esquecer, que "aqueles" de quem falámos agora, também irão defender, que outros voltarão a acusar, que o povo voltará a ir votar e "eles" voltarão a aparecer...e assim voltaremos a uma máxima: "Voltai a fazer o queremos...que nós continuaremos a fazer o que vós quereis!"