segunda-feira, 20 de abril de 2009

Luta desigual



Num assinalável esforço de organização, empenho e vontade de fazer o que está certo, a “minha” Câmara, de Montemor-o-Novo, mantém uma actividade cultural atenta e descentralizada. Uma das (muitas) iniciativas, que já leva alguns anos de vida, é o “Ciclo da Primavera”. Por esta altura, junta-se uma boa mão-cheia de projectos, na maior parte, locais, para oferecer às várias freguesias rurais pequenos espectáculos diferentes daqueles que por certo lá estarão nas festas de Verão.

Ao fim de alguns anos aqui, desta vez também fui desafiado a inventar um pequeno recital de “fados e baladas”. As baladas são comigo, os fados (a bem dos próprios) não. A amiga Fátima Casabranca encarrega-se dessa tarefa, de forma doce e eficaz. Eu toco umas e outros e juntei ao ramalhete dois belos músicos que nos fazem companhia no piano e no baixo.

Até aqui, tudo bem. Depois começa a realidade a abater-se sobre nós. Ao que sei, e repetindo uma tendência de anos anteriores, tanto este “meu” recital como os outros que ao mesmo tempo estão no terreno, têm sido presenteados com auditórios cheios de cadeiras. No nosso caso, no Sábado, porque estava um tempo ruim... e jogava o Sporting na televisão. Ontem, porque estava uma noite maravilhosa... mas jogava o Benfica na televisão. Fosse durante a semana e teria sido a novela da não sei quantas...

Adoraria saber o que mais pode ser feito para alterar este triste estado das coisas e poder multiplicar por muitas as verdadeiras pérolas a que temos direito no final das actuações, pérolas disfarçadas de gente com uma lágrima mal escondida, uma quadra ou duas para nos dedicar, ou a pérola de ontem, um velho GNR reformado, que entre abraços e versos lá nos foi contando do tempo em que era novo, guarda na Baixa da Banheira e de como às vezes ficava de barba por fazer, vestia à paisana e enfiava na cabeça um boné de orelhas, para poder ir assistir às cantigas que o Zeca Afonso ia muitas vezes cantar às escondidas para aquelas bandas, sem se deixar reconhecer pelos “fascistóides” da terra e da sua corporação.

Não chega para encher a sala, mas consola o coração.

13 comentários:

Maria Faia disse...

Pois é Amigo,
Triste realidade a nossa cujo povo troca cultura por futebol, na disputa desigual e, muitas vezes, falseada.
Futebol que, para mim e sem querer ofender ninguém, se tornou, salvo melhor opinião, numa quase que imoralidade, tantas e tantas são as questões freudulentas a que tem dado azo, por ganância dos homens que a essas vidas se dedicam,
Futebol, mundo em circulam milhões, de milhões e mais milhões de várias moedas cunhadas enquanto que milhões e mais milhões de seres humanos morrem de fome, sede e guerras.
É esta a sociedade que construimos, mau grado muitos esforços feitos e desfeitos para a tornar mais sã e solidária.

Recebe um abraço amigo, com votos de uma semana feliz,

Maria Faia

Maria disse...

Futebol à parte, temos tido noites seguidas de grandes emoções... Hoje também foi dia de emoções. Em Ervidel...

Abreijos

Justine disse...

Está a dar frutos, a política de desinformação e acultura que durante anos os vários governos têm vindo a implementar...pela televisão!
É tão triste, e o único caminho é continuar a insistir, a haver iniciativas como as que nos contas.
E vai-se consolando o coração com as poucas pérolas:))

zemanel disse...

a cantiga é uma arma, tu sabias! -
mesmo em tempos de servidão! Como o GNR da Baixa da Banheira: há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não.

Desculpa lá esta livre composição.
E envia os parabéns à Câmara de Montemor pela resistente teimosia!
Já agora só por curiosidade essa iniciativa primaveril custa quanto ao município?
Aqui por Torres Novas a política cultural passa pela centralização cultural de cerca 800.000 euros (!!!!)apenas na cidade por ano. No resto do concelho o investimento é praticamente nulo...

anamar disse...

São os bons pequenos nadas... que ajudam a viver, mas ás vezes é preciso um pouquinho mais....
Pena ser longe e perder essa pérola...
Abracinho

XICA disse...

Não é que esta situação que nos descreves me console da pobreza de mentes que vamos tendo por este país, mas eu a achar que só pelos meus lados se verificava esta dormência, afinal o mal é generalizado. Experimenta convidar o TonY Carreira ou o Toy e vais ver de quantas casas tu precisas.
Passei por uma situação muito semelhante nas comemorações do 25 de Abril em 2008 com os Couple Coffee, aliás na altura cheguei mesmo a fazer um post sobre o ilustre público.

José Rodrigues disse...

(...) 3.O processo contra revolucionário,na sua obra de destruição das conquistas de Abril (...)--d) A promoção e reposição de valores obscurantistas ou retrógrados no domínio da cultura,das mentalidades e da ideologia (...) In-Programa do PCP,aprovado no XIV congresso-1992.[em vigor e a divulgar ]
Protesto,Confiança e Luta é o caminho!

Antuã disse...

Oobscurantismo é uma das mais importantes armas do capitalismo, resistir e esclarecer são a nossa missão.

Fernando Samuel disse...

Sem dúvida que histórias dessas consolam o coração - e de que maneira!
(mas consolavam ainda mais se - combatendo com êxito a influência nefasta da difusão organizada da anti-cultura - tivéssemos todas as cadeiras ocupadas...)

Um abraço.

Daniel disse...

O futebol até poderia ser uma forma de cultura. Se não houvesse dinheiro em jogo muito mais do que bola.

ZERO À ESQUERDA disse...

Conheço algumas gaivotas que se mudavam para a cozinha se houvesse um concerto de qualidade na sua sala de estar. Abraço.

Lúcia disse...

Há Tanto para dizer sobre isso, Samuel!
Mas ao menos isso - os que estiveram encheram a alma!

Beijos

fj disse...

e...
a culpa é só do futebol???
um abraço