quarta-feira, 4 de março de 2009

“Out of captivity” – o verniz que estala



Entre a primeira e a segunda fotografia a História deu já algumas curvas e Ingrid Betancourt (ainda bem para ela) readquiriu as suas.

Por alguma razão que deve poder ser assacada a uma qualquer falha no meu cérebro, nunca gostei da senhora, arranjando mesmo alguns motivos para isso. A saber:

- Sempre achei que a operação de campanha eleitoral em que ela acabou feita refém das FARC, foi, sabendo ela das condições no terreno e tendo sido sobejamente avisada para não a realizar, um acto perfeitamente arrogante e, no limite, uma provocação. Acredito que ela estaria convencida de que, a acontecer algum incidente, seria sempre coisa de uns dias ou mesmo horas, que só contribuiria para lhe dar trunfos para se fazer eleger como presidente da república da Colômbia.

- Quanto mais campanhas do tipo “liberdade para Ingrid” se iam fazendo pelo mundo, mais me irritava a constatação do facto de qualquer um dos prisioneiros de guerra das FARC, fosse funcionário de uma qualquer empresa norte-americana, ou um simples polícia semi analfabeto do narco-fascista Álvaro Uribe, não ter a menor chance, perante o mediatismo de uma filha da altíssima burguesia colombiana, entretanto casada com um diplomata francês e cuja família conduzia as suas muito endinheiradas campanhas a partir de Paris.

- Finalmente, quando a senhora foi libertada, na sequência de uma muito mal contada “operação de salvamento”, não me foi possível ignorar a forma como a “libertada” teve algumas palavras para os seus “companheiros” de cativeiro que haviam ficado para trás, “esquecendo-se” totalmente, enquanto vítima e ex-candidata presidencial, dos milhares de vítimas, entre assassinados e ainda prisioneiros, do regime criminoso do seu ex-adversário Uribe... agora o seu “ídolo”.

Depois da sua libertação, Ingrid ascendeu à galeria dos quase santos, em tudo o que é comunicação social. Finalmente, parece que começa a fazer algum mau tempo no paraíso. Segundo notícias que já seguia há uns dias (estava à espera para ver quando tempo o assunto levaria a chegar cá), três dos seus companheiros de cativeiro, três estadunidenses com umas profissões altamente fantasiosas, “funcionários de uma empresa agrícola americana, encarregados de recolher dados sobre a cultura de droga”, o que deve querer dizer, depois de traduzido, serem efectivamente agentes da CIA, por qualquer razão misteriosa, resolveram escrever um livro, Out of captivity”, onde contam os seus dias passados na selva colombiana e são bastante menos que simpáticos para a sua “colega” de cativeiro.

Arrogante, prepotente, convencida de que era dona daquilo, egoísta, incapaz de partilhar fosse o que fosse, actuando como sendo “superior” a todos os prisioneiros, controladora, levando o seu controlo sobre os outros até ao que comiam, liam, ou escreviam e colaborando com os guerrilheiros contra qualquer “companheiro” de que não gostasse.

Estes são alguns dos traços de personalidade com que os autores do livro descrevem Ingrid Betancourt, nas várias vezes que a mencionam no seu relato colectivo.

Não sei quais as reais motivações deste livro. Não sei se exactamente por causa dele, o livro que a própria Ingrid está para publicar com a sua versão dos factos vividos nos últimos anos, se irá vender ainda mais... mas sei que o já insuportável verniz da santidade começou a estalar.

10 comentários:

Maria disse...

Percebi agora porque tardaste... a marca "deixa-os poisar" resulta sempre melhor...

Abreijos

anamar disse...

É sempre complicado ajuizar...
Os autores do dito livro deixam muito a desejar, não??'

Joao Carlos disse...

estou de acordo desde a primeira até à última palavra.
Gostava só de lembrar a vergonhosa invasão do território do Equador para bombardear um acampamento das FARC.
E ninguém pergunta o que faziam indivíduos comprovadamente da CIA ao serviço do ditador Uribe? Ou esses são os da "democracia", quer dizer do Bem contra o Mal, também?

Valeu a pena esperar.
Magnifico Post.

salvoconduto disse...

Podes crer que para o livro dela não faltarão campanhas promocionais. Não faltará que queira alimentar o mito...

Abraço

Camolas disse...

Na altura da sua fuga com a ajuda da guerrilheira arrependidinha, achei as notícias bastante manipuladas, a vigarice tresandava a milhas.
Gostei da análise!!

Fernando Samuel disse...

Com uma santa como esta, nem são precisos anjos maus...
Em todo o caso, creio que já não virá a ser prémio nobel da paz...

Um abraço.

lino disse...

E falta dizer que o homem da praia não é o tal diplomata que gastou fortunas para a libertar. Esse levou com os butes e não pensa dela melhor do que os americanos, dois deles antigos marines.
Abraço

amigona avó e a neta princesa disse...

Que queres que diga?! És um espanto! Assino por baixo!
Abreijos (e um grande xi-coração para a vóvó Maria)...

Orlando Gonçalves disse...

Pena que nas nossas noticias televisivas não nos sejam informadas tais situações.
Obrigada Samuel. Um Abraço

samuel disse...

Obrigado pelos comentários.
Entretanto, a falta de desenvolvimento da estória na comunicação social é, no mínimo, sintomática...

Abreijos colectivos!